Um jovem loiro americano caminha pelas ruas de Paris enquanto pensa: "Apenas os franceses, apenas os franceses construiriam um cinema dentro de um palácio", referindo-se à Cinémathèque Française. A cena – se você é um cinéfilo já sabe que filme é esse – é de "Os sonhadores", de 2003. Em sua ode ao cinema, Bernardo Bertolucci homenageou toda uma geração que cresceu em frente às telas gigantescas, fascinados por todo o tipo de histórias. Apaixonados por cinema e encantados pela imagem em movimento existem desde que os irmãos Lumiere hipnotizaram a plateia ao projetar a imagem de um trem na primeira sala de cinema do mundo, o Eden, em 1895.
Em outro momento do longa-metragem de Bertolucci, o americano Matthew afirma que os verdadeiros viciados em filmes sentavam-se o mais próximo possível das telas de cinema. "Por que nos sentávamos tão perto? Talvez porque quiséssemos receber as imagens antes, enquanto ainda eram novas, ainda eram frescas", completa o jovem cinéfilo apaixonado pela arte de Nicholas Ray, Jean-Luc Godard, Sam Fueller e outros grandes diretores. Assim como ele, Campo Grande também tem lugar para aqueles que amam o cinema acima de todas as coisas. A designer gráfica e vocalista da banda Dimitri Pellz, Maíra Espíndola, é daquelas pessoas que, ainda na infância, encontraram nos filmes uma maneira de conhecer o mundo. "Logo que ganhei minha primeira televisão e um quarto só meu, pude mergulhar no universo do cinema. Na época, não havia internet ou televisão por assinatura, então, o jeito era partir para a Rede Globo e aproveitar os corujões. Em uma dessas, assisti ‘Amarcord’ e percebi que o que eu queria mesmo era assistir filmes como aqueles", descreve a libriana de 31 anos, referindo-se à obra-prima do diretor italiano Federico Fellini. Hoje, o filme é um de seus favoritos.
Maíra conta que a obsessão cinematográfica nasceu de seu fascínio por histórias e narrativas. Segundo ela, a literatura tem seu charme, mas apenas o cinema é capaz de ilustrar cada uma das histórias que conta. "Eu gosto de filme bom! Tudo vale, desde terror e ficção científica a filmes ‘cabeçudos’ europeus em que nada acontece", brinca. Como toda cinéfila que se preze, Maíra vai além do simples hábito de assitir a seis filmes por dia – "dependendo da época", explica – mas também lê muito sobre a arte cinematográfica, assim como já produziu alguns filmes.
Formada em Rádio e TV, Maíra lembra que até a escolha do curso de graduação foi relacionada à paixão por filmes. "Eu gosto da narrativa, mas também me interesso pelos movimentos de câmera, pela trilha sonora, pela direção de atores. Tem gente que gosta de um filme por causa da história do casal que vence tudo no final. Eu gosto disso também, mas ao mesmo tempo, cada escolha de um diretor me encanta", pontua. Apesar do tempo não ter dado trégua, Maíra continua acreditando que assistir a filmes é uma ótima maneira de conhecer o mundo. "Já que não posso dar um tiro nos vilões do mundo real, pelo menos posso ver isso nas telas".