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É preciso devolver tempo à leitura

Entre 35 países da organização com resultados comparáveis, a média de leitura no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) caiu 25 pontos entre 2018 e 2025: de 486 para 461 pontos

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Nunca tivemos tanto acesso a textos e informações. Ainda assim, os resultados de proficiência em leitura vêm piorando consistentemente.

Os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) são um alerta. Entre 35 países da organização com resultados comparáveis, a média de leitura no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) caiu 25 pontos entre 2018 e 2025: de 486 para 461 pontos.

No Brasil, o desempenho ficou praticamente estável em relação a 2022 e próximo do patamar observado desde 2015. Mas estabilidade está longe de ser motivo para conforto: em 2025, os estudantes brasileiros alcançaram 408 pontos, 53 abaixo da média da OCDE.

Nossa mente tende a buscar explicações simples. O problema seriam as telas? A pandemia? A escola? A família? A inteligência artificial? Provavelmente há vários fenômenos sobrepostos. Identificar causas plausíveis é importante, mas isso, por si só, não resolve o problema.

Há uma pergunta mais incômoda: quanto tempo estamos reservando para que crianças e jovens leiam? E nós mesmos, adultos?

Não tempo para estudar para uma prova, ler o livro obrigatório do bimestre ou produzir um resumo. Tempo para curtir uma boa história, descobrir um autor, escolher o que ler. Formar um leitor exige prática. E prática exige tempo.

A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, de 2024, ajuda a dimensionar a questão. Dos entrevistados, 53% não haviam lido sequer parte de um livro nos três meses anteriores. Entre os leitores que gostariam de ter lido mais, 46% citaram a falta de tempo.

Esses dados não permitem concluir que a falta de tempo explique, isoladamente, a baixa leitura no Brasil. Mostram, porém, que tempo não é uma questão abstrata.

Devemos discutir também a relação da escola com os livros. Frequentemente, lê-se para responder, resumir ou ser avaliado. Tudo isso tem importância pedagógica. Mas, se toda leitura termina em uma tarefa, o livro corre o risco de virar apenas obrigação.

Nos colégios do Grupo Positivo, reservamos 20 minutos diários para leitura por prazer no Ensino Fundamental. O estudante tem tempo, estímulo e liberdade para escolher: pode começar por quadrinhos, descobrir um autor, interessar-se por um romance ou abandonar um livro que não o conquistou.

Não partimos da premissa de que 20 minutos produzirão, isoladamente, melhora nos indicadores acadêmicos. Esse efeito precisa ser medido. A ideia é simples: é inviável criar o hábito de fazer algo para o qual nunca reservamos tempo.

Esse trabalho também passa pela família. Pais e mães não precisam transformar a casa em sala de aula. Podem tornar a leitura visível. Ver os adultos lendo e ouvir conversas sobre livros mostra à criança que ler faz parte da vida. A responsabilidade não é apenas das famílias; escolas e bibliotecas continuam fundamentais.

Ler um texto longo também exige atenção: acompanhar um argumento, recuperar algo lido páginas atrás e continuar mesmo quando compreender exige esforço. Ler um livro é também aprender a não trocar de assunto a cada poucos segundos.

A inteligência artificial reforça essa necessidade. Quanto mais fácil se torna produzir respostas, mais importante é avaliá-las criticamente, comparar fontes e distinguir uma resposta convincente de uma informação confiável.

Vinte minutos não resolverão a queda da proficiência leitora. Não é essa a proposta. Antes de exigir que uma criança ou jovem leia melhor, precisamos garantir condições para que ela se torne leitora: livros ao alcance das mãos, estímulo para ler, alguma liberdade de escolha, adultos que tornem a leitura visível e tempo para abri-los.

ARTIGOS

Supremo Tribunal Federal e a democracia

O pessimismo tomou conta dos advogados, bem como, em geral, das conversas em cafés e restaurantes

07/10/2026 07h30

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As cenas do julgamento no plenário da Suprema Corte ocasionaram reações, da perplexidade à fúria, entre os operadores do Direito. Nunca uma sessão de julgamento havia causado indignação similar à atual, na mídia escrita e falada.

O pessimismo tomou conta dos advogados, bem como, em geral, das conversas em cafés e restaurantes. Em ano de eleições, a temática logo alcançou as campanhas políticas.

Não posso concordar com o sentimento coletivo de frustração com o STF que venha a nos paralisar. É preciso entender o Estado de Direito como algo dinâmico e saber avaliar que a Constituição da República necessita de melhorias. Faz quase 40 anos da promulgação.

Mostra-se inútil subjetivar as questões e inflamar proposições fora do processo democrático. Temos, sim, de examinar no plano dos fatos o que está errado, para depois aprimorar o Direito. O STF passou a ser – o que se apresenta muito positivo para a evolução do País – um problema de interesse do povo.

Saiu das lamúrias da elite intelectual para ocupar os diálogos da sociedade, inquieta frente ao que assistiu.

