Além de local de aprendizado tradicional, a escola também pode ser um espaço para a iniciação cultural. Com o ensino de música e a exibição de produções audiovisuais, os centros de ensino teriam a capacidade de formar uma plateia consumidora de arte, com senso crítico e interesse pela produção nacional.
A Lei nº 13.006, em vigor desde 26 de junho de 2014, determina a exibição de filmes de produção nacional como componente curricular complementar integrado à proposta pedagógica da escola. A exibição é obrigatória por, no mínimo, duas horas mensais.
Mais antiga ainda, a Lei nº 11.769, de 18 de agosto de 2008, estabeleceu a obrigatoriedade do ensino de música nas escolas de educação básica.
Ambas as medidas representam conquistas valiosas para a área de educação cultural do País. Porém, por conta de inúmeras dificuldades de implantação e até de conhecimento, as definições ainda não são completamente cumpridas nos ambientes escolares.
O presidente da Associação Sul-Mato-Grossense da Arte Educadora (Asmae), Caciano Lima, explica que falta assistência do governo para viabilizar as condições necessárias.
“Vamos pensar, a escola tem equipamento, acervo audiovisual à sua disposição, para exibir duas horas semanais de filmes? A gente joga toda responsabilidade para o educacional e esquece de outras esferas. A escola não vai conseguir resolver sozinha”, aponta.
Caciano, que é licenciado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e atua como servidor na Fundação de Cultura do Estado, acredita que uma união entre setores públicos é o caminho para abrir as possibilidades culturais dentro das escolas.
“O Museu da Imagem e do Som, por exemplo, possui um acervo muito bacana para colocar essa legislação em vigor. Por que não unir forças?”, indaga.
IMPORTÂNCIA
Carolina Sartomen é diretora de formação do Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros e é a idealizadora do Cinema d(e) Horror, cineclube ativo na Capital.
Em 2014, ela ajudou a implementar um cineclube na Escola Estadual Waldemir de Barros da Silva, no Bairro Moreninhas. O projeto durou dois anos e deve ganhar continuidade em 2016.
Para Carolina, exibir filmes brasileiros nas escolas é uma maneira de formar público para a produção nacional e diminuir o preconceito com a cultura do País.
“Essa lei é importante, porque a gente passaria a disputar o imaginário das crianças brasileiras. Hoje, as crianças assistem, na maioria das vezes, a filmes da Disney ou europeus, e há uma série de produções de muita qualidade entre os brasileiros, como a animação ‘O Menino e o Mundo’, indicada ao Oscar deste ano”, argumenta.
A produtora cultural acredita que a iniciativa representa uma “emancipação educativa do povo brasileiro”. O senso comum que diz que o cinema nacional só apresenta violência também seria desmistificado. “Cada região brasileira apresenta uma diversidade enorme de temas e abordagens”.
Contudo, apesar dos benefícios, Carolina reconhece as dificuldades. As escolas não têm acervo e, muitas vezes, não contam com equipamentos audiovisuais. “Uma alternativa seria reativar a Programadora Brasil, que distribuía títulos para as escolas. A gente acredita que, se o filme foi financiado com dinheiro público, então o povo tem direito de ter acesso gratuito [a ele]”, defende.
Outro problema crucial é que a maioria dos profissionais de educação nem sequer conhece a lei. “Falta difundir a legislação”, reconhece Carolina.
NA PRÁTICA
Mesmo diante das dificuldades e limitações, alguns professores do ensino público quebram barreiras e utilizam a arte para ensinar e expandir os horizontes dos alunos.
O professor Douglas Alves da Silva, que leciona História na Escola Municipal Bernardo Franco Baís e é coordenador pedagógico na Escola Estadual Marçal de Souza Tupã-Y, utiliza filmes e músicas para contextualizar fatos históricos.
Por exemplo, para explicar melhor o período da ditadura militar, o professor apresenta músicas que retratavam a realidade da época e chegaram a passar por censuras, como “Como Vovó já Dizia”, de Raul Seixas.
Para Caciano, incorporar a música em várias disciplinas e não apenas na matéria de Artes é uma maneira inteligente de aprofundar o ensino musical. “O aprendizado não precisa ficar restrito a apenas uma disciplina”, avalia.
O professor Douglas ainda cita obras clássicas do cinema brasileiro, como “O que É Isso, Companheiro?”, que retrata a resistência nos centros urbanos contra os avanços da ditadura, e “Carlota Joaquina”, sobre a chegada da família real portuguesa ao Brasil.
“Outros filmes podem ser utilizados em sala de aula. Não precisa ser o filme inteiro, podem ser feitos recortes. E não é necessário apenas filmes históricos. Tudo depende do olhar do professor. Isso cabe a todas as disciplinas”.
A professora de Artes Visuais Teresa Cristina Pinheiro Graça leciona na Escola Estadual Maestro Frederico Lieberman e na Escola Municipal Professora Elizabel Maria Gomes Salles. Licenciada em Música pela UFMS, Teresa também desenvolve a sensibilidade dos alunos por meio da arte.
“Música está presente em tudo o que é lugar, em toda situação da vida”, pontua. Em sala de aula, Teresa fala da história da música erudita, conta a origem de ritmos atuais, como funk e hip-hop, além de realizar ensaios e corais.
É comum que alunos se emocionem com canções tocadas pela professora. “Muitos colegas caçoam, mas eu digo que este é o papel da arte, mexer na sensibilidade”.
Para Teresa, um mundo violento e insensível é resultado da carência de ensino da cultura.
A professora destaca que o trabalho de musicalização está presente nos primeiros anos escolares da maioria das instituições de ensino, porém, quanto mais o aluno cresce, menos os professores abordam a música em sala de aula.
Quanto à aplicação da lei que determina o ensino de música nas escolas, Teresa acredita que ainda falta formação e iniciativa do corpo docente. “O professor ou todo aquele que deseja trabalhar com a música, primeiro, precisa vivenciar a música. Primeira coisa que eu recomendo é que faça parte de um coral”, aconselha.
INICIATIVA
Em junho, a Secretaria de Educação (Semed), em parceria com a Fundação de Cultura e a Secretária e Secretaria de Cultura, Turismo, Empreendedorismo e Inovação, realizará um seminário para definir parcerias entre os órgãos.
Atualmente, já existe um acordo em andamento: a Cultura envia agenda com todos os eventos e a Educação programa o que for de interesse para as escolas. Por exemplo, muitas escolas já agendaram visitas para a Semana Nacional dos Museus, que acontecerá entre os dias 16 e 22 de maio.
No seminário de junho, mais práticas serão discutidas para introduzir a cultura na programação escolar. “Vamos tentar trabalhar todas as linguagens e de que forma essas linguagens podem ser otimizadas dentro do ambiente escolar”, diz Caciano.
“Vamos discutir todas essas amarrações, inclusive do ponto de vista orçamentário, financeiro, didático e curricular. Possibilidade de trazer formação de artesanato, de audiovisual, de música, dança. Eu fui muto influenciado pelo teatro, quando era garoto, e isso foi decisivo na minha vida. Se comigo valeu tanto, por que não deve valer para outras pessoas?”, questiona o secretário de Cultura, Athayde Nery.