A Cooperativa dos Agentes Recicladores Vida Nova (Coopervida) nasceu há 10 anos. Fruto do projeto Seu Lixo Gera Renda, do então Governo Estadual, a cooperativa foi responsável por retirar trabalhadores das ruas e do lixão. Enfrentada a resistência inicial por parte do grupo, até então desacreditado das boas intenções que vinham “de fora”, a cooperativa começou a atuar com 147 cooperados em um prédio alugado na Avenida Ernesto Geisel.
Mas a história já começou de um jeito complicado: depois da primeira quinzena de trabalho, um representante da cooperativa saiu para vender o material coletado. Na volta, com o dinheiro em mãos para dividir entre os cooperados, foi assaltado. Para suprimir o prejuízo e remunerar os 15 dias de trabalho dos cooperados, a empresa que comprava o material emprestou R$ 5 mil, o que não impediu a debandada de cerca de 60 afiliados indignados.
Passado o susto inicial, o trabalho dos cooperados entrou no eixo e o sistema começou a funcionar do jeito certo. José Pedro Tavares, afiliado desde os primórdios da Coopervida, conta que a quantidade de material coletado, triado e comercializado pela cooperativa chegava a 70 toneladas por mês. Em 2003, a sede da cooperativa mudou para a rua Calarge, em um prédio também alugado, e o trabalho continuou a todo vapor.
Mesmo com os resultados positivos, o número de cooperados foi diminuindo gradativamente. “Muitos sentiam falta da ‘liberdade’ de trabalhar no lixão. Uma cooperativa tem regras; aqui ninguém entra com faca, com bebida alcoólica; e também não havia incentivo para atrair novos afiliados. Em 2005 éramos aproximadamente 30 cooperados”, explica Tavares.
No final de 2006 a situação começou a complicar novamente. Além da saída dos cooperados, houve uma queda significativa no preço dos materiais e, o pior de tudo, a mudança para o bairro Aero Rancho. “O proprietário do imóvel da rua Calarge falou que queria vendê-lo. De última hora, o único lugar que conseguimos foi esse terreno no Aero Rancho, longe demais do centro da cidade. Atrapalhou tudo; o frete ficou caro, não dá para catar com carrinhos, ninguém traz material até aqui”, lamenta Tavares. Mesmo assim, o ex-presidente e atual vice-presidente da Coopervida ganhou, em 2008, o Prêmio Betinho Atitude Cidadã, por praticar no dia-a-dia a luta contra a fome e promover a cidadania.
Hoje, não mais do que oito pessoas continuam trabalhando na cooperativa triando o material que o seo Tavares traz duas ou três vezes por semana, em um caminhão fretado. Empresas e instituições como a Polícia Rodoviária Federal, as agências do INSS, o Ministério Público Federal, a Eletrosul e mais alguns condomínios separam todo o lixo reciclável e entregam para a cooperativa. “Cada saída do caminhão para buscar o material custa R$ 80. Some a isso o aluguel desse terreno e não sobra nem um salário mínimo por mês para os cooperados”, relata Tavares.
O terreno
Em dezembro de 2006, a lei estadual nº 3330 foi publicada em Diário Oficial. No texto, o Poder Executivo fica autorizado a doar um imóvel localizado na Vila Duque de Caxias, próximo ao Aeroporto, à Coopervida. Mas, até agora, o terreno não passou para as mãos da cooperativa.
“Não sei o que aconteceu, imagino que o fato da mudança de Governo possa ter influenciado negativamente a situação”, relata Tavares. Segundo ele, com um terreno próprio, tudo ficaria muito mais cômodo e prático e a cooperativa poderia voltar a recuperar as forças.
A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da governadoria e foi informada que a lei está em vigor e que nenhum representante da Coopervida apareceu para assinar a transcrição do terreno. Seo Tavares diz que já perdeu as contas de quantas vezes procurou esse direito nos prédios do Parque dos Poderes e que, de posse dessa informação, voltará a tentar resolver o impasse.