Cidades

ENTREVISTA

"Queremos remodelar o terminal intermodal, agora não focado na ferrovia, mas sim na rodovia"

O titular da Sidagro disse em entrevista ao Correio do Estado que a Rota Bioceânica impõe à Campo Grande uma reformulação na estrutura logística

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Médico veterinário, Ademar Silva Junior tomou posse em 19 de abril como secretário municipal de Inovação, Desenvolvimento Econômico e Agronegócio (Sidagro). 

Em entrevista ao Correio do Estado, ele destaca a importância da Rota Bioceânica para o desenvolvimento econômico de Campo Grande. Fala ainda sobre o agronegócio da Capital e as políticas de incentivo fiscal. 

O secretário ainda ressalta ser fundamental o investimento em atrações para movimentar o centro da cidade e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano.  

Confira a entrevista a seguir: 

Houve recentemente o fortalecimento da atuação do Serviço de Inspeção Municipal, principalmente na questão da produção local, existe a intenção de fomentar a produção da Capital?

Realmente Campo Grande é o grande centro do Mato Grosso do Sul, porque trinta e tantos por cento da população do Estado está residindo na Capital. Isso faz com que a economia de Campo Grande seja muito pujante em vários setores, principalmente os serviços, a indústria e o agronegócio.

A agroindústria é o grande foco da região central de Mato Grosso do Sul. Quando a gente fala em proteína, está aí uma das maiores plantas de proteína do mundo, a JBS, instalada aqui. A cidade ganha com a instalação da Suzano em Ribas do Rio Pardo, porque o crescimento do plantio de eucalipto virá também para a área rural de Campo Grande.

Então a gente ganha com isso e vem ainda os serviços todos, temos um volume significativo de mão de obra se deslocando para Ribas e voltando para cá, trazendo muitas das vezes o salário para ser gasto em Campo Grande. Isso é uma vantagem logística, a Capital tem esse benefício de estar numa posição geográfica positiva. A cidade sempre foi muito mais voltada à pecuária, hoje chegaram grãos, as cooperativas. Mas os grandes setores de desenvolvimento são os serviços e comércio, o agro representa muito pouco. 

Acho que o agronegócio da Capital tem a grande vantagem de estar mais próximo de um grande mercado consumidor e a gente tem feito um trabalho muito grande junto aos pequenos e médios agricultores para que eles possam se organizar e aí vem o sistema de inspeção municipal para fazer com que esse pequeno agricultor também se torne um comerciante.   
 
Nesse sentido, quais estratégias a secretaria tem adotado para desenvolvimento do setor produtivo?

Primeiro exatamente é entender tudo isso, entender a magnitude da economia de Campo Grande e tentar destravar ou melhorar os ambientes de negócio. Quando a gente entende que Campo Grande tem todas essas variantes, serviço, indústria, comércio e agro. Então a gente tem feito várias estratégias e vários programas para criar essa sinergia.

Onde é que a gente está focando? Tem quatro grandes eixos que eu, quando cheguei aqui, estabeleci. O primeiro deles é fazer uma revisão e uma modernização no Prodes, na nossa Lei de Desenvolvimento Econômico. A economia vai mudando os cenários econômicos e a gente também tem que atualizar e modernizar essas leis. Uma das coisas que o empresariado se preocupa muito e trouxe essa demanda muito forte para nós, é principalmente a cláusula de reversão que hoje essa lei impõe um certo rigor. A gente tem que sentar com o empresariado,  com o poder público, rever isso, e eu estou fazendo isso junto a Fiems, à Câmara Municipal para discutir uma cláusula de reversão, que beneficie o empresário que investiu, que está gerando emprego, que está cumprindo com todas as suas obrigações, mas que também não tire o direito do município de retomar essa área caso aquela empresa não cumpra com seus compromissos. 

Depois, a Lei de Liberdade Econômica, a gente precisa desburocratizar a estrutura para abrir uma empresa. A Prefeita possivelmente manda para a Câmara na próxima semana, a lei da liberdade econômica também para o município. Isso desburocratiza, facilita a abertura de empresas e não tira a força das fiscalizações que o município tem a obrigação de fazer. 

