Como problema filosófico, a ética é tão antiga quanto a própria filosofia. Mas, afinal, o que significa viver de maneira ética? A pergunta permanece sem resposta definitiva, porém, foi feita pela primeira vez séculos antes de Cristo. Na Idade Antiga, já se discutia o que significava viver bem e sob quais preceitos os homens deveriam nortear sua existência.
Para Josemar Maciel, professor de Filosofia e doutor em Psicologia, a ética é uma das possibilidades de exercício do pensamento. “O exercício do pensamento é como aproximar-se de uma árvore muito grande e muito frondosa, cheia de frutos”, afirma.
“Um dia a gente descobre que a árvore precisa ser cuidada, tem parasitas ou está com uns galhos mais fraquinhos. E daí, a gente vai estudar as raízes. A ética é uma das raízes mais profundas que podemos atingir de toda a experiência de pensar que os seres humanos são capazes de fazer, de construir”, comenta.
As opiniões costumam convergir em torno dessa noção de que ética tem a ver com uma forma de se portar na sociedade. “Ética para mim é não ser um imbecil numa sociedade que já causa sofrimento demais aos humanos”, aponta o estudante de Ciências da Comunicação, Ed Wassouf. Nesse contexto, a ideia tem a ver com “tentar ser melhor e não prejudicar ninguém. Quando deparado com algum conflito, escolher sempre ser a melhor e não a pior pessoa”, argumenta.
Na visão da produtora cultural Cael Horta, “ética é agir na conformidade: da lei, da sociedade, da natureza. É abrir mão da possibilidade de fazer o que você ‘acha que seria certo’ para agir conforme o que é realmente certo”. De acordo com Cael, a questão tem a ver com a consciência e o bom senso. “É se colocar no lugar do outro, é ter empatia. Não é roubar ‘porque não vai fazer falta’, é não roubar porque vai contra o que você acredita, por exemplo”, ressalta.
Equilíbrio é a palavra-chave para definir a questão, segundo a jornalista e produtora Lu Bigatão. “Ética é viver de uma maneira equilibrada, sem prejudicar as pessoas, os animais, o meio ambiente. É não querer ter e ser mais que os outros, ou buscar se dar bem a qualquer custo”, acredita. De acordo com ela, trabalhar a dimensão espiritual da vida, não apenas a material, também tem a ver com essa forma de existir.
Para a jornalista, no entanto, “está faltando ética em todos os cantos desse planeta. Esse sistema capitalista é inimigo dessa palavrinha”, considera. Nos últimos anos, um termo ganhou espaço nas manchetes jornalísticas, em artigos de opinião, etc: “crise ética”. A expressão passou a se sustentar em meio ao cenário de corrupção que varreu a política brasileira e aos atentados a direitos humanos realizados por diversos grupos organizados.
A resolução dessa crise ética não é simples, mas possível. “Não sei se podemos resolvê-la. Como sou professor, minha missão é acreditar que sim, certamente. Mas isso não significa que vou viver para ver todo o problema resolvido, é claro...”, considera Maciel. Para outro professor de Filosofia, Guto Josman, essa resolução tem a ver com a noção de bem comum. “Ética é uma prática cotidiana, que visa estabelecer o bem comum, partindo, principalmente, daqueles que têm os seus direitos fundamentais negados ou excluídos”, descreve. Logo, agir de maneira ética passa, necessariamente, pela busca da melhor convivência, baseada no respeito.
PENSAR A ÉTICA
“A ética parece cada vez mais, olhando para os muitos contextos em que ela se faz necessária, hoje em dia, um grande esforço para melhorar as relações entre nós, seres humanos, e com o ambiente”, explica Maciel.
Segundo ele, elaborações teóricas e tentativas de tornar a ideia mais clara não faltam, mas, de maneira simples, “a ética nasce tentando entender como viver de acordo com a própria consciência, e como as pessoas podem se comportar, podem pensar o seu agir, no contexto mais amplo das relações humanas”.
Não são poucos os intelectuais que se debruçaram sobre a questão para entender os melhores caminhos a serem seguidos pelos homens. No entanto, não se trata mais de eleger princípios morais inalcançáveis como aqueles propostos pela religião. “No fundo, a pergunta que a ética, como disciplina, nos põe diante dos olhos é: ‘Você pode fazer melhor?’”, argumenta Maciel.
No entanto, esse “fazer melhor” pode estar de acordo com diversos aspectos e isso varia segundo a maneira como cada pensador tentou resolver a questão. “Pode ser mais de acordo com a sua consciência, como diria Kant. Para Hans Jonas, pode ser mais sensível. Enrique Dussel põe a questão da clareza com o outro que é invisível diante das construções atuais da sociedade”, pontua.