Ao mesmo tempo em que descreve pessoas e situações, sempre mantendo a discrição sobre as identidades delas, busca refletir sobre situações as quais as pessoas precisam enfrentar em seu cotidiano. A obra ainda apresenta alguns aspectos da rotina médica e dos dilemas entre os profissionais da área e os pacientes. A seguir, trechos da entrevistas feitas com Fábio Augusto.
VOCAÇÃO
“Desde criança eu sentia dentro de mim a vocação de cuidar e ajudar os mais necessitados, mas a medicina era um sonho que eu julgava impossível, pois minha família era muito humilde.
Eu sabia que para ingressar em uma faculdade concorrida era preciso estudar e me preparar em uma escola de qualidade, coisa que na época era impraticável. Eu via o esforço de minha mãe, costureira, e meu pai, bancário, ambos muito trabalhadores, para manter e educar a mim e meus irmãos.
Era um tempo de muita dificuldade e, ao mesmo tempo, foi com meus pais que aprendi de verdade o valor da honestidade e da dignidade. A influência da minha avó materna também foi decisiva na minha escolha, pois a sua vida era um exemplo de pessoa dedicada à solidariedade. Apesar de seu pouco estudo, foi ela quem mais me incentivou a estudar com afinco para alcançar os meus sonhos, dizendo que quem com fé semeia e com generosidade cultiva, um dia com certeza colhe os merecidos frutos. Ela tinha razão, e suas palavras continuam até hoje ecoando em minha memória”.
IDEIA DO LIVRO
“Tudo começou com as histórias que eu contava para a minha esposa e filhos no final do dia, ao chegar em casa. Tomando sempre o cuidado de preservar a identidade dos pacientes, juntos refletíamos longamente sobre os dramas que eu havia presenciado.
Minha amada esposa incentivou-me então a registrar esses acontecimentos, adaptando-os de forma que o sigilo profissional fosse preservado, sem, no entanto, perder a essência das belas mensagens de fé, coragem e superação que transmitiam.
Ao transcrevê-los no papel, aos poucos fui também exprimindo meus sentimentos e impressões particulares, aprofundando-os com reflexões sobre a vida e expondo temas do cotidiano, muitas vezes polêmicos.
Mostrando os capítulos prontos para amigos, familiares e até mesmo para alguns pacientes, percebia que todos, sem exceção, ficavam muito comovidos, alguns até choravam, e a emoção que aflorava das palavras, falava ao coração e à vida de cada um deles de modo particular. Isso levou-me a concluir que eu não poderia deixar essas mensagens se perderem no tempo.
Hoje, sem sombra de dúvida posso afirmar que a interação com os pacientes, assim como o exercício de refletir e escrever sobre estas vivências ajudaram que eu me tornasse um ser humano e um médico melhor em todos os sentidos.”
SELEÇÃO DOS TEXTOS
“Foi complicado, pois cada paciente que atendo carrega dentro de si um universo de sentimentos, medos e expectativas, influenciados por diferentes famílias, crenças e valores, todos eles partilhados com confiança durante os atendimentos que realizo. Em outras palavras, cada paciente vive sua saga particular que merece ser narrada.
Quando comecei a escrever, várias histórias afloraram em minha mente, porém eu sabia que era importante que eu privilegiasse, além daquelas que mais me emocionaram, as que atendessem às diversas formas de enfrentar medos e aflições frente às doenças e dramas pessoais particulares, representando assim o mosaico colorido do cotidiano do povo brasileiro”.