Há alguns anos houve uma reformulação do Prodes para trazer novos investimentos para a Capital, houve algum avanço sobre isso? 

Com certeza houve avanços. Toda vez que você moderniza uma legislação de incentivos, o empresariado se move para buscar esses incentivos e continuar fazendo os seus investimentos gerando emprego. Campo Grande hoje é uma força tanto que o Caged deste mês mostra que 70% da empregabilidade de Mato Grosso Sul é referente a Campo Grande. Se você tem emprego, é porque o empresariado está investindo, está abrindo novas frentes de atuação e isso é o que demonstra esses números. Então, toda reformulação de lei de benefício gera crescimento. 

E vem o segundo pilar da nossa gestão aqui. A gente precisa também modernizar os nossos polos. O crescimento industrial e comercial de Campo Grande é tão grande que falta área. Os polos já estão quase todos ocupados, a maioria das áreas estão já prometidas ou endereçadas. O que precisa a gente fazer lá hoje? Melhorar investimentos, asfalto, esgoto, água, luz, limpeza de terrenos, acesso, levar o serviço público para dentro dos polos. Exatamente.

Estivemos no polo oeste, que está com 20, 30 empresas, um volume de mil pessoas trabalhando. Essas pessoas querem morar mais perto, então precisa ter casa, transporte, creche, ou seja, o serviço público também tem que se aproximar desses polos industriais, isso também é uma política que a gente está avançando junto à prefeita para que os serviços municipais cheguem mais próximos a esses polos industriais que estão crescendo.

Vamos ampliar os dois polos, aumentar as áreas do Oeste e do Norte para que esses empresários possam realmente continuar investindo. O que eles querem um pouco é uma área para colocar sua empresa, benefícios fiscais, alguns incentivos. 

Quais ações para fomentar a economia da Capital?

A economia da Capital quase anda sozinha, como eu disse, tem uma força motriz muito grande devido a sua logística, devido a sua população. O Estado e o município precisam ajudar a criar ambiente, primeiro ambiente de inovação e aí a Prefeitura Municipal está colocando em Campo Grande um parque tecnológico, voltado para a vocação econômica desse município onde a gente vai absorver startups, empresas de inovação, dar soluções às empresas que já estão instaladas, mas que precisam crescer.

Precisamos de infraestrutura, de asfalto, de esgoto, de água, nós precisamos de casa, habitação, ou seja, quando a gente fala no que precisa ser feito para que a gente cresça economicamente vai além da Sidagro, nós precisamos envolver outras secretarias.

Isso seria também em parceria com envolvimento das verbas federais e estaduais, ou seja, é um trabalho muito mais amplo do que só o município. O município vai dar as bases para esse crescimento. 
 
Havia uma expectativa da Pasta, de que o PIB da Capital crescesse 5% no ano passado, essa perspectiva se confirmou? Para este ano qual a estimativa?

Na verdade, não se confirmou uma expectativa alta de 5%, era uma visão do mercado naquele momento pós-pandemia, a gente acreditava que o mercado fosse reagir fortemente e que Campo Grande fosse puxar esse PIB aí na casa dos 5%. Isso nos confirmou hoje, tem uma expectativa em torno de 2%, 2,5% que está já se configurando como real. Eu acredito que fique nisso, isso para mim já é um número significativo, pensando que o estado de São Paulo, o qual é o grande motor econômico do Brasil, está com uma perspectiva de 2,4%. Ou seja, nós estamos no Centro-Oeste do País com a mesma perspectiva de aumento do grande motor econômico que é São Paulo.  

Foi apresentado um projeto com a intenção de transformar o Porto Seco em local para manobras com motocicletas, mas que não foi aprovado. Há algum projeto para utilização do local?

É importante conceituar o terminal intermodal de cargas e porto seco. Tem um pouco de confusão nessas definições. O terminal intermodal de carga é um espaço físico onde você coloca vários modais, rodoviários, aeroportuários, hidroviários e principalmente ferroviário, que era o grande chamariz para se ter um grande terminal e intermodal de cargas em Campo Grande. Dentro desse terminal é possível e deve-se colocar um porto seco que nada mais é do que uma Aduana onde você consegue fazer todo o processo administrativo de importação e exportação. 

