A questão indígena ganha destaque esta semana com a realização da segunda edição da Semana Estadual dos Povos Indígenas, que será aberta hoje, às 19h. A programação é vasta e reúne professores, representantes indígenas, profissionais que registram a cultura dos índios sul-mato-grossenses, entre outros.
Organizada em parceria entre a Secretaria de Cultura (Sectei) e a Subsecretaria de Políticas Públicas para a População Indígena, a semana aglutina discussões importantes em torno dos problemas a serem superados pelas etnias indígenas que “rexistem” – termo cunhado pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro para se referir às populações indígenas das Américas.
Entre os nomes centrais da programação, o professor Carlos Casé Angatu, doutor em História da Arquitetura pela USP, ministrará o curso “História e Culturas Indígenas: troca de saberes, abordagens, pesquisas e possibilidades em educação”, nos dias 26 e 27. Tupinambé, morador de Ilhéus, ele se tornou uma referência ao demonstrar a importância dos povos indígenas para a construção de cidades como São Paulo, Salvador e Campo Grande.
“Eu acredito que existem três grandes desafios para os índios no século 21. O primeiro diz respeito a mostrar que nós ainda existimos. O índio não desapareceu com a invasão portuguesa em 1500”, argumenta o professor. Segundo ele, apesar do genocídio e do massacre cultural sofridos, o povo ainda mantém sua força e sua luta. “Massacrados, sim; exterminados, não. Esta é uma frase importante do movimento indígena hoje”, comenta.
Outro desafio que se impõem às etnias é o direito à terra. “A Constituição de 88 dá direito aos povos tradicionais a suas terras. A demarcação é uma obrigação do governo”, ressalta. Segundo ele, apesar da garantia constitucional, ainda é preciso fazer valer os direitos. “A demarcação é uma questão muito delicada, mas inevitável. Sem esse direito, outros, como o direito à saúde e à educação, não podem ser plenamente cumpridos”, comenta.
O terceiro desafio, segundo o professor, é o respeito à cultura e às tradições indígenas. Ele afirma que muitos discutem que para ser índio é preciso manter as formas de vida do século 16. “Eu posso ser o que você é, sem deixar de ser o que eu sou. As sociedades indígenas evoluíram, mudaram, mas não deixaram de ser o que eram. Isso parece causar estranhamento em que está fora, mas ainda nos é essencial”, comenta.
De acordo com Silvana Terena, uma das integrantes da Subsecretaria de Políticas Públicas para a População Indígena, a semana foi criada há dois anos e se tornou um momento de encontro e reflexão importante. Com a criação da subsecretaria junto ao governo do Estado, houve uma inversão importante. “Agora, as políticas públicas são pensadas por pessoas das aldeias. É o oposto do que era feito antes, quando as políticas eram criadas sem esse diálogo”, pontua.
Este, segundo Silvana, ainda é o grande desafio atual. “Fazer com que o governo e as autoridades entendam que nós devemos ser protagonistas da nossa história, precisamos fazer parte das instâncias que legislam sobre os indígenas”, comenta Silvana. Para tanto, a subsecretaria conta com representantes de oito etnias indígenas que habitam Mato Grosso do Sul. “Não se trata de criar um plano para cada povo, mas respeitar as especificidades culturais, religiosas e da língua de cada povo”, pontua.