Instrumento de Trabalho
A vocalista Jane Kundera, 29 anos, canta profissionalmente em bares e casas de show da Capital desde 2006. Ao lado de sua banda, Jane emplaca cerca de 60 músicas durante cinco horas, com pequenos intervalos. A preparação da cantora começa dois dias antes das apresentações. “Eu evito ingerir álcool, fumar e ter outros comportamentos prejudiciais a garganta pelo menos 48 horas antes do show. Também faço exercícios e aquecimento vocal”, relata.
No início da carreira, inexperiente e, ela confessa, um pouco inconsequente, Jane não tomava os cuidados com a voz. E sofreu as consequências. “Eu ficava sem voz em dia de show. Minha garganta ressecava, era horrível, eu morria de medo de desafinar e não atingir os tons certos. Já aconteceu. Foi quando eu busquei informações e aprendi a respeitar minha voz”, comenta.
Atualmente, Jane grava seu primeiro CD e está afastada dos shows, mas tem a preocupação em estar sempre treinando. “É um músculo. Quanto mais a gente trabalha, mais se aperfeiçoa. Se eu não treinar, vai ficando mais difícil cantar”, pontua.
A professora Silmara Ovelar está há um ano afastada da sala de aula. Agora é diretora de uma escola estadual em Campo Grande. Dos tempos como professora, Silmara se lembra de forçar a voz o tempo todo. “Para o professor, ter rouquidão é ‘normal’. Tive amigos que tiveram problemas sérios. No nosso meio, é muito comum, infelizmente”, lamenta. “Nós precisamos controlar de 20 a 30 crianças em uma sala fechada, é complicado”.
De fato, professores são os que mais sofrem com os efeitos do abuso da voz. “A rouquidão não é normal. É um sinal que algo está errado. Se a pessoa ficar rouca por mais de 15 dias, precisa procurar um médico”, alerta a fonoaudióloga Navarrete. “Os professores são so que mais aparecem buscando atendimento. Nós indicamos o uso de microfone na sala de aula”.
Os problemas que podem ser desenvolvidos incluem danos na musculatura, nódulo vocal, calos vocais e até complicações que podem levar ao câncer de laringe. Exercícios e aquecimentos são essenciais. “As pessoas acham que os exercícios não são suficientes, mas vibração de língua e articulaçao das palavras, por exemplo, ajudam muito. Quem trabalha usando muito a voz precisa aprender a impostar sem fazer esforço”, diz a fonoaudióloga.
Prevenção
O regente Rasslan não gosta de romantismos. “Não há nada mais bonito do que o processo de descoberta da voz que se tem, mas sem romantizar, porque é algo técnico, é uma capacidade incrível que a voz proporciona”, define. “A voz é instrumento fundamental inclusive para expressar sentimentos e vontades”, completa Navarrete.