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Editora publica "Poema em quadrinhos", de Dino Buzzati

Editora publica "Poema em quadrinhos", de Dino Buzzati

Redação

12/12/2010 - 00h25
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Em 1969, o italiano Dino Buzzati já era um escritor consagrado, autor de volumes como "O deserto dos tártaros" (sua obra-prima), "As montanhas são proibidas" e "Um amor". Faltava-lhe, porém, o reconhecimento em outra área que ele julgava tão ou mais importante que a literatura, as artes visuais. Pois foi naquele ano que Dino Buzzati (1906-1972) publicou "Poema em quadrinhos", um livro em HQ que a editora Cosac Naify acaba de lançar, com tradução de Eduardo Sterzi.

Foi uma espécie de rendição. "O fato é que sou vítima de um cruel equívoco", disse ele, na época. "Sou um pintor que, por hobby, durante um período infelizmente bastante longo, fez-se também escritor e jornalista. O mundo, no entanto, crê que seja o contrário e não ‘pode’ levar a sério as minhas pinturas".

Assim, com "Poema em quadrinhos", Buzzati buscou unir literatura e visuais, utilizando o desenho como caminho natural para sua expressão. "O quadrinho buzzatiano é envolvido por um conteúdo que poderia ser chamado de superior às forças formais da vinheta, do esboço, da ilustração. O relato é sério e o meio se enobrece", destaca o jornalista Claudio Toscani, no texto de posfácio presente na edição italiana do livro.

Em 1969, Dino Buzzati cobriu a Bienal de Arte de São Paulo como jornalista. Uma experiência que não passou despercebida pois, em uma entrevista publicada no O Estado de S.Paulo, na edição de 30 de setembro, ele se confessava um cultor do trabalho metódico. "Tenho verdadeiro fascínio pela vida militar. Sinto-me atraído não propriamente pela natureza das tarefas, mas pela disciplina e pelo método que empregam nas mínimas coisas que praticam".

Ao longo de sua carreira, Buzzati manteve-se fiel ao seu princípio de não fazer concessão às modas literárias e artísticas, o que distingue "Poema em quadrinhos" de publicações do gênero. O livro baseia-se no mito de Orfeu que, depois de perder a mulher, Eurídice, vai em sua busca. Assim, Buzzati criou o personagem Orfi, um cantor pop que lamenta a morte muito jovem da amada Eura.

Certa noite, ele a vê entrando na casa em frente da sua, um lugar misterioso. Ao chegar lá, Orfi é questionado por um "diabo da guarda" - na verdade, um paletó, que lhe apresenta a casa e impõe uma condição para liberar sua entrada: que ele cante músicas cuja letra mencione situações banais do mundo dos vivos, algo já esquecido por ali. Coisas como tempestades, amor, etc.

Disposto a rever Eura, Orfi aceita as condições, iniciando uma peregrinação na qual encontra mulheres nuas, forma com que Buzzati representa a grande liberação sexual vivida pelo mundo naquele fim de década de 1960. "Poema em quadrinhos", aliás, é uma colcha de retalhos muito bem trançada, em que Buzzati homenageia e faz referências a diversos artistas de sua admiração.

Dessa forma, a figura do Nosferatu surge como homenagem ao cineasta F. W. Murnau, da mesma forma que prédios disformes lembram a obra de Salvador Dalí. "Eis aqui um Buzzati que sintetiza em cerca de 200 quadros todo o seu mundo poético, fabuloso e simbólico, com a impressionante imediatez de quem consegue, não sem trabalho, mas muito agilmente, vestir sua ideia com uma estrutura expressiva inédita e cativante", continua Claudio Toscani.

Orfi não é à toa um músico. Por meio de suas canções, Buzzati alterna versos livres e rimados, uma escavação na verdade em que o autor italiano emprega meios inventivos e expressivos. Em "Poema em Quadrinhos", Dino Buzzati repete, de uma certa forma, a experiência da divertida fábula "A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília", publicada em 1945 e lançada no Brasil pela Berlendis & Vertecchia Editores.

Ainda sob o calor do pós-guerra, Buzzati criou a história e os desenhos de 11 capítulos que, por meio da ironia, apresentavam sua reflexão sobre a triste atualidade. Mesmo dirigido a um público infanto-juvenil, a Famosa Invasão contém os temas que marcam a obra de Buzzati, como a relação do homem com a natureza, a vida militar, a montanha, a metrópole corruptora, o bestiário. O mesmo aconteceu com "Poema em quadrinhos".

Como viveu durante anos em uma redação de jornal, os temas surgiram, como ele mesmo reconheceu, a partir das notícias que escrevia no Corriere della Sera. Tanto que, para Eugenio Montale, um dos maiores poetas italianos, a narrativa literária e jornalística de Buzzati era "a mesma luva, mas pelo avesso".

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