Para os católicos, os dias que antecedem a Páscoa representam um momento crucial do ano. É o período de intensificar orações, realizar reflexões e promover ações de caridade.
Com o passar dos anos, a tradição parece perder força, porém, católicos de diferentes idades de Campo Grande mostram que os hábitos continuem sendo respeitados, ainda que algumas atitudes, como fazer promessas em troca de recompensas, sejam consideradas equivocadas.
O padre Reginaldo Padilha, responsável pelo setor de comunicação da arquidiocese da Capital, explica a importância da Quaresma para os fiéis da Igreja Católica. “Para nós cristãos, este período está ligado aos 40 dias em que nosso senhor Jesus Cristo, antes do seu batismo, esteve no deserto. E ainda antecede a Páscoa, a Ressurreição de Cristo, que é a maior festa do nosso calendário litúrgico”, afirma.
MUDANÇA
A conciliadora Isabela Siebert, 23 anos, encara a Quaresma como um período de transformação pessoal. Neste ano, ela decidiu se afastar das redes sociais da internet, aumentar as orações diárias e ingressar em grupos de caridade.
“Já eram coisas que eu tinha vontade de fazer, mas, com a chegada da Quaresma, vi a oportunidade de começar”, relata Isabela.
Ela atua em dois grupos voluntários, os Vicentinos, que presta assistência a famílias carentes, e a Liga do Bem, que alegra a rotina de crianças em hospitais. “Está sendo uma experiência muito enriquecedora”.
Longe das redes sociais, a jovem espera promover menos julgamentos da vida dos outros. “Pelas redes, a gente acaba julgando muito as pessoas”, define. “Quero ser uma pessoa melhor, uma cristã melhor”.
A expectativa de Isabela é de que todas essas ações tenham efeitos positivos no restante do ano. Ela não pretende, por exemplo, deixar os grupos de caridade, mesmo após o término da Quaresma.
O servidor público Danilo Mandetta, 25 anos, também acredita que os hábitos adquiridos agora podem permanecer durante o restante do ano.
Um dos desafios adotados por Danilo é não comer alimentos que o atraem, como batata frita. Pode parecer uma atitude banal, mas o jovem católico explica a motivação por trás do ato. “Na verdade, é uma maneira de domar a vontade. Dessa forma, a sua mente será a dono do seu corpo e não os seus desejos”, argumenta.
Ele também passou a ir à missa e a novenas diariamente e, em sua página no Facebook, compartilha reflexões. “Este foi um dos propósitos que fiz para a Quaresma. Serão quarenta reflexões que surgem durante minhas orações. A intenção é fazer com que as pessoas façam deste período um momento de refletir”, diz.
Danilo defende que a Quaresma é oportunidade de todo católico intensificar as orações, seja pela paz mundial, seja para ser uma pessoa melhor.
A administradora de empresas Rose Mary Domingues, 57 anos, segue a tradição da Quaresma todo ano. “Sempre na Quarta-Feira de Cinzas, começa um ciclo em minha vida, não danço e deixo de fazer coisas que são prazerosas, como comer o que mais gosto”, relata. “Faço mais caridade, sou mais obediente e humilde”, resume.
Para ela, o momento tem significado mais especial. Após perder o filho caçula, há cerca de quatro anos, ela se reconectou com a igreja e se reergueu. “É a hora de rezar mais, ter meus momentos de reflexão e, enfim, tentar viver um pouco disso o resto do ano”.
TRADIÇÃO
Com o passar dos anos, as tradições religiosas estão cada vez mais enfraquecidas, correto? Para os fiéis, não.
“As pessoas que sempre seguiram e fizeram a Quaresma, como deve ser feita, continuam vivendo a tradição”, opina Danilo. “Hoje, há o interesse muito grande dos jovens”, afirma Rose Mary.
Para o padre Reginaldo, cada dia mais as pessoas procuram intensificar sua fé.
Apesar das boas intenções, alguns equívocos podem acontecer. Danilo aponta pessoas que fazem promessas, como, por exemplo, deixar de comer doces, esperando algo em troca. “São propósitos errados, pois em nenhum momento a igreja fala que penitência é moeda de troca”, avalia.
É por essa razão que o padre Reginaldo alerta para as palavras ditas recentemente pelo Papa Francisco. “O propósito é fazer com que você seja uma melhor pessoa a partir do seu sacrifício pessoal. Por isso, o papa vem pedindo para pensarmos em coisas concretas do dia a dia, como, por exemplo, fazer jejum de falar mal do próximo”, aconselha.