A gente acaba usando o termo Porto Seco para generalizar tudo isso. Então, naquele período, foi trabalhado, já que havia um incentivo nacional para se criar grandes estruturas de logística. Tínhamos a vinda de minério de Corumbá, parando em Campo Grande e indo para o porto de Santos e o retorno com combustível. Então você tinha uma malha ferroviária que viabilizou fortemente um terminal, um terminal intermodal de cargas e a Rumo, naquele momento, foi a empresa que ocupou esse terminal. Essa malha ferroviária foi mudada, o cenário econômico alterou isso e hoje praticamente o terminal não tem mais essa funcionalidade.

A Prefeitura Municipal está fazendo um grande estudo para dar uma nova roupagem a esse terminal. Nós estamos no centro da Rota Bioceânica e esse terminal tem tudo a ver para ajudar nesse espaço, nesse quesito de modal rodoviário. Queremos remodelar o terminal intermodal, agora não focado na ferrovia, mas sim na rodovia.  

Os comerciantes do centro de Campo Grande tem reclamado de forma recorrente da queda das vendas e principalmente da falta de movimento, há algum projeto para levar esse consumidor de volta ao centro?

Há uma mudança cultural na forma de se comprar hoje, porque Campo Grande tem muitos bairros populosos. Muita gente prefere comprar no próprio bairro e o comércio mudou muito. No passado, o centro era muito forte porque era o único e o maior centro comercial que tinha. A cidade vai crescendo, se estruturando, vai se modernizando, isso muda um pouco.

Depois veio a mudança de hábito com a internet, hoje também as pessoas aprenderam e culturalmente está mais simples e mais fácil você fazer compras virtualmente, receber em casa e não ter que se deslocar. Depois você tem os grandes shopping centers também onde você encontra várias lojas reunidas no mesmo espaço físico. Isso fez com que o centro da cidade começasse a diminuir a sua força econômica. 

A gente precisa criar mecanismos para voltar as pessoas para o centro da cidade. As habitações sociais são algo que precisa ser pensado, colocar um programa forte, e o município já começou, tem ali a Vila dos Idosos, tem outro programa grande que são quase 800 moradias sociais, ou seja, você leva as pessoas para morar no centro da cidade. A farmácia vai se instalar, o mercado e as lojas vão se instalar.

Depois, a gente tem um trabalho com a Secretaria de Turismo para levar eventos. Eventos levam pessoas, atraem movimento, então tem que circular também ali naquele centro de cidade um volume maior de pessoas para reativar este comércio. São várias situações e, como eu disse, de várias secretarias que precisam se juntar para fazer uma revitalização desse centro da cidade. 
 
Como a Capital pode se beneficiar com o funcionamento da rota bioceânica?

A vantagem logística de Campo Grande estar quase no centro dessa grande rota é enorme. A gente esteve agora em Loma Plata, no Paraguai, numa reunião que discutia as vantagens e as desvantagens de cada município dentro da rota. E eu entendo que para Campo Grande, esse centro logístico entra de novo como fundamental porque toda essa rota ela vai se basear fortemente na rodovia. 

Campo Grande vai ser um grande entreposto de passagem de mercadoria, de recebimento de mercadoria. Tenho para mim que nós podemos deixar de ser final de rota, mas meio de distribuição para o Brasil quase todo, tudo que vier do Chile pode ser aqui distribuído para o Brasil todo. Vai ser a capital das oportunidades com certeza e a rota vai ser talvez a maior oportunidade que Campo Grande vai ter em décadas.. 

Como a secretaria tem auxiliado os produtores rurais nesse período de estiagem severa?

 Lutar contra a natureza é sempre um grande problema. A gente está vendo que o Brasil é um país continental, a gente olha para baixo, tá vendo o sul do país inundado, alguns milhares de quilômetros para cima a gente tá vendo o Pantanal pegando fogo por falta de chuva e uma estiagem muito antecipada. De que jeito que a secretaria tem atuado? 

