Quem tem acompanhado os últimos acontecimentos sabe que o assunto principal é a corrupção.
Desta vez, a Fifa é a delatada nos noticiários. Indiscutivelmente, é uma instituição corrupta.
Quando ouvi as primeiras notícias e li o nível de envolvimento, sorri. Sorriso que não esboça contentamento, mas que reafirma um pensamento outrora esquecido. Leio textos indecorosos a respeito de como o brasileiro é corrupto, vejo pessoas disseminando esse tipo de conteúdo quase todos os dias. É um dedo apontado para nossos narizes, dizendo “O que você pode falar dos corruptos? Você fura fila”. E, ainda, como uma prova cabal da tese, são citados nossos colonizadores e essa história vergonhosa que os livros não escondem sobre a República Federativa na qual habitamos, findando o pensamento do tipo “fomos ensinados a ser corruptos”.
Ver alto nível de corrupção fora do nosso país reafirmou um pensamento antigo: a corrupção não é a cultura do brasileiro, e sim do ser humano, uma prática que o capitalismo instigou, uma prática relacionada ao caráter. É claro que corrupção está para além de um sistema econômico, mas esse em que estamos inseridos fomenta os abusos que o poder favorece. Nossas leis não são pensadas para nós, mas meramente interpretativas, a despeito de quem é réu e juiz. Enquanto isso, algumas pessoas estão dizendo: “Pare de falar de políticos, você é corrupto tão quão.” E será? Será mesmo que todo e qualquer humano de nacionalidade brasileira carrega no DNA a corrupção? Afirmar isso é o mesmo que dizer que “todo homem não presta”, “toda mulher é interesseira”, “todo cristão é ignorante”, “todo brasileiro é corrupto”. A maioria dos brasileiros que conheço talvez tenha furado uma fila, mas grande parte destes passou mais da metade de suas vidas estudando para conseguir um emprego, o qual não é garantia de que suas contas no fim do mês estarão pagas. A maioria dos brasileiros que conheço nunca roubou ninguém e, quando vê um idoso, cede o lugar na fila, ajuda um cego a atravessar a rua e não seria capaz de maltratar um animal. Você pode estar imaginando que esta que vos escreve more em algum lugar desconhecido, mas analise, livre dos pré-conceitos: quantos brasileiros ao seu redor você conhece assim? De boa conduta. Que trabalham, estudam e lutam por futuro digno para si e seus filhos.
Não é a nacionalidade, não é a raça, não é o gênero de uma pessoa que define o destino ou as decisões que ela vai tomar. Negar esses fatos é negar a subjetividade do indivíduo e desconsiderar pensadores como Freud e sua teoria psicanalítica, que define as atitudes do ser humano como uma resposta aos fatos anteriormente vivenciados. E, sim, acredito que o poder corrompe o homem. O homem nasce, e talvez a sociedade o corrompa, perdoe-me o grande filósofo a quem parafraseio com a sentença duvidosa.
E talvez o poder o corrompa. Talvez o poder só corrompa quem almeja poder, pelo simples poder, sem propósito algum que não seja o benefício próprio. Pensar no poder para si, como uma ascensão pessoal, não é corrupção ou uma prática abusiva. Entretanto, quem tem poder, normalmente o exerce sobre um número de pessoas. E, quando se fala no próximo, o poder precisa ter um desígnio muito maior que o de ser bem-sucedido. Os políticos deveriam sonhar em representar o povo, e os donos de grandes empresas, sonhar em contribuir, com seu lucro, trabalho e ramo de negócio, para a sociedade. Por isso, se é o seu caso, faz-se necessário pensar no impacto que “governar” oferece.
No poder, os empresários fraudam, as mídias vendem a notícia, os bancos cobram taxas exacerbadas, os chefes são desumanos. Corrupção é isso, quando você muda uma verdade para colocar apenas os seus interesses acima de qualquer princípio, de ética, de educação, da verdade e até mesmo do valor de cada pessoa. Corrupção é o ego dizendo “eu sou imune às regras e leis, sou esperto o suficiente, vou ter êxito, não importa quem seja lesado”. É a empresa que aumenta uma tarifa e não avisa o consumidor, é o trabalhador que recebe seu salário e frauda o atestado médico, e exerce sua função sem consciência de mercado.
É não ter escrúpulos.
Já a cultura é a comida típica de uma cidade, é o tereré de Campo Grande, o chimarrão do sulista e o frevo pernambucano. Cultura é abastança, corrupção é a falta. Falta de caráter, de ética, de humanidade, de justiça. Eu não aceito essa padronização, não é qualidade do brasileiro ser corrupto, não faz parte da nossa cultura. Não. Aliás, desconheço justificativa mais pífia para padronizar um povo. A padronização serve para dizer que você tem culpa e, como sempre, é melhor ficar calado, porque você “saiu da mesma forma” e você é igual. Eu não sou. Eu não aceito.
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