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Crônica:''Talvez num tempo da delicadeza''

Crônica:''Talvez num tempo da delicadeza''

Redação

09/06/2015 - 00h00

Que pode o amor, entre criaturas, senão amar? Amar e desamar, amar? Dizemos que o inverno é a estação dos namorados, talvez porque o frio propicie a aproximação confortável e reconfortante dos corpos.

Daí o amor acontece na vida, mas não só então. Há algumas histórias de amor memoráveis na literatura e na arte, como “Carta a D. História  de um Amor”, escrita pelo filósofo André Gorz para sua mulher Dorine. 

A carta relata uma dessas formas extremas de amar a que não estamos acostumados.  Ela dá um testemunho da presença amorosa de Dorine na vida de Gorz, pondo o mundo entre parênteses, deixando de  ser apenas “um refugiado de existência ilegítima”.

Parece pueril, parece pouco ouvir um filósofo mundialmente famoso se expressar assim tão subjetivamente, mas a carta é também  uma reflexão profunda sobre a sociedade contemporânea.

Causa maior espanto saber que, em 2007, Gorz e Dorine se suicidaram no mesmo dia: ela, por ser portadora de uma doença degenerativa provocada por um medicamento; ele, porque não poderia suportar a dor de sobreviver a Dorine. Morrer de amor, ou por amor, talvez tenha sido também uma questão no século XVIII, quando Goethe escreve “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, narrando a paixão por  Charlotte. Ao contrário do amor de Gorz, o amor impossível de Werther era materializado apenas em leituras de poemas, passeios pelo campo, longas conversas. O final todo mundo conhece, e quem não, deveria conhecer. Um amor romântico e doentio. 

Na “Cartomante”, de  Machado de Assis, Rita, Camilo e Vilela compõem um triângulo amoroso. Nem toda a vã filosofia prenunciada ou a atmosfera supersticiosa construída no início do conto livram a razão  machadiana de surpreender com a realidade, a violência e a crueldade.

Há também formas irônicas, contraditórias, simpáticas e bem-humoradas de se ver o amor. Todo mundo conhece aquelas fotografias tiradas no dia do casamento, em que os noivos aparecem sentados dentro de um carro, olhando para trás, ou posando abraçados logo após a saída da igreja. 

Rosângela Rennó, artista brasileira contemporânea, comprou, durante anos, negativos fotográficos dessas “poses”, em estúdios de retratos de Havana, Cuba. Ampliando-os em fotos digitais, criou a série “Cerimônia do Adeus”, título suficientemente ambíguo para  recobrir de ironia a pompa da circunstância.

Ao mesmo tempo, dialoga com Simone de Beauvoir, quando a escritora narra sua vida intelectual e afetiva com Sartre, em “La Cérémonie des Adieux”, mostrando que amar um mito não é fácil. E são elas, as fotos, que desvendam a  história em “Esses Amores”, filme de Claude Lelouch, diretor do também amorável “Um Homem, uma  Mulher”. Ainda no cinema, o amor pode aparecer como narrativa de melhoramento, bem-humorada, como em “Melhor Impossível” e “Alguém Tem que Ceder”, ambos com as caras, as  caretas e as neuroses de Jack Nicholson. Mas bom mesmo seria viver só de amar, como no  poema “Balada do Amor Através das Idades””, de Drummond, no qual as pessoas se amam “desde tempos imemoriais”. Como pano de fundo, ficaria ainda mais bacana ouvir “Todo o Sentimento”, com Chico Buarque de Hollanda. Bons amores pra vocês.

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