Correio B

Isaac de Oliveira

Entre onças e flores

Entre onças e flores

Redação

04/10/2010 - 04h00
Notícia sem imagem

Thiago Andrade

A arte de Mato Grosso do Sul sempre teve que lidar com os temas regionais sem cair na repetição. O pantanal e os animais da região, como onças e tuiuiús, ganharam espaço privilegiado, mas nem sempre foram bem aproveitados. A maior das querelas sempre foi: como a arte contemporânea se apropriaria de signos tão gastos? Para dois nomes de importância da história da arte sul-mato-grossense, que abrirão exposições nesta semana, os problemas de como representar o regional sem cair nos clichês da arte decorativa sempre se impuseram. Tanto Isaac de Oliveira quanto Lúcia Barbosa sempre conseguiram se sair bem diante desses desafios.
Amanhã, às 19h30min, acontece na Morada dos Baís a abertura da exposição “O olhar da onça”, na qual 14 obras de Lúcia Barbosa, além de cinco de artistas convidados, desconstroem o mais conhecido dos animais do Pantanal, a onça pintada. “Minha onça é panfletária! Eu quero protestar com a minha pintura, por isso faço um trabalho que bebe nas fontes contemporâneas. Uso colagem, gravura e tento inovar com impressão em lona crua, algo que nunca vi em Campo Grande”, descreve a artista plástica.
A mostra nasceu de um convite para participar das exposições em comemoração aos 15 anos da Morada dos Baís. Embora o tema das onças seja recorrente, tendo feito parte de cinco ou seis exposições da artista, o tratamento que Lúcia dá a ele busca sempre a inovação. Segundo ela, a proposta é fazer uma leitura construtivista do tema. “Transformei as onças em partes de bandeiras retalhadas e brinquei muito com as pintas delas. Explorei os detalhes procurando sempre ir além do cotidiano”, descreve.
Para ela, o principal no trabalho é questionar. “Eu proponho um trabalho aberto, que deixe as perguntas para quem está vendo a exposição. Meu viés é estético e a partir dele o público poderá fazer suas leituras”, aponta Lúcia. Em 30 anos de carreira, ela acredita que está na hora dos artistas jovens encontrarem seu espaço para recriar a arte sul-mato-grossense. “Certas coisas mudaram, principalmente com o curso de Artes Visuais da universidade federal, mas eu ainda não vejo o fortalecimento da arte no Estado”, critica.
Os tempos são outros e, apesar de ter feito o que julgava necessário para a arte de Mato Grosso do Sul, Lúcia se exalta ao encarar um quadro em que pouca coisa acontece de novo. “Faltam grupos, faltam reuniões em ateliês, falta discussão. A arte está estagnada porque os artistas estão criando sozinhos, cada um na sua. Aonde estão as ideias arrojadas e as pessoas ousadas que podem mostrá-las?”, indaga-se. Segundo ela, não se pode generalizar, pois existem artistas com bons trabalhos, mas ela vê na falta de integração um dos grandes obstáculos para o desenvolvimento das artes visuais.

A reflorada de Isaac de Oliveira

Isaac de Oliveira não para nunca de produzir. Em quase 40 anos de carreira, pintou mais de 500 trabalhos e sempre teve como tema a variedade do ecossistema pantaneiro. Peixes, aves e a vegetação figuram em seu trabalho e, dessa vez, o olhar do artista se volta para as árvores que, segundo ele, são as principais representantes da flora de Mato Grosso do Sul. “As flores carregam uma beleza muito grande e, de uns tempos para cá, fiquei fascinado com isso”, aponta o artista plástico.
Ele inaugura a exposição “Reflorada dos ipês” na quinta-feira, às 19h30min, na Unipsico/MS. “Retomei os ipês, pois, assim como na natureza eles florecem duas vezes, achei importante mostrá-los duas vezes, em momentos diferentes. Pintei novos quadros que poderão ser vistos na exposição”. O artista pretende expor no máximo 13 trabalhos. De acordo com ele, o contexto da exposição permanece o mesmo, no entanto, os novos trabalhos dão um outro ar à mostra.
Para o futuro, Isaac conta que está se organizando para viajar para os Estados Unidos, onde montará uma exposição a ser realizada em junho do ano que vem. “Viajo ainda este mês e vou entrar em contato com alguns galeristas para abrir espaço para a minha arte. Estou viajando exclusivamente a trabalho e existe a possibilidade de passar alguns meses por lá, produzindo novas obras”, planeja. O artista também prepara uma retrospectiva para o Museu de Arte Contemporânea (Marco), que deverá ser exposta em março de 2011.
Em sua visão, a arte sul-mato-grossense tem sofrido seriamente por falta de profissionalização do mercado. “Não há marchands aqui em Campo Grande, gente especializada em vender arte. Há galeristas, mas o desconhecimento sobre o mundo artístico ainda é grande”, critica. (TA)

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