Na verdade, não é simples diagnosticar o que se deu com o STF e com a respectiva composição. Mas, a crise do presidencialismo e a fisiologia estabelecida entre governo federal e Senado contribuíram, sobremaneira, para a obsolescência dos critérios quanto a quem pode integrar a Corte (art. 101, da CF/1988).

De qualquer modo, sem nos encantarmos com os populismos que se oferecem à salvação nacional, cuidemos de pressionar o Poder Legislativo para remodelar o que não funciona na Suprema Corte. Cabe à parte importante dos brasileiros debater e se perguntar onde se errou na Constituição de 1988.

Nesse ponto, encontram-se na ordem do dia: melhorar critérios de escolha; alterar a forma de indicação, hoje exclusiva do presidente da República; impor prazo para o exercício da função; e, alguns sugerem, aumentar a idade mínima para ocupar o cargo de ministro da Corte.

Também importa debater a competência jurisdicional, a redução do foro em razão da função, a limitação das decisões monocráticas e a posição do regimento interno do STF no sistema jurídico-Constitucional.

Diante da balburdia de interpretações, exibida em idas e vindas ao sabor do momento político, resta-nos clamar por Constituição e leis. Sim, a crise contemporânea nos tornou mais positivistas, melhor cada qual confessar.

Todos sentimos o amargor do neoconstitucionalismo à brasileira, tão ao gosto de alguns magistrados-estrela.

Enfim, o destino nos impõe o olhar para o futuro.

Quem sabe se possa criar comissão de notáveis com o fim de propor novas previsões no texto Constitucional quanto à Alta Corte.

Os presidentes da República, do Senado e da Câmara têm poderes para instituir tais comissões, ainda que tenham somente caráter consultivo. Afinal, devem ser respeitadas as normas tocantes à iniciativa e à aprovação de emenda constitucional (art. 60, da CF/1988).

ARTIGOS

Do sistema de controle ao sistema de integridade

Auditoria, fiscalização, correição e responsabilização continuam indispensáveis, mas já não bastam para representar toda a contribuição que hoje se espera dos órgãos de controle interno

07/10/2026 07h20

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Acompanhei as discussões do 22º Encontro Nacional de Controle Interno, realizado nos dias 16 e 17 de setembro pelo Conaci, organização que congrega órgãos de controle interno de todo o Brasil. O encontro evidenciou uma transformação na forma de compreender o controle interno.

Auditoria, fiscalização, correição e responsabilização continuam indispensáveis. Mas já não bastam para representar toda a contribuição que hoje se espera dos órgãos de controle interno.

Se fosse preciso sintetizar o movimento revelado pelo encontro, diria que estamos ampliando uma lógica de sistema de controle em direção a uma lógica de sistema de integridade. Não porque controlar tenha se tornado menos importante, mas porque integridade amplia o olhar para as condições que favorecem boas decisões e comportamentos íntegros.

A confiança é uma dessas condições. Na abertura do encontro, Michel Alcoforado colocou-a no centro da discussão. Quando a desconfiança se torna a premissa, a resposta tende a ser mais controle e burocracia.

Ocorre que controles baseados predominantemente na suspeita podem reduzir engajamento e cooperação, enfraquecer a cultura de integridade e alimentar novas razões para desconfiar.

Romper esse ciclo não significa controlar menos. Bons controles reduzem arbitrariedades, aumentam a previsibilidade e ajudam a construir confiança institucional. Mas controle, por si só, não produz integridade.

Uma atuação mais madura precisa considerar também as condições que influenciam decisões e comportamentos.

Essa evolução aparece no Modelo de Maturidade das Unidades Centrais de Controle Interno (Mucci), apresentado no encontro: quanto maior a maturidade, menos a atuação se limita a reagir aos problemas e mais procura evitá-los, compreender as suas causas e atuar sobre as estruturas e os sistemas para gerar valor.

Essa evolução sugere uma ampliação do papel dos órgãos de controle interno.

Sua maturidade não pode ser percebida apenas pela capacidade de encontrar irregularidades, mas também pela contribuição para criar condições que favoreçam comportamentos íntegros, melhorem decisões, estimulem aprendizagem e cooperação, inspirem confiança e ampliem a capacidade da organização de gerar valor para a sociedade.

Essa perspectiva exige olhar não apenas para o desvio, mas também para o contexto em que decisões e comportamentos acontecem. Normas e controles continuam necessários, mas riscos, incentivos, cultura, confiança e capacidade de aprendizagem também importam.

Duas expressões do encontro sintetizam essa transformação: a integridade como a “alma de todas as macrofunções” e a ideia de “gerar confiança para gerar valor”.

Integridade não substitui o controle. O controle é parte de um sistema mais amplo orientado à integridade. Controle é indispensável. Mas integridade é maior do que controle.

Talvez esteja aí uma boa medida de maturidade: não apenas quantos problemas o controle interno consegue encontrar, mas quanto contribui para que a organização consiga evitá-los e, quando ocorrerem, aprender com eles e reduzir a possibilidade de que se repitam.

A pergunta “está tudo conforme?” continuará indispensável. Mas precisa caminhar ao lado de outra: o que estamos fazendo para aumentar a capacidade da organização de fazer o certo antes que seja necessário corrigir o erro?

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