As paisagens pitorescas da Cidade Branca serviram de pano de fundo para o cineasta Reynaldo Barros, que decidiu produzir o filme “O caso de Joanita”, baseado em conto homônimo do escritor Augusto César Proença. Com recursos próprios, o diretor de 73 anos resolveu voltar às câmeras neste ano, encerrando as filmagens no início de outubro. Quem quiser conferir o produto final pode ir à pré-estreia do média-metragem de 30 minutos, hoje, no Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul (Marco), às 20h.
A longa trajetória de Reynaldo Paes de Barros inclui momentos importantes, como a direção de fotografia de “Menino do engenho”, de 1965, dirigido por Walter Lima Júnior, além da direção de quatro longa-metragens, entre eles, “Pantanal de sangue”, de 1971, e “A noite dos imorais”, de 1979. Tendo estudado cinema na renomada University of California, Los Angeles, seu trabalho como cineasta se estende por cerca de quatro décadas.
“Eu estava afastado do cinema há mais de dez anos. Como filmar em película se tornou economicamente impraticável para quem faz cinema independente, resolvi apostar no vídeo”, explica Reynaldo, sobre a escolha de usar câmeras digitais HD na produção. O diretor e o escritor Augusto Proença se inscreveram em edital do Ministério da Cultura para a produção de um curta-metragem.
Enquanto esperavam o resultado, Augusto mostrou ao cineasta o conto inédito sobre a mulher bipolar que vive seus momentos de euforia apenas durante as festas de São João. “Joanita é uma mulher por volta dos seus 30 anos. Queria trazer este universo para o conto. Foi nessa linha que Reynaldo desenvolveu o roteiro, adicionando personagens e situações, adaptando para a linguagem do cinema”, descreve o autor do conto.
“Vi potencial cinematográfico naquele texto e decidi que o levaria para as telas. Tinha equipamentos e um pouco de dinheiro reservado. Preparei o roteiro e parti em busca de atores”, detalha. Recém-chegado a Campo Grande, Reynaldo – que nasceu em Santo Antônio do Leveger, município próximo de Cuiabá – conhecia muito pouco da cena teatral, mas, por meio de indicações, chegou à atriz Luciana Kreutzer. “Ela se encaixou perfeitamente no papel. É uma atriz excepcional”, elogia. O elenco também conta com João Júlio Dittmar, que interpreta o marido de Joanita, Bianca Machado, de Corumbá, vive a amiga legal, e Bruno Lopes interpreta seu filho adolescente.
O enredo gira em torno de Joanita, mulher que sofre de distúrbios psiquiátricos, sempre infeliz, que se alegra apenas nas festividades de São João. Sua beleza atrai os homens da cidade, inclusive o filho da grande amiga Olga, mas ela é casada com Nicanor, homem mais velho, incapaz de lhe satisfazer física ou afetivamente. Rumores apontam que o homem é um traficante e isso acaba levando-os para fora da cidade. Um ano depois, Joanita retorna, já divorciada, e se envolve em uma série de eventos que provocarão a partida definitiva.
“Eu estava parado e queria fazer alguma coisa. Quando surgiu a oportunidade de filmar, me agarrei a ela. Este filme é uma prova de que para fazer cinema, o essencial é a vontade. Embora seja muito caro produzir, as novas tecnologias facilitaram o trabalho”, ressalta o diretor. A qualidade do material poderá ser constatada hoje. Reynaldo acredita que a produção não deixa nada a dever aos filmes produzidos em grandes centros, ainda que seja mais fácil captar investimentos por lá.
Para a atriz Luciana Kreutzer, apesar da agenda cheia no período das filmagens, o projeto a conquistou. “Nunca trabalhei com cinema. Fiz alguns vídeos, mas a produção de um filme é bem diferente. O teatro é outra linguagem. Gostei do resultado”, aponta a atriz. Segundo a atriz, a personagem é uma mulher sedutora, no auge da maturidade sexual, que não é mais feliz no casamento, nem na vida. “Mas alguns eventos geram uma reviravolta em sua vida. É uma personagem densa, forte e profunda”, descreve Luciana.
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