O primeiro grande sonho do humorista mineiro Geraldo Magela, 54 anos, que se apresenta na sexta-feira (02), em duas sessões em Campo Grande era se tornar locutor de rádio. Até atingir o objetivo fez uma série de outras atividades, como vender bilhete de loteria na rua e anunciar promoções ao microfone em lojas de produtos populares.
O caminho que o levaria a realizar o sonho foi impulsionado pelo bom humor, que sempre o destacou. “Existem pessoas que apresentam um lado espirituoso desde pequeno, mas não se tornam humoristas; meu caso foi diferente, sempre fui muito brincalhão. Para trabalhar no rádio participei de um concurso, mas o que me destacou foram as imitações que eu fazia e as coisas que contava, logo isso chamou a atenção”, lembra o humorista.
Ele se denomina o único humorista cego do Brasil – nasceu com uma doença degenerativa na retina. “Somos em oito irmãos, cinco temos o problema”, relata. A condição de deficiente visual marcou o seu humor nos primeiros momentos.
O espetáculo “Ceguinho é a mãe” apresentava relatos de situações, que normalmente os cegos enfrentam. “O que deu impulso para a montagem desse trabalho foi uma entrevista que fiz no Programa do Jô Soares, na época em que ele estava ainda no SBT. Fui lá por causa de uma campanha que estava realizando para fazer tratamento em Cuba, que tem avanço significativo no tratamento médico. Mas, no meu caso, os procedimentos não deram certo e não voltei a enxergar. Foi a partir da entrevista que fiquei sendo conhecido nacionalmente, iniciando as apresentações pelo País”, lembra.
ESPETÁCULO
Geraldo explica que atualmente o universo dos portadores de necessidades especiais é um dos aspectos abordados no espetáculo. “Com o passar do tempo fui incluindo outras situações que podem ser vividas por várias pessoas, deficientes ou não, como coisas que acontecem em aeroportos, hotéis, na rua ou qualquer outro lugar”.
Para o humorista, mesmo o humor sendo livre, sem censura, há necessidade de que o bom senso também seja uma arma daqueles que querem fazer outros rirem. “Por exemplo, um palavrão bem colocado em determinada situação pode ter um bom efeito; agora, uma sucessão de palavrões acaba sendo somente grosseira e agressiva”.
Geraldo acha que atualmente muitos humoristas ainda não perceberam que para atingir o público não há necessidade de ofender determinados grupos ou pessoas. E relembra o caso do humorista Rafinha Bastos, processado pela cantora Wanessa por causa de uma “piada” sobre ela e o filho, um bebê ainda na barriga. “Talvez o que Rafinha pensou não era exatamente o que disse, mas acabou dizendo. São os cuidados que todos os humoristas devem ter para não criar problemas”.
O espetáculo atual de Geraldo tem cerca de 1h20min de duração. “É o tempo exato para ficar com um gostinho de quero mais”, afirma. Ele não tem certeza, mas acha que já se apresentou em Campo Grande em um evento fechado. Sobre o preconceito contra os deficientes, ele avalia que houve diminuição devido a campanhas. “Há muito o que fazer ainda, mas as campanhas não podem ser piegas”, recomenda.