Quando a conheci, nos anos leves e esperançosos da adolescência, ela era uma menina muito loura que se distinguia entre as colegas pela facilidade de transformar as coisas banais em composições repletas de criações, em que a banalidade ganhava tons de supremo encanto.
Apesar de muito jovem, tinha no currículo uma lista das mais ricas em leituras de autores tanto brasileiros, como internacionais. Improvisava com a maior facilidade peças de teatro que transformavam as paredes frias do Colégio Estadual em pedaços de sonho e poesia.
O singular talento levou-a a tornar-se professora das mais queridas e inovadoras do curso clássico. Naqueles anos de mimeógrafo a à álcool, gastava as noites, preparando textos que despertavam nos alunos desejos de flutuar pelos mistérios da literatura. Lembro-me dos textos de Eça de Queirós e Machado de Assis que foram o ponto de partida das viagens por mundos que só os grandes autores sabem inventar. O caminho de interesse pela literatura e pelas artes levou-a à Faculdade de Jornalismo Casper Líbero onde foi a segunda colocada entre 120 candidatas e formou-se com brilhantes notas.
O gosto pelas artes era evidente na presença constante nos festivais de música e teatro dos anos 60 e 70, que incrementava com o perene entusiasmo pelas artes. Como membro atuante do Jornal do Comércio, dirigido pela Missão Salesiana, deixou nas entrevistas, nos artigos, a presença de quem sabia transformar o banal em objeto precioso.
A descrição de um encontro, que fiz em Fortaleza para divulgar o cine–clube de Campo Grande, foi transformada por ela em viagem quase sobrenatural em quem os elementos essenciais se sobrepunham aos supérfluos. Assim era ela uma mulher de
essências que nos marcou com seu jeito sereno, sua sensibilidade, oculta numa expressão de afastamento.
De repente fugiu de tudo que significasse tumulto. Ninguém mais a viu andar pelas ruas nem frequentar as reuniões de outrora. No silêncio que tanto amava, deliciava-se com as leituras, recebia poucas visitas dos mais chegados. Diversas vezes me telefonou, mas nossas conversas eram sempre sobre os autores que a encantavam.
As amigas que conviveram com ela fizeram parte de seu círculo familiar: Arlete, Eunice, Rose guardam na lembrança a figura inesquecível daquela mulher delicada e frágil que costumavam visitar e a quem levavam com frequência o presente que mais lhe causava alegria: livros.
A vida costuma ser cruel e imprevisível. De repente não mais que de repente as folhas verdes transformaram-se num monte de folhas secas e sem que houvesse remédio que solucionasse a moléstia que a atingiu, desapareceu tão discreta como viveu aquela que se chamou Neide Cesco, muito amada pela mãe Dona Debora, pelas irmãs Sílvia Odinei, Elisa e Dayse e pelos irmãos Danilo, Darilo e Darilson, que vieram de longe acompanhá-la à última morada.
A natureza encheu-se de tristeza, o céu cobriu-se de nuvens negras, chorando a partida de alguém que dera à vida muito amor e apego às artes. Choraram os antigos alunos lembrando as lições de sabedoria, o carinho, as atenções que receberam de uma professora que lhes ensinou a gostar de literatura e a saborear a arte.
Uma ave branca voou em direção ao céu, fazendo-nos concordar com as palavras de Vinícius de Moraes: a morte é mesmo muito desagradável.