A documentarista e artista plástica campo-grandense Sônia Bacha segue uma tendência responsável por momentos instigantes no mundo das artes: a de construir obras a partir de experiências próprias. No caso dela, não somente as criações nasceram do seu cotidiano, o próprio local onde serão expostas as obras também está ligado ao seu cotidiano. A mostra
“Enquanto ñ aluga”, que começa no domingo, às 18h, na Rua Sebastião Lima 586, acontecerá em um imóvel de propriedade da artista. “É como o próprio título diz: enquanto a casa não está alugada, resolvi ocupá-la destacando meus trabalhos e de outros artistas”, explica Sônia, que se dedica à fotografia, pintura e desenho, além dos documentários.
O próprio processo de reforma do imóvel inspirou algumas obras. A série denominada “Jaú” destaca a relação estabelecida entre a artista e os operários da construção civil .
“Normalmente, o artista trabalha com matéria sensível do ser humano, o lado poético das coisas. No meu caso, quando fui mexer com a reforma, tive que lidar com outro ambiente, outro universo. Foi essa transformação que acabou gerando a série ‘Jaú’. O termo significa pessoas que trabalham em construção, mas também tem a ver com o peixe. Durante os trabalhos, cerca de 20 operários passaram pela reforma. Porém, cinco ficaram mais tempo.
Eles me fotografaram e eu os fotografei. Desse processo também surgiram grafites e esculturas em cerâmicas. Foi uma forma de estabelecer diálogo entre todos os envolvidos com o trabalho”, explica Sonia.
Hospital
Outra série que nasceu de vivências da artista é “Nas bordas do H.U”. Durante certo período, ela precisou frequentar com regularidade a região do Hospital Universitário. “Minha filha faz residência em Odontologia, precisava levá-la todos os dias até o hospital. Nessas idas, comecei a perceber o ambiente que cercava o local”.
Com máquina fotográfica, registrou o comércio praticado na área, assim como as pessoas. A perspectiva adotada ampliou elementos, muitas vezes, despercebidos de muitos. “Em certo momento notei as toalhas com motivos eróticos que eram vendidas em frente. Uma coisa realmente na borda do hospital. Também registrei o colorido dos tecidos à venda”, descreve. No total, são cinco fotos aliadas a desenhos e pinturas a óleo.
Quem for ao local ainda poderá conhecer a série “carná na cave”, que nasceu do contato que manteve com a Escola de Samba Unidos da Vila Carvalho. “Acho que esse trabalho é um elo entre o ‘Jaú’ e ‘Nas bordas do H.U”. Há muito dos elementos da construção e do hospital no carnaval. O elemento humano está muito presente”, enfatiza.
Além de seus trabalhos, a exposição também mostrará a coletiva de artistas de São de Paulo que trabalham com grafite e gravura – Teti, Márcio, Nivo, SB, Tinho, Walter Nomura, Speto, Zézão, Mundano, MZK, Sesper e Flávio Samelo. A exposição pode ser visitada até 31 de julho, das 16h às 21h.