Da primeira apresentação em um palco em Corumbá até a reunião que aconteceu no domingo à noite, no espaço da companhia, 30 anos se passaram. Nesse tempo, Ginga Cia. de Dança se tornou uma referência quando o assunto é criação cênica, sobretudo no que se trata de arte contemporânea. O grupo foi precursor de estilos em Mato Grosso do Sul e sempre esteve na ponta da lança criativa. Apesar de a comemoração ter sido simples, Chico Neller – um dos criadores e diretor do grupo – afirma que um espetáculo comemorativo virá.
“Se não este ano, no próximo. Não temos pressa, mas queremos fazer algo com competência, que faça justiça ao legado da companhia”, pontua. Ele conta que o Ginga surgiu depois de uma ida ao Rio de Janeiro. “Eu nunca tinha saído de Campo Grande, mas já dançava há alguns anos. Haveria um congresso na capital fluminense e eu quis conferir”, comenta. Lá, o jovem bailarino teve contato com estilos em eminência, sobretudo o jazz.
Até aquele momento, Campo Grande tinha conhecido apenas uma companhia de dança independente: o grupo Pantanália. “O cenário era bem limitado. Existiam as escolas de dança, tradicionais, com os espetáculos de fim de ano e só”, lembra Renata Leoni, bailarina, coreógrafa e diretora no Ginga. Ela entrou para a companhia em 1991 e continua até hoje. Segundo ela, muitos dos participantes do Pantanália se interessaram em participar da companhia recém-formada. “Fiz um teste, com o Edson Clair, do Funk-Se. Nós dois entramos, eu nunca mais saí”, pontua.
Em 30 anos, o Ginga se tornou referência e rompeu paradigmas, chacoalhou o status quo sul-mato-grossense. No final dos anos 80, as coreografias da companhia se apoiavam na sensualidade e na sexualidade presentes na linguagem que tomaram como força-motora. “O jazz tinha uma força que interessava muito, mas também era provocante, sobretudo em uma cidade como Campo Grande naquela época”, explica. Com coreografias muito fortes e alegres, que desafiavam o público mais conservador, o Ginga atraiu os olhares mais jovens e passou a encher com facilidade os espaços por onde se apresentava.
CONTEMPORÂNEOS
Até meados da década de 1990, o jazz foi a linguagem predominante nos trabalhos do Ginga. “Nesse período, as criações eram curtas. Havia muita preocupação com festivais de dança, como o de Joinville. Mas, depois que o Chico ganhou o prêmio máximo, passamos a mudar um pouco nosso olhar sobre a dança”, explica Renata. Assim, a companhia passa a se orientar em direção à dança contemporânea. Nesse sentido, “Conceição de Todos os Bugres”, de 2001, é um marco na trajetória do grupo. Trata-se do primeiro espetáculo concebido pelo Ginga.
A dança contemporânea, uma linguagem de compreensão mais difícil, provoca um esvaziamento de público. “Isso provocou a necessidade da gente repensar muitas coisas, de como atingir o público novamente”, comenta Chico. A década de 2000, segundo os diretores da companhia, foi marcada pelos esforços de profissionalização do Ginga e de formação de público. “Tentamos conseguir subsídio para manter os bailarinos, remunerá-los adequadamente. Mas chegou uma hora que aceitamos que não seria possível e passamos a trabalhar com projetos”, explica o diretor.
CULTURA BOVINA?
Nesse período, surgiu um dos trabalhos mais importantes do Ginga. “Cultura Bovina?”, de 2009, investiga as relações de poder, exploração e prazer que envolvem o universo do boi e seus usos na agropecuária, um dos eixos da economia do Estado. O espetáculo é o primeiro selecionado para participar do Palco Giratório – um dos maiores projetos de circulação de artes cênicas do País, promovido pelo Sesc. O resultado da circulação gerou um documentário.
“Participar do Ginga foi a realização de um sonho. Sempre admirei o trabalho que eles faziam. A oportunidade de circular por todo o País foi um dos ápices da minha carreira como artista”, considera a bailarina Débora Higa, que entrou para a companhia em 2006. Atualmente, ela continua contribuindo com Chico, na Cia. do Mato. “A proximidade ainda existe. O Chico é uma figura muito importante da dança do Estado, ele foi um divisor de águas”, pontua.
Depois de “Cultura Bovina?”, o Ginga realizou outros espetáculos, como “Amor Líquido”, “Maria, Madalena” e “Se Você me Olhasse nos Olhos”, último trabalho do grupo, que estreou em 2014. Segundo Renata, este buscou resgatar a história do grupo. “Tem um pouco de brincadeira, que traz de volta o início da carreira, o jazz, as músicas conhecidas”, explica.
Nos últimos anos, a companhia tem focado na realização de trabalhos de formação. Foram dois cursos, um teórico e outro prático. “Temos proximidade com as universidades. O curso de Artes Cênicas da UEMS foi um divisor de águas, mas consideramos importante ter esse trabalho, de trazer artistas e professores para pensar a arte conosco”, ressalta Chico.
PRIMÓRDIOS
Em suas três décadas de atividade, o Ginga reuniu muita gente de talento. Foram criados mais de 25 espetáculos e cerca de 50 bailarinos passaram pela companhia. A jornalista e empresária Luciane Mamoré participou da companhia logo no início. “Eu tinha uns 15 anos. Fiquei durante seis anos. Esse período foi um reforço de autoestima; aprendi que, com empenho, amor e vontade, a gente pode tudo”, comenta.
Luciane fez parte da primeira formação da companhia. “Todo mundo estava cansado do formato tradicional da dança no Estado. Havia só aquele espetáculo de fim de ano das escolas. Com o Ginga, isso começou a mudar”, explica. Ela conta que deixou a companhia quando decidiu estudar Jornalismo na UFMS. “Ainda tenho vontade de voltar, meus grandes amigos estão na companhia”, pontua.