Sinal dos tempos: no último sábado, em um auditório da Uniderp, dezenas de jovens acompanhavam ávidos palestras sobre temas como invasão de redes, segurança de sistemas, tecnologia, hacking, etc. Tudo parte da programação da segunda edição do Roadsec, um dos maiores eventos de hacking, segurança e tecnologia do País, em Campo Grande.
O sinal aponta para um fato incontestável: em uma sociedade cada vez mais conectada, os hackers deixaram de ser figuras míticas, que se escondem nas sombras e em seus quartos. Eles tornaram-se figuras cotidianas, embora muita gente não faça ideia – ou tenha apenas uma noção genérica – do tipo de indivíduo que a palavra de origem inglesa designa.
Segundo Jiyan Yari, organizador local do Roadsec – que foi realizado pelo segundo ano em Campo Grande –, na área da informática, o hacker é aquele que usa seu tempo para explorar ao máximo dispositivos, programas e redes de computadores. Geralmente são programadores de computador bastante habilidosos. “É um aficcionado, que usa seu tempo para isso. Obviamente, esse tipo de conhecimento pode ser usado de várias maneiras”, comenta.
Jiyan, além de professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul e professor convidado da Uniderp, é integrante do Sucuri Hacker Club. O grupo reúne interessados em aprender mais sobre tecnologia e sobre hacking. “É bom explicar. Não somos um grupo que se organiza para derrubar sites ou invadir redes de computadores. Pelo contrário, nosso interesse é entender as falhas e desenvolver métodos para evitá-las. Otimizar sistemas, descobrir novas possibilidades. Também discutimos e testamos tecnologias, como placas arduino, entre outros itens”, comenta.
Anderson Ramos, criador da Roadsec, afirma que a maioria dos hackers são autodidatas. “Isso pode criar uma combinação explosiva. Ter domínio sobre a tecnologia, hoje, é uma forma de poder. Imagine um adolescente, sem muita noção, com esse tipo de poder nas mãos. A chance de algo dar errado é grande”, explica. Não é a toa que volta e meia surgem notícias de jovens hackers sendo condenados por problemas com a justiça. “A gente percebeu que não existiam conferências hacker pelo País. O evento surgiu como uma forma de revelar talentos, sobretudo com os campeonatos que realizamos como o ‘Hackaflag’, que é basicamente um evento de invasão de sistemas”, explica Anderson. Segundo ele, os vencedores de cada competição viajam para a final em São Paulo. “Fazemos uma espécie de Lollapalooza Hacker. É um festival de começa às oito da manhã de um dia e termina às seis do outro”, pontua.
HYPE
“Mr. Robot”, vencedora do Globo de Ouro de Melhor Série Dramática neste ano, traz como protagonista um jovem, funcionário de uma empresa de segurança digital, que se alia a um grupo de hackers dedicados a acabar com o capitalismo. Segundo Anderson, a série é uma das responsáveis por colocar o universo hacker em evidência novamente. “Pela primeira vez, a comunidade hacker se sentiu representada de maneira verossímil”, comenta.
Mas outros exemplos mostram como esse universo está em evidência – e não é mais mistificado em obras como “Matrix”. “Watch Dogs”, jogo produzido pela Ubisoft em 2014, é outro que demonstra o poder de quem domina a tecnologia. No game, o jogador controla Aiden Pearce. O personagem está decidido a usar sua inteligência para invadir um supercomputador e conseguir justiça contra os responsáveis por uma violenta tragédia familiar.
Os tempos são, definitivamente, outros. “Entender a tecnologia é essencial. Empresas podem ser destruídas por vazamentos de informações, por exemplo. O essencial é entender que a pessoa que ataca é a melhor qualificada para defender”, ressalta Jiyan.