Primeiro, com orientação a gente precisa capacitar, orientar, mostrar a esse produtor que um período de estiagem é sempre um risco para a sua produção. Depois, a gente está aumentando a frota de maquinário. Tem uma grande emenda da senadora Tereza Cristina que a gente está viabilizando para que a gente possa comprar novos equipamentos.  

Perfil

Ademar Silva Junior 

Ademar Silva Junior é formado em medicina veterinária e especialista em agronegócios. Foi presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso do Sul (Famasul); presidente do Conselho Curador da Fundação Educacional para o Desenvolvimento Rural (Funar); presidente do Conselho Administrativo do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/MS) e vice-presidente de Finanças da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Ele também foi presidente da Anater, secretário-adjunto da Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc) e diretor-presidente da Fundação do Trabalho de MS (Funtrab).

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Prisão Preventiva

Justiça mantém vereador preso após acidente e suspeita de suborno em MS

Parlamentar teria fugido sem prestar socorro após colisão que deixou adolescente de 17 anos em estado grave e é acusado de tentar subornar e ameaçar policial.

20/09/2026 17h54

Dionaldo Morinigo (PDT), vereador de Ponta Porã e subtenente do Corpo de Bombeiros, teve a prisão preventiva mantida pela Justiça neste domingo (20)

Dionaldo Morinigo (PDT), vereador de Ponta Porã e subtenente do Corpo de Bombeiros, teve a prisão preventiva mantida pela Justiça neste domingo (20) Foto: Reprodução.

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A Justiça manteve preso preventivamente, neste domingo (20), o vereador de Ponta Porã Dionaldo Morinigo (PDT), de 49 anos, que também é subtenente do Corpo de Bombeiros. Ele é investigado após se envolver em um acidente de trânsito que deixou um adolescente de 17 anos gravemente ferido e, segundo os autos, fugir do local sem prestar socorro.

O caso ganhou novos contornos após a colisão. Conforme as informações reunidas na investigação, um escrivão da Polícia Civil que presenciou o acidente seguiu o parlamentar e conseguiu abordá-lo cerca de dois quilômetros depois.

Durante a abordagem, Dionaldo teria tentado convencer o policial a resolver a situação sem acionar os órgãos de segurança.

A prisão em flagrante foi convertida em preventiva a pedido do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS).

Durante audiência de custódia realizada na manhã deste domingo (20), no plantão judicial da VI Região, o juiz Rafael Vieira de Leucas manteve o vereador preso ao considerar que, diante das circunstâncias apresentadas no caso, medidas cautelares mais brandas não seriam suficientes.

O acidente ocorreu na noite de sexta-feira (18), em Ponta Porã, município localizado na fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai.

Segundo os autos, Dionaldo conduzia uma Toyota Hilux quando passou em alta velocidade por uma lombada e atingiu lateralmente uma Volkswagen Saveiro.

O veículo atingido era conduzido pelo adolescente de 17 anos. Com o impacto, o jovem ficou desacordado e precisou ser encaminhado ao Hospital Regional.

Conforme informações apresentadas ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), o adolescente sofreu ferimentos graves. Depois da colisão, entretanto, o vereador teria deixado o local sem prestar socorro à vítima.

Abordagem e suspeita de suborno

A saída do vereador do local foi presenciada por um escrivão da Polícia Civil, que decidiu acompanhar a caminhonete. A perseguição se estendeu por aproximadamente dois quilômetros até que o policial conseguiu abordar Dionaldo.

Foi nesse momento que, conforme o relato registrado nos autos, o parlamentar teria se apresentado como integrante do Corpo de Bombeiros e agente político.

Durante a conversa, Dionaldo teria perguntado ao escrivão se existia alguma maneira de “resolver ali” a situação, sem que os órgãos policiais fossem envolvidos.

A declaração foi interpretada como uma possível tentativa de suborno. Ao analisar o caso, a Justiça também considerou que a conduta pode indicar, em tese, uma tentativa de interferência na atuação dos agentes públicos responsáveis pela ocorrência.

