Bicho papão para grande maioria, a matemática motiva alguns jovens sul-mato-grossenses dentro e fora da sala de aula. Na rotina deles, são frequentes as horas dedicadas às resoluções de problemas e às discussões de questões polêmicas da área de exatas. Este é o caso do estudante Juliano Petry Pesarico, 12 anos, atualmente no 9º ano do ensino fundamental, morador de Laguna Carapã, que mensalmente viaja até Dourados, mais de 60 km, para integrar programa que visa ampliar as possibilidades da matemática para os estudantes do ensino fundamental e médio.
O desempenho dele rendeu um convite que poucos tiveram no País: participar, com mais 29 estudantes de outras regiões, do programa Preparação Especial Para Competição Internacional, destinado aos estudantes da rede pública que mais se destacam no estudo da matemática no Brasil. As atividades acontecerão durante todo o ano, uma vez por mês em diversas cidades. O primeiro encontro, de 3 dias, será no Rio de Janeiro ainda em fevereiro.
As chances de o estudante aprofundar o estudo da matemática surgiram a partir dos resultados que obteve na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escola Públicas (OBMEP), que iniciou em 2005 em todo País, tendo na edição mais recente a participação de cerca de 19 milhões de estudantes originários de escolas públicas municipais, estaduais e federais. A iniciativa é coordenada pelo Instituto Nacional de Matemática Pura Aplicada (Impa), Ministério da Ciência e Tecnologia e Ministério da Educação, contando com coordenações regionais. As provas são divididas em três níveis: o primeiro abrange 6ª e 7ª séries; o segundo, 8ª e 9ª; e o terceiro, ensino médio. Ela acontecem em duas fases. Na primeira, aplicação da prova objetiva, de 20 questões, em cada escola inscrita. A correção é feita pelos professores das próprias escolas, a partir das instruções e gabaritos elaborados pela OBMEP. Na segunda, aplicação da prova discursiva (com 6 a 8 questões) em centros de aplicação indicados pela OBMEP. Participam dessa fase apenas 5% dos alunos, em cada nível, com melhor pontuação na 1ª fase. A premiação é estabelecida a partir dos resultados apresentados na segunda fase.
Juliano – filho de um comerciante e de uma professora de matemática – conta que os cálculos sempre lhe chamaram à atenção, mas foi a partir da boa classificação na Olímpiada e a possibilidade de entrar no Programa de Iniciação Científica Júnior (PIC) – um desdobramento da competição – que o estimulou a desenvolver aspectos da matemática que não são vistos em sala de aula. Somente aqueles com os melhores resultados na Olimpíada são convidados a participar do PIC, recebendo cada um R$ 100 mensais durante 12 meses – o patrocínio é do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Durante o programa participam de atividades presenciais, em pólos espalhados pelo Estado, e interativas, via computador. O estudante de Laguna Caarapã desenvolve atividade no pólo de Dourados (ainda existem pólos em Campo Grande, Bataguassu, Cassilândia e Nova Andradina), onde durante um sábado por mês, passa o dia sendo orientado em várias atividades. “É um momento que tenho para conhecer um pouco mais e também entrar em contato com várias possibilidades da matemática”. Agora, seu desafio será maior. Por ser participante do Programa de Preparação Especial Para Competição Internacional, integrará grupo de ponta da escola pública. As ações do programa prosseguirão até outubro. A intenção dos organizadores é oferecer aos alunos das escolas públicas qualificação suficiente para disputar a Olimpíada Brasileira de Matemática, evento que existe desde 1979 para estudantes da rede pública e privada, servindo de seletiva para os eventos internacionais de matemática. “Minha meta é chegar a competir internacionalmente, estudarei para isso”, enfatiza Juliano. Mato Grosso do Sul teria direito de mais um representante no Programa Especial Para Competição Internacional, mas a estudante classificada não pôde participar por razões particulares.
Abrindo as portas para outras atividades
O estudante Raphael Rocha da Silva, 17 anos, recém aprovado no curso de Engenharia da Computação, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, é um daqueles que aproveitaram o programa de iniciação científica, participando durante 4 anos da. “Foi importantíssimo para mim. Além de encontrar respostas para vários questionamentos da matemática, também aprendemos a ter disciplina na interpretação de texto. Perceber os menores detalhes. Em um problema, achar o que realmente é importante. Quer dizer, não é somente na matemática que se pode usar esse conhecimento; em outras disciplinas também”, avalia. Ele fez o ensino médio na Escola Estadual Rui Barbosa.
Para outra participante do programa, Natalya Emmanuely Kublik, 16 anos, no terceiro ano do ensino médio na Escola Riachuelo, atualmente a matemática não seduz grande número de pessoas por se algo que exige concentração e raciocínio. “As pessoas querem resultados imediatos, estão muito apressadas. Talvez por isso não consigam desenvolver questões matemáticas”, aponta a estudante. Os três estudantes citados na matéria dizem que procuram ajudar aos colegas com dificuldade nos estudos dos números. “Sempre que posso faço isso. É legal mostrar para pessoas que a matemática está sempre presente na vida de todos”, aponta Raphael.
Seleções diferentes
A professora do Departamento de Matemática do Centro de Ciências Exatas e Tecnologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e coordenadora regional de Iniciação Científica da OBMEP, Sonia Regina Di Giacomo, aponta que a diferença entre a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas e outros tipos de competição da área educacional é a continuidade das atividades. “Não é somente a premiação para aqueles que se destacam, mas a possibilidades os estudantes em prosseguirem seus estudos, ampliando o conhecimento. A ideia da iniciação científica não é competir com currículo da escola, é oferecer outros conhecimentos”, destaca. Uma das metas da iniciação científica é tornar o estudante responsável pela sua aprendizagem e na busca de soluções individuais para os problemas apresentados na matemática. “Queremos que o aluno tenha independência no raciocínio e análise, treiná-lo no rigor da leitura e escrita da matemática, além de oferecer resoluções de problema com discussões e exposições orais”, lembra Sonia. (OR)