O motorista que nos leva a São Bento do Sapucaí, no pé da serra da Mantiqueira, numa manhã fria de quinta-feira, simplesmente não se conforma com o nosso destino. “Retiro do silêncio? Isto é coisa de louco”, diz ele, enquanto procura uma música no rádio. “Mas não pode nem falar ao celular?”. “Não”, respondo. Ele não acredita. Simplesmente considera impossível que 150 pessoas, principalmente mulheres, possam ficar em silêncio durante tanto tempo e sem qualquer muleta. Eu e minha companheira de carona, uma piauiense que só conhecia por meio de WhatsApp, não temos qualquer dúvida: o retiro é, sim, tudo que a gente quer fazer no fim de semana. E estávamos certas.
Ao chegar, recebemos uma carta do mestre nos convidando a relaxar e abandonar toda e qualquer expectativa. Todo e qualquer desejo de atingir alguma meta ou receber alguma coisa.
“Apenas esteja receptivo e observante”, escreve. Convite aceito, boca fechada e um aceno para o motorista, que insiste em dizer que vai se lembrar da gente quando estiver em casa – falando ao telefone, comendo churrasco e tomando cerveja. Bom para ele.
Mas tudo que eu preciso é ouvir o mestre em silêncio e aproveitar a natureza da existência. Conversas eu já tive demais. No entanto, a ausência total de palavras me surpreende. Olhando de fora, parecemos zumbis. Não há gestos, nem troca de olhares, nada. Nosso único foco é o silêncio.
E podem acreditar, não é nada fácil. Nossa mente se tornou soberana, regente do nosso sistema, dona da nossa vida. A mente é viciada em conceituar, julgar, rotular, contar histórias, pensar compulsivamente. E sem perceber nos tornamos reféns desta compulsão, porque acreditamos que somos a própria mente. Por isto é tão difícil relaxar, meditar. Porque a mente detesta ficar parada.
Ela – e quando digo “ela” é porque a mente é uma entidade com vida própria – precisa estar em constante movimento. Ela tem um diálogo interminável. Neste sentido, a meditação é quase uma guerra de forças. De um lado, a mente falante e enganadora; do outro, nosso ser de verdade, puro.
E é este ser que queremos alcançar com o silêncio. Com esta pausa abençoada pela natureza exuberante da serra e o acolhimento de um mestre que é pura luz.
A presença divina que ancora nosso coração e nos explica que não somos o que vemos no espelho. Que nos incita ao desapego, à responsabilidade, à verdade e ao amor. Um mestre que responde nossas perguntas escritas em papéis coloridos, dispostos na entrada do salão, mesmo as mais tolas e aparentemente insignificantes.
O mestre que caminha conosco todas as manhãs, nos ensinando uma respiração especial que nos deixa cheios de energia, numa fila indiana de pessoas de todas as idades, sexos, dores e medos.
No quarto dia, quero continuar no silêncio. Mas o mundo que me espera é feito de conversas.
Não há como fugir. O desafio, segundo o mestre, é viver nele do jeito que ele se apresenta.
Nosso trabalho, diz ele, é ampliar a compreensão da vida e das leis que regem a vida. O resto é acessório. A palavra que devemos guardar é apenas uma: compreensão. A ausência de compreensão significa desamor e escuridão. Aprendo em quatro dias o que não sabia a vida inteira. Que há um ser de luz habitando em cada um de nós. Basta silenciar a mente para descobri-lo e amá-lo.