Ainda segundo as informações da investigação, a abordagem teria sido marcada por momentos de tensão. Dionaldo é acusado de xingar e ameaçar o escrivão, afirmando que iria “pegá-lo depois”.

Sinais de ingestão de álcool

As circunstâncias verificadas após o acidente também passaram a integrar a investigação. Dionaldo se recusou a realizar o teste do bafômetro.

Apesar da recusa, policiais que participaram da ocorrência relataram sinais de possível consumo de bebida alcoólica, entre eles cheiro de álcool, roupas desarrumadas, agressividade e exaltação.

Latas de cerveja também foram encontradas dentro da caminhonete conduzida pelo parlamentar.

Diante do conjunto de elementos reunidos, o vereador foi preso em flagrante e indiciado por crimes que incluem lesão corporal no trânsito, corrupção ativa, desacato e ameaça. O processo também registra a fuga do local do acidente.

Posteriormente, o MPMS pediu ao TJMS a conversão da prisão em flagrante em preventiva.

O pedido foi acolhido. A avaliação judicial foi de que a adoção de medidas cautelares menos severas não seria suficiente diante das circunstâncias apresentadas no processo.

Vereador relata violência durante prisão

A audiência de custódia realizada neste domingo também abriu uma nova frente de apuração. Durante o procedimento, Dionaldo relatou ter sido vítima de violência no momento da prisão.

Diante da declaração, o juiz determinou o encaminhamento do caso ao Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial (Gacep), ligado ao Ministério Público, para que os fatos sejam apurados.

A medida não altera, neste momento, a decisão de mantê-lo preso preventivamente. Além da prisão, a Justiça determinou a suspensão do porte de arma do vereador. Uma pistola Sig Sauer calibre 9 milímetros permaneceu apreendida.

O Comando-Geral do Corpo de Bombeiros também foi comunicado sobre o caso para que sejam adotadas as medidas administrativas cabíveis em relação ao subtenente.

 

Contratos Sob Suspeita

Documentos revelam contratos que colocaram Santa Casa na mira do MPMS

Investigação aponta pagamentos sem comprovação, suspeita de concorrência simulada e quase R$ 10 milhões repassados a empresas ligadas a um dos núcleos apurados pelo Gecoc.

20/09/2026 17h25

Agentes do Gecoc estiveram na Santa Casa durante a Operação Antidotum, que investiga contratos e pagamentos milionários da instituição.

Agentes do Gecoc estiveram na Santa Casa durante a Operação Antidotum, que investiga contratos e pagamentos milionários da instituição. Foto: Marcelo Victor/Correio do Estado.

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A investigação que levou à prisão de integrantes da cúpula da Santa Casa de Campo Grande aponta para uma estrutura que teria se instalado em diferentes setores da instituição e de sua operadora de planos de saúde, envolvendo contratos considerados fraudulentos pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), pagamentos sem comprovação da efetiva prestação dos serviços e sucessivas tentativas de impedir o acesso de órgãos de controle a documentos.

Enquanto o Ministério Público investiga contratos milionários e suspeitas de desvios dentro da Santa Casa, pacientes continuam enfrentando dificuldades para conseguir procedimentos no maior hospital de Mato Grosso do Sul.

Um caso recente expõe esse contraste: Neusa Epifânia de Castro de Almeida, de 59 anos, permaneceu por mais de uma semana internada à espera de uma cirurgia para colocação de prótese após fraturar o fêmur.

Segundo a família, ela chegou a ser submetida a jejum cinco vezes diante da expectativa de realização do procedimento, que acabou sendo sucessivamente adiado pela falta de liberação do material necessário.

O episódio ocorreu justamente no período em que a Operação Antidotum atingiu a cúpula da instituição.

A família chegou a questionar se as dificuldades administrativas provocadas pela investigação teriam relação com a demora, mas, até o momento, não há comprovação de que os supostos desvios ou a operação tenham causado diretamente o atraso da cirurgia.

O caso, no entanto, evidencia o contraste entre os milhões de reais colocados sob suspeita pelo Ministério Público e as dificuldades enfrentadas por pacientes que dependem da estrutura hospitalar.

