Há exatos 203 anos, a Real Biblioteca Portuguesa foi transferida para o Brasil, tornando possível a fundação da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Assim, 29 de outubro é a data que comemora o Dia Nacional do Livro. No início do mês, a reportagem do Correio B investigou como anda a frequência de usuários nas bibliotecas de Campo Grande. A matéria, publicada em 4 de outubro, mostrou que apesar da queda de movimento, as bibliotecas ainda mantêm número considerável de leitores ativos e interessados. Mesmo com poucas livrarias e sebos na cidade, é fácil encontrar os leitores assíduos e os colecionadores implacáveis da Capital. “Já gastei R$ 800 em um mês comprando livros”, revela a estudante Sthefany Fernandes, 21 anos, 150 livros na estante e descrita como uma “louca por livros”.
O professor aposentado de História Valmir Batista Corrêa, 66 anos, contabiliza acervo pessoal de 6 mil títulos colecionados por mais de 40 anos (e garante que leu todos!). Entre as prateleiras, algumas publicações próprias, já que também escreve. É autor de “Corumbá, terra de lutas e sonhos” e outros. A preferência é por livros históricos, mas há um pouco de cada gênero na imensa coleção. Para agregar mais um livro na biblioteca pessoal, vale qualquer sacrifício. “Quando namorava minha esposa, a gente saía, passava em livraria e eu gastava o dinheiro em livros”, recorda. “A gente tinha que voltar de ônibus”. Por sorte de Valmir, a namorada, hoje esposa, não se importava. “Ela também gosta de ler. Aqui em casa, até o cachorro lê”, brinca.
A jovem Sthefany está tentando segurar seu salário na conta bancária. Mas, às vezes, a nova compra é inevitável. “Eu compro muito na loucura, se eu vejo algum livro que eu quero muito, fico agoniada até comprar”, relata. Ela tem em seu quarto três coleções diferentes da série “Harry Potter”, uma brasileira, outra norte-americana e a última inglesa. No total, gastou R$ 1.100 só nos livros do bruxo criado pela autora J.K. Rowling. “Eu comecei a gostar de ler com livros do Pedro Bandeira, mas virou amor mesmo com ‘Harry Potter’”, justifica.
O fascínio pelo mundo fantástico criado pelo autor J.R.R. Tolkien virou marca na pele do design de interiores Daniel Reina Dauzacker, 20 anos, que tem duas tatuagens no corpo. No braço, escreveu uma frase que aparece na trama de “O Senhor dos anéis”, apresentando o Grande Anel. Na perna, tatuou a imagem de uma árvore que é símbolo de uma locação importante da história. Muitos amigos e familiares questionaram a decisão do jovem, mas ele se defende. “O pessoal que questiona geralmente não leu os livros. Tolkien fez parte da minha vida e representa muito para mim. Tem uma filosofia de humanidade por trás de toda a história”, argumenta.
Quem dedica tanto tempo à leitura acaba transformando o hábito em profissão ou compromisso sério. A turismóloga Jessica Asato, 26 anos, criou uma página na rede (www.dimoca.com.br) onde escreve suas resenhas e comenta lançamentos literários. Nas últimas publicações, há fotos da viagem que fez a Bienal do Livro 2013, onde conheceu autores famosos como Nicholas Sparks. “Ir à Bienal é uma das melhores experiências que já tive como blogueira, leitora e pessoa”, diz. Assim como Jéssica, a jornalista e universitária de Letras Aline Cristina Maziero, 24 anos, também criou uma página (www.letrasdesonho.blogspot.com) para comentar obras. Apesar de estar sem tempo nos últimos meses para atualizar, Aline chegou a firmar parceria com editoras literárias.
Ambas as leitoras começaram a ler cedo, atraídas por livros infantis. “Gostava de ‘Turma da Mônica’”, diz Jessica. Depois, se afastaram dos livros no período escolar, quando as obras eram obrigatórias. “Até hoje sou traumatizada com ‘Iracema’, de José de Alencar, porque fui obrigada a ler”, comenta Aline.
Elas redescobriram a literatura mais tarde, e se apaixonaram. “Literatura existe pra provocar questionamento, inquietação, para te fazer pensar e agir”, analisa Aline, que lê média de 70 livros por ano. A colecionadora e compradora compulsiva Sthefany Fernandes se inspira na obra “A biblioteca de Babel”, de Jorge Luis Borges, para descrever seu sentimento em relação aos livros. “Os livros possuem todas as possibilidades de realidade então possuir livros é possuir vários mundos”, afirma. Ela diz que não tem nem o mínimo dos livros que pretende ter em sua coleção, mas não vai desistir. “Vou passar a vida tentando”, conclui.