Bons discos sobrevivem ao tempo. Discos geniais ultrapassam o tempo. Embora raros, esse tipo de obra tem um exemplo claro no trabalho de 1973, lançado por um trio que pintava a cara e usava roupas extravagantes. Passaram-se 40 anos desde o lançamento de “Secos e Molhados” e as 13 canções que o compõem continuam contemporâneas.
Em clima de aniversário, o publicitário Eduardo Araújo, editor do site Rockinpress, decidiu convidar bandas brasileiras em atividade para compor uma coletânea comemorativa. Rafael Castro, Daniel Peixoto, Nana, A Banda Mais Bonita da Cidade, Nevilton, entre outras, recriam arranjos e dão nova roupagem às canções. O resultado pode ser conferido em “Armazém73”, disponível no site.
“Eu estava pesquisando alguns discos antigos para criar um set. Foi quando me bateu a pergunta: o que era a música brasileira há 40 ou 50 anos”, afirma. Nessa empreitada, ele se deu conta do aniversário do primeiro disco de uma das maiores bandas de rock nacional e imaginou o quanto seria bacana rememorar o disco e, ainda, homenagear o trio formado por João Ricardo, Gerson Conrad e Ney Matogrosso (veja o vídeo abaixo).
Segundo Eduardo, um dos primeiros músicos contatados foi Daniel Peixoto, que na época queria gravar um clipe. “Depois, a medida que entrávamos em contato com outras bandas, o interesse era imediato. O Nevilton queria gravar o disco inteiro”, lembra. A curadoria das bandas foi feita em parceria com Marcos (X).
O RESULTADO
Os riscos ao se propor a revisão de um clássico como “Secos e Molhados”, disco capaz de desbancar Roberto Carlos, são bastante óbvios. Na coletânea “Armazém73”, felizmente, eles são superados. Cada banda levou a canção escolhida para seu universo pessoal, como é o caso de Nevilton com “Prece cósmica”, ou Bicicletas do Atalaia com “Mulher barriguda”.
A versão de “Assim assado” feito por A Banda Mais Bonita da Cidade emociona justamente por essa apropriação, que exibe dramaticidade no tamanho correto. Outras bandas optaram por se manterem fiéis aos criadores. Maglore faz uma versão crescente de “Fala”, que permite o reconhecimento da original.
Mas nem tudo são acertos. Nana transforma “Rosa de Hiroshima” em um shoegaze experimental demais, o que pode incomodar bastante. O minimalismo de Lucas Vasconcellos em “Amor” também destoa. Trata-se, contudo, de detalhes. “Armazém73” vale ser ouvida por muitos outros motivos.