Os detalhes da investigação aparecem nos autos que embasaram a Operação Antidotum, deflagrada em 11 de setembro pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc).

A apuração começou após uma denúncia recebida pela 29ª Promotoria de Justiça de Campo Grande e resultou na abertura de um Procedimento de Investigação Criminal.

No centro da apuração está a gestão de Alir Terra Lima, que assumiu a presidência da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande em fevereiro de 2023 e, segundo o MPMS, passou a exercer também influência sobre a Operadora Santa Casa Saúde.

A investigação se divide principalmente em duas frentes. A primeira envolve a contratação da Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda., empresa responsável pela digitalização do acervo documental da Santa Casa.

O trabalho contratado incluía a organização e preparação dos documentos físicos, a digitalização das páginas, a indexação dos arquivos, processo que permite classificá-los e localizá-los posteriormente, e o armazenamento digital.

O serviço abrangia prontuários médicos de pacientes e outros documentos administrativos mantidos pela instituição.

A execução e o controle desses serviços passavam pelo Serviço de Arquivo Médico e Estatística (Same), setor responsável pelos prontuários e coordenado por Monique Gregório de Oliveira, uma das seis pessoas presas preventivamente na Operação Antidotum.

Segundo o Ministério Público, era justamente ali que ficavam registros necessários para conferir quantas páginas haviam sido efetivamente digitalizadas e comparar essa produção com os valores cobrados e pagos à Redvalue.

Foi nesse ponto que surgiram alguns dos questionamentos do Conselho Fiscal. Conforme os autos, em março e abril de 2025, foram encaminhados a Monique pedidos de informações sobre os procedimentos utilizados para medir, conferir e fiscalizar os serviços de digitalização. Segundo o MPMS, as solicitações não foram respondidas.

A falta dessas informações, sustenta o Gecoc, dificultou a conferência da quantidade efetivamente digitalizada, dos períodos de execução, dos lotes processados e, principalmente, da correspondência entre os serviços realizados e as notas fiscais pagas pela Santa Casa.

As suspeitas, porém, não ficaram restritas à execução do contrato. Os investigadores também passaram a analisar como a Redvalue havia sido escolhida.

Segundo o Gecoc, a contratação, formalizada em outubro de 2024, teria ocorrido sem estudo técnico, termo de referência, análise de viabilidade ou demonstração de vantagem econômica.

A cotação utilizada para justificar a escolha também entrou na mira do Ministério Público. Conforme a investigação, empresas apresentadas como concorrentes teriam vínculos entre si e com o mesmo núcleo empresarial relacionado a Maurício Aparecido Benites, empresário ligado à Redvalue e um dos seis investigados presos preventivamente na Operação Antidotum.

Para o Gecoc, esses vínculos levantaram a suspeita de que a disputa de preços apresentada no processo de contratação poderia não ter representado uma concorrência efetiva entre empresas independentes.

Conselho apontou diferença de R$ 511 mil

Uma análise realizada pelo Conselho Fiscal da própria Santa Casa identificou divergência entre aquilo que teria sido efetivamente produzido pela Redvalue e os valores pagos pela instituição.

De acordo com o documento, a diferença chegou a aproximadamente R$ 511,3 mil. Diante das inconsistências, o Conselho Fiscal recomendou a apuração das responsabilidades pelos pagamentos e a suspensão imediata do contrato. 

Mesmo após a recomendação, porém, o contrato permaneceu vigente. O MPMS atribui a decisão a Alir Terra Lima e afirma que a então presidente tinha poder para determinar a suspensão da contratação. 

A investigação também aponta que não foi encontrada documentação que demonstrasse a qualificação técnica da Redvalue para atuar em hospitais de grande porte nem certificações que, conforme o Ministério Público, seriam necessárias para a execução dos serviços.

Também não teriam sido identificados estudos sobre custos operacionais ou a economia que a contratação poderia proporcionar à Santa Casa. 

Empresas teriam vínculos entre si

Outro ponto considerado relevante pelo Gecoc está nas empresas utilizadas para a cotação de preços. Embora o procedimento administrativo registrasse propostas de quatro empresas, a investigação afirma ter encontrado vínculos entre participantes da concorrência.

