Clique aqui e veja as últimas notícias!

VIOLÊNCIA

Dobra o número de mulheres assassinadas em Campo Grande; pandemia pode agravar casos de violência doméstica

Delegada diz que pandemia pode ser agravante para o aumento dos casos de violência doméstica
08/12/2020 08:15 - Brenda Machado


O número de mulheres assassinadas em Campo Grande por conta do gênero mais que dobrou neste ano. 

De acordo com dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), de janeiro até a primeira semana de dezembro, a Capital teve 11 crimes de feminicídio, enquanto em 2019, durante todo o ano, foram 5 casos.  

Para a delegada Fernanda Félix, da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), o aumento dos casos pode estar relacionado à pandemia do novo coronavírus, quando as mulheres que sofrem violência doméstica ficaram mais vulneráveis  em razão do isolamento social.

Acompanhe as últimas notícias

“O fim do ciclo [de violência] é o feminicídio, o qual é plenamente evitável, desde que se busque ajuda”, afirma a delegada.

O impacto causado pela quarentena pode ser observado por meio de comparativos entre 2019 e 2020. Entre janeiro e julho do ano passado, 5 mulheres morreram vítimas de feminicídio em Campo Grande, e nenhuma outra morte foi registrada até o fim de dezembro. 

Já no mesmo período deste ano, foram 7 feminicídios e, de lá para cá, mais 4 mulheres faleceram.

Ainda fazendo referência aos dados da Sejusp, em 2019, apenas 4 meses do ano foram marcados pelo crime e agora o cenário se inverteu. Apenas março, julho e outubro não contabilizaram mais mortes pelo crime na Capital.

A época mais rígida em normas contra a disseminação do vírus no Estado foi de abril a setembro, levando em consideração esse intervalo de cinco meses, Mato Grosso do Sul registrou 14 casos de feminicídios em 2019 e, este ano, 19.

Dos registros de 2020, a última vítima da Capital faleceu na noite de sexta-feira (4), na região do Parque do Lageado. Fabiana Lopes dos Santos tinha 37 anos e foi morta com 19 facadas. Os golpes perfuraram os ombros, braços e o tórax. 

e acordo com testemunhas, momentos antes do acontecido ela foi vista discutindo com um homem.

A maior suspeita da polícia é de que o culpado seja Wantuir Sonchini da Silva, 43 anos, ex-esposo da vítima, com quem ela tem 2 filhos. Wantuir estava preso desde 2018 pelo assassinato da ex-sogra e mãe de Fabiana, Alzair Bernardo Lopes, que na época faleceu defendendo a filha.  

De acordo com a delegada Sueili Araújo, que tratou do caso na época, Alzair foi morta esganada por não ter contado para o então genro onde Fabiana estava escondida. 

Conforme as investigações, em 2018, as brigas entre o casal ficaram constantes, o que fez com que Fabiana começasse a fugir de Wantuir. 

Ao ir até a casa da sogra para saber do paradeiro da companheira, ele a matou depois de ela se recusar a dar informações. Ele acabou sendo solto em setembro deste ano e agora está foragido.  

Assim como recomenda a Justiça, Fabiana havia feito o pedido de medida protetiva contra o suspeito, alegando que, ao esclarecer que sua reaproximação tinha como objetivo beneficiar os filhos do casal, mas não pretendia reatar com ele, Wantuir passou a ameaçar e a persegui-la. 

Ao procurar ajuda, Fabiana solicitou a medida, mas deixou claro que não queria que o ex-esposo fosse processado criminalmente.

Tragédia

O segundo caso mais recente de feminicídio aconteceu há uma semana, na segunda-feira (30), no Bairro Tarsila do Amaral. Dulci da Silva, 80 anos, morreu após ter a casa onde morava incendiada. 

O principal suspeito é o marido da vítima, Vicente Mendes de Campos, 76 anos.

Segundo uma das filhas da vítima, Dulci estava no relacionamento há cerca de 14 anos e o comportamento grosseiro de Vicente não era novidade. Ele a proibia de ter contato com os parentes e não a deixava sair de casa. 

“Ele era evangélico e ela era espírita, mas mudou de religião para conseguir sair de casa. Ela só podia ir à igreja, nem ver os filhos ele deixava”, conta.

Vicente também teria reformado a casa – erguido os muros e colocado grade no portão – para evitar que Dulci tivesse contato com os vizinhos. 

“A gente tentava tirar ela dele, mas ela voltava. Às vezes, ela contava que tentava erguer a voz para ele durante as brigas, mas tinha medo”, complementa a filha.

A Delegacia da Mulher informou que a idosa havia entrado com pedido de medida protetiva contra o esposo, alegando que o mesmo era muito ciumento, mas acabou solicitando a revogação da MP. O suspeito também foi atingido pelas chamas do incêndio e segue internado.

Conforme a delegada da Deam, Fernanda Félix, para conseguir mudar esse cenário de violência, homens e mulheres devem respeitar as vontades um do outro, inclusive quando se trata do fim do relacionamento em questão. 

Para ela, as mulheres precisam reagir e não aceitar a violência. “Trata-se de um novo conceito e deixar o paradigma do machismo para trás”, pontua.