O público que visitou o Museu de História do Pantanal (Muhpan) na noite de sábado sentiu-se um pouco o atrapalhado vigia noturno Larry, na pele do ator Ben Stiller, no filme “Uma noite no museu”. Inaugurando abertura, o Muhpan promoveu uma visita animada, na qual personagens – índios, peões, bandeirantes, colonizadores, jesuítas, militares e imigrantes – ganharam vida, circulando pelos amplos salões.
Interpretados por funcionários da Fundação Barbosa Rodrigues, que gerencia o museu, e alunos da Universidade Federal de MS e do programa Pró-Jovem de Corumbá, figuras históricas saíram das maquetes, ceras e quadros para se misturar aos visitantes. Marechal Rondon falou ao telefone; Wanderley Baís, ex-dono do prédio onde fica o museu, recepcionou a todos; Guia Lopes da Laguna ensaiou a retirada na Guerra do Paraguai.
A visita animada inaugurou uma nova fase do Muhpan, cujo acervo conta a ocupação humana na região pantaneira em oito mil anos. O evento atraiu centenas de pessoas – corumbaenses e turistas – e proporcionou uma integração lúdica da história contada no espaço expositivo, distribuído por três andares do imponente prédio construído no final do século 19. Museu não é uma coisa estática, diz o curador Juliano Borges.
“Museu não é tão-somente um baú, ele também diverte, interage”, afirma Juliano, que se travestiu de um maquinista da velha estrada de ferro anunciando a saída do trem de passageiro que deixou de circular nos anos 90. A visita animada, segundo ele, pode ser preagendada por escolas ou grupo de turistas e faz parte da ação educativa do museu. “As pessoas podem sugerir novos personagens”, explica.
Atores amadores
A primeira experiência da proposta de dar vida a personagens marcantes da história do velho Mato Grosso foi um sucesso. Adultos e crianças se divertiram muito com a “presença” de figuras personificadas em livros. A interpretação dos atores amadores também ajudou. Alguns personagens se comunicavam com o visitante, como o etnólogo italiano Guido Boggiani, a retratar paisagens e índios kadiwéu.
“Simplesmente maravilhoso”, definiu a terapeuta Liliane Almeida, ao encerrar a visita. “Museu deve ser um hábito, ter sempre novidades. É um privilégio para Corumbá ter o Muhpan, embora a população não se conscientize disso”. O sargento da Marinha José Alexandre, recém-transferido do Rio de Janeiro, não esperava que a cidade tivesse um museu tão bem estruturado. Ele participou da visita animada com a mulher, Catarina, e a filha Maria Eduarda, 3, e elogiou a iniciativa: “Além da surpresa dos personagens caracterizando a época, você mergulha na história além do que os livros contam”.
Índia bororo
Marinheiro e família gostaram da interpretação de uma índia bororo sendo catequizada por um jesuíta. “Para quem está chegando nada melhor do que conhecer a história local”, diz. A índia bororo foi interpretada por Carla Cristiane, 26, do setor de manutenção do Muhpan, cuja filha, Sophia, 2, também atuou. “Sempre gostei de teatro”, contou. Outra figura marcante foi dona Chechê, brava e mandona, mulher do pantaneiro e pioneiro Nheco (Joaquim Eugênio), filho do Barão de Vila Maria. “Busquei pesquisar muito o personagem”, disse Liza Gomes, 4º ano de História na UFMS.
Outro olhar
A criação dos personagens teve a direção do teatrólogo corumbaense Salim Haskan, 40. Ele organizou duas oficinas para a equipe formada por 20 pessoas, entre educadores, funcionários e monitores do Muhpan. “Os figurinos que trouxemos de casa e as máscaras encorajaram e todos entraram na energia dos personagens. A caracterização foi perfeita, chamando a atenção do visitante”, avaliou Salim.
Para o teatrólogo formado aos 21 anos em São Paulo, a visita animada criou a possibilidade de gerar maior interesse do público com a história contada pelo museu, despertando novas descobertas e “outro olhar” em relação ao passado. “Percebi as pessoas perguntando quem era o personagem, isso é interação, gerar novos conhecimentos. Até porque museu também deve incrementar a reflexão”, observa Salim.