Quem é pai ou mãe sabe que um “não” nem sempre é suficiente para convencer uma criança. A mãe nega algo no supermercado e o filho abre o berreiro. Na hora de parar de brincar, a criança se joga no chão e esperneia para o pai. Quem nunca presenciou uma cena dessas? A birra e as explosões de raiva são comuns entre as crianças pequenas, especialmente entre 1 e 3 anos, podendo se estender até os 6, em alguns casos.
A instrutora de treinamento de call center Patrícia Silveira, 31 anos, sabe bem como esse comportamento pode gerar constrangimento, além dos olhares de desaprovação de quem está por perto.
Patrícia tem uma filha de cinco anos de idade, Luiza Eduarda. “É filha única e por isso é muito manhosa”, relata. Certa vez, as duas estavam em um restaurante de fast-food, quando Luiza começou a fazer birra para ganhar um sorvete. “Ela estava gripada. Fez o maior ‘show’. Gritou e chorou muito em público. As pessoas ficaram olhando como se eu estivesse simplesmente negando o sorvete”, conta a mãe.
A psicóloga Raissa Teslenco explica que a birra infantil é uma forma de expressão da criança. “Muitos enxergam a atitude como uma reação sem fundamento, quando na verdade é a criança tentando conhecer e entender o mundo e aproveitar o máximo do que ele pode oferecer”, argumenta.
As motivações mais comuns para a birra e os ataques de fúria são: tentar ganhar atenção, desconforto físico (calor, frio, dores, etc.), fome, cansaço e, por fim, frustração.
De acordo com especialistas, as crianças ainda não têm maturidade para lidar com o sentimento de frustração e fazem isso da única maneira que conseguem: por meio da birra. A psicóloga destaca, inclusive, que muitos adultos também utilizam dessa estratégia, seja em brigas de trânsito ou nas relações pessoais.
COMO LIDAR
A principal dúvida dos pais é como reagir aos ataques dos filhos? Muitos respondem com gritos e ordens, outros preferem ignorar.
O pai Galileu Holsbach, 22 anos, por exemplo, sempre tenta conversar com seu filho de um ano e meio, que fica irritado apenas na hora de comer. “Ele quer comer sem ajuda, mas não consegue. Fica bravo, joga tudo pra cima”, diz o pai. “A gente vai tentando falar com ele. Conversamos e fazemos propostas, do tipo ‘se você fizer isso, não vai sair hoje’”, conta.
Já a mãe Luana Latrônico, que tem duas filhas, de três e seis anos, já utilizou estratégias mais duras. “Uma vez, minha filha mais velha se jogou no chão dentro do mercado. Eu virei as costas e saí”, recorda. Foi a única fez que Luana sofreu constrangimento em público.
No dia a dia, ela tenta manter diálogo com as meninas. “Elas já aprenderam que têm dia de ir ao shopping para comprar e tem dia de ir só para olhar”, comenta.
Patrícia também buscou medidas mais incisivas para melhorar o comportamento de Luiza Eduarda. Após muitas birras, ela decidiu mostrar para a filha a realidade de crianças carentes. “Agora, toda vez que ela faz manha, eu falo: ‘lembra daquelas crianças que não têm nada? Elas são felizes do mesmo jeito e não choram nem fazem birra. E você, que tem de tudo, está chorando?’”, questiona.
Para a psicóloga, não há fórmula perfeita para educar os filhos. Porém, há alguns métodos que se provaram eficazes.
“Seja firme mesmo que isso seja muito difícil; converse com a criança olhando nos olhos e de preferência na mesma altura que ela; explique o motivo do ‘não’, mas não deixe de ser acolhedor e afetuoso; perder o controle nesse momento só aumentará a situação”, aconselha a profissional.
Manter a palavra também é importante. Caso os pais voltem atrás com frequência, a criança passa a acreditar que a birra sempre terá o efeito esperado.
Em situações em que a criança faz cenas e não permite o diálogo, como a situação vivenciada pelas mães Patrícia e Luana, a recomendação é ignorar e até se afastar um pouco, para que o filho ou filha perceba que aquilo não surtirá o efeito desejado.
“Por fim, é essencial que os pais sejam exemplo dentro de casa, pois, se mostrarem comportamentos imaturos, como gritar e bater portas, a criança pode estar apenas repetindo um comportamento aprendido”, pontua Raissa.