Para o Ministério Público, os elementos levantam suspeita de que a disputa tenha sido simulada para conferir aparência de concorrência a uma contratação previamente direcionada. 

Um dos exemplos apresentados envolve a Redvalue e a Ex Be Finance & Tecnology. O MPMS afirma que a Ex Be também mantinha vínculo com Maurício Benites e que, na época das cotações, pertencia formalmente ao empresário.

Posteriormente, a empresa passou para o nome de Fernanda de Freitas Diniz, apontada no documento como companheira dele. 

Os investigadores destacaram ainda semelhanças entre as propostas comerciais apresentadas pelas empresas, com estrutura, expressões e organização textual consideradas praticamente idênticas.

Na avaliação do MPMS, isso indicaria a possibilidade de os documentos terem sido produzidos a partir de um mesmo modelo ou fonte. 

Segunda frente envolve Santa Casa Saúde

A investigação avançou também sobre contratos celebrados pela Operadora Santa Casa Saúde. Conforme o Ministério Público, empresas formalmente controladas por Paulo da Cruz Duarte, descrito nos autos como sócio e parceiro profissional de Alir Terra Lima, passaram a prestar uma série de serviços à operadora.

As atividades contratadas iam desde assessoria jurídica, atendimento, cobrança e emissão de boletos até comercialização de planos, administração de beneficiários, entrevistas qualificadas, telemedicina, publicidade e trabalhos relacionados à implantação da filial de Dourados.

O volume de recursos movimentado por essas contratações chamou a atenção dos investigadores. Segundo os autos, somente em 2025, cerca de R$ 9,6 milhões foram repassados às empresas vinculadas a Paulo Duarte pelos diferentes serviços prestados à operadora.

No mesmo ano em que esses contratos movimentaram quasee 10 milhões, a Santa Casa Saúde registrou resultado negativo de aproximadamente R$ 3,6 milhões.

Além dos valores, o Gecoc passou a analisar a relação profissional existente entre Paulo e Alir antes mesmo das contratações.

Segundo a investigação, os dois já mantinham atuação conjunta na advocacia, aparecendo como advogados em processos nos quais representavam clientes em conjunto, além de compartilharem estrutura profissional instalada em imóvel pertencente a Alir.

Para o Ministério Público, esses vínculos integram o conjunto de elementos analisados para apurar as circunstâncias em que as empresas ligadas a Paulo passaram a prestar serviços à operadora.

MPMS fala em ocultação de documentos

Além dos contratos e pagamentos, uma parte significativa da investigação é dedicada ao que o Ministério Público classifica como uma “ocultação sistemática de documentos”.

Na prática, o Gecoc sustenta que informações consideradas essenciais para fiscalizar contratos e conferir pagamentos não eram entregues, eram fornecidas de maneira incompleta ou permaneciam fora do alcance dos órgãos de controle, mesmo após pedidos formais.

Entre os materiais cobrados estavam contratos e anexos, propostas comerciais, critérios usados para definir preços, memórias de cálculo, ordens de serviço, notas fiscais detalhadas e relatórios capazes de demonstrar quais serviços haviam sido efetivamente executados.

Segundo os investigadores, documentos necessários para reconstruir contratos, pagamentos e serviços teriam sido reiteradamente negados ou apresentados de forma incompleta ao Conselho Fiscal.

Um dos episódios citados pelo Ministério Público para sustentar essa suspeita envolve justamente o setor comandado por Monique.

No caso da Redvalue, o Conselho Fiscal encaminhou ofícios em março e abril de 2025 solicitando informações sobre a medição, conferência e fiscalização dos serviços de digitalização. Conforme os autos, os pedidos não foram respondidos.

Já na Operadora Santa Casa Saúde, o MPMS atribui a Beatriz Lemes da Silva a responsabilidade pela entrega de documentos relacionados às empresas vinculadas a Paulo Duarte.

A investigação afirma que, mesmo depois de sucessivas cobranças, teriam sido apresentados apenas documentos selecionados, permanecendo ausentes contratos originários, propostas comerciais, notas fiscais detalhadas, memórias de cálculo e relatórios de execução. 

CGE também teria enfrentado resistência

A dificuldade de acesso aos documentos, segundo o Ministério Público, não teria ficado restrita ao Conselho Fiscal. A Controladoria-Geral do Estado (CGE) realizou auditoria especial na Santa Casa com foco na aplicação de recursos financeiros provenientes do Sistema Único de Saúde (SUS) durante 2025.

Quando requisitou informações sobre despesas da Santa Casa e da operadora, entretanto, a CGE não teria recebido todo o material solicitado. O relatório citado pelo MPMS registra problemas no fornecimento das informações.  

A controvérsia chegou ainda ao Poder Judiciário. Em uma ação de produção antecipada de provas movida pelo Instituto Artigo Quinto, a Justiça determinou a apresentação de documentos relacionados às contas, contratos e pagamentos da instituição. A determinação foi posteriormente confirmada pelo Tribunal de Justiça.

Segundo os autos da investigação criminal, Alir Terra Lima e Beatriz Lemes da Silva não apresentaram a documentação e recorreram da decisão.

Ao tratar da resistência da instituição, o juiz Eduardo Lacerda Trevizan registrou nos autos seu “espanto” com a resistência da Santa Casa em apresentar suas contas.  

Operação Antidotum

A partir do conjunto de elementos reunidos, o Ministério Público pediu à Justiça prisões preventivas, buscas e apreensões e o afastamento cautelar de investigados ligados à Santa Casa e à operadora. O requerimento foi apresentado pelo Gecoc, vinculado à 29ª Promotoria de Justiça de Campo Grande.

A Operação Antidotum foi deflagrada em 11 de setembro e levou à prisão preventiva de seis investigados. Segundo o Ministério Público, as condutas atribuídas a eles são diferentes e estariam relacionadas às diversas etapas das contratações e pagamentos apurados.

Alir Terra Lima, então presidente da Santa Casa, é apontada pelo Gecoc como figura central da estrutura sob investigação.

O órgão sustenta que ela teria permitido a manutenção de contratos sob suspeita mesmo após questionamentos de órgãos de fiscalização, além de exercer influência sobre decisões administrativas e financeiras da instituição.

Alessandro Dias Junqueira, que atuava na área administrativa e como fiscal do contrato da Redvalue, teria participado da contratação e atestado serviços cuja execução, segundo o MP, não estava suficientemente comprovada.

Rinaldo Hakme Romano, ligado à direção financeira, teria participado da condução do contrato, recebido de Maurício uma minuta do acordo antes da formalização do negócio e atuado na viabilização dos pagamentos.

Paulo Guilherme Gutierrez Mariosa, que exercia função na área financeira e presidia o Comitê de Contratos, é apontado como participante da formalização do negócio e da programação e autorização de pagamentos que, conforme o Ministério Público, teriam ocorrido sem a comprovação integral dos serviços correspondentes.

Monique Gregório de Oliveira, já mencionada por comandar o setor relacionado à medição da digitalização dos prontuários, teria, segundo o Gecoc, conhecimento das falhas apontadas na aferição dos serviços.

A apuração também registra que pedidos de informações encaminhados pelo Conselho Fiscal ao setor não foram respondidos e analisa documentos posteriormente produzidos para justificar a execução dos serviços e os pagamentos.

Já o empresário Maurício Aparecido Benites é apontado pelo Ministério Público como responsável pelo núcleo empresarial relacionado à Redvalue.

Segundo a apuração, ele teria participado das tratativas do contrato, encaminhado previamente uma minuta do acordo e mantido vínculos com outras empresas que participaram da cotação utilizada na contratação.

Essas relações estão entre os elementos usados pelo Gecoc para sustentar a suspeita de que a concorrência entre as empresas teria sido apenas aparente, ou seja, de que as propostas apresentadas como alternativas para a contratação não representariam uma disputa efetiva entre empresas independentes.

As acusações fazem parte da investigação conduzida pelo Ministério Público e ainda serão submetidas ao contraditório e à análise da Justiça. Não há condenação dos investigados pelos fatos apurados na Operação Antidotum.

 

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