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Espetáculos regionais mostram força e resistência do teatro de MS

Espetáculos regionais mostram força <br>e resistência do teatro de MS

Redação

07/06/2016 - 15h31

O teatro sul-mato-grossense consegue provar o seu valor e importância por meio de espetáculos que resistem ao teste do tempo e ganham mais público e reconhecimento ao longo dos anos. Nesta semana, duas peças regionais que conquistaram longevidade e aclamação serão mais uma vez encenadas na Capital.

“Rubens Artaud”, de Isac Zampieri, estreou na sua primeira versão em 1997 e até hoje desperta interesse da plateia. A montagem terá encenação amanhã, às 21h, no Bar Valu (Rua Treze de Maio, 4.541), com entrada a R$ 5 e um quilo de alimento.

No sábado, acontece a última apresentação da temporada de “Uma Moça da Cidade”, espetáculo criado por Anderson Bosh, em 2000. Dezesseis anos depois, a peça ainda tem lotação de público e ganhou versão no Rio de Janeiro. O espetáculo será sábado, às 20h, no Teatral Grupo de Risco (Rua José Antônio, 2.170). O ingresso custa R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada).

HOMENAGEM

Em 1996, o ator Rubens Alves Côrrea faleceu, no Rio de Janeiro. Um ano depois, ganhou a homenagem do ator e diretor Isac Zampieri, com a peça “Rubens Artaud”.

Nascido em Aquidauana, Rubens ganhou reconhecimento nacional por conta do seu trabalho no teatro. Participou de obras na televisão e cinema, mas foi mesmo nos palcos que se consagrou como um dos atores mais expressivos das décadas 1960, 1970 e 1980.

Em 1986, interpretou o dramaturgo francês Antonin Artaud (1886-1948), na peça “Os Inumeráveis Momentos do Ser”, com direção de Ivan de Albuquerque. O ator recebeu diversos prêmios e elogios por sua interpretação.

Um ano após sua morte, em 1996, o Festival Sul-Mato-Grossense de Teatro, sediado em Aquidauana, teve homenagem ao intérprete. No evento, Isac Zampieri criou a esquete teatral “Rubens Artaud”, que retratava vários períodos da vida de Rubens, especialmente sua interpretação aclamada de Antonin Artaud.

A esquete foi elogiada e, no ano seguinte, se tornou uma peça teatral premiada, levando oito dos 12 prêmios do Festival Sul-Mato-Grossense de Teatro, que aconteceu em Ponta Porã.

De 1997 a 2008, “Rubens Artaud” permaneceu em movimento, sendo apresentado em festivais regionais e nacionais e acumulando 14 prêmios ao total. 

Em 2014, mais uma vez a montagem foi encenada, na Temporada do Chapéu, festival realizado pelo Teatro Imaginário Maracangalha, na Capital.

Agora, 19 anos depois de sua estreia, “Rubens Artaud” ganha mais uma vez plateia em Campo Grande. A apresentação, que acontece amanhã, no Bar Valu, terá novidades.

“Agora terá a trilha sonora ao vivo, com um músico chamado Bruno Pironato, que toca vários instumentos de sopro”, relata Isac. Além disso, o ator e diretor revela que a peça será mais dinâmica, mudando de cenário com movimentações dentro do Bar Valu. “Como é um espaço alternativo, tive a ideia de ocupar o ambiente, e a plateia vai seguindo o espetáculo”.

Após trajetória tão longa e de tamanho reconhecimento, Isac Zampieri tenta explicar as razões do sucesso de sua peça. “Eu penso que a linguagem, que é o ‘teatro de crueldade’, uma linguagem do próprio Artaud - ideia de que o espectador seja submetido a um tratamento de choque emotivo -, foi um diferencial”, destaca.

Além disso, Isac acredita que a homenagem a Rubens e a Artaud seja responsável pelo incansável interesse do público. “São duas grandes figuras da dramaturgia, do teatro”, pontua.

O próprio Isac decidiu seguir a carreira de ator após ver a atuação de Rubens Côrrea no espetáculo “O Beijo da Mulher Aranha”, encenado no Teatro Glauce Rocha, em 1982.

“Eu comecei a fazer teatro por influência dele”, diz.

RAÍZES

Em 1998, o escritor, ator e diretor sul-mato-grossense Anderson Bosh decidiu homenagear sua mãe e avó em um conto literário. Não demorou muito e o conto “Uma Moça da Cidade” se transformou em uma peça teatral.

A história é inspirada na trajetória dos avós e pais de Anderson, que migraram do Nordeste para Mato Grosso na década de 1930 e fundaram o distrito de Baianópolis. Na montagem, a chamada “moça da cidade” é baseada na mãe do escritor, que viajava de Bainópolis a Campo Grande para estudar.

“É uma aventura, uma comédia romântica que fala sobre amor, paixões e remonta a  uma Campo Grande de 1950, com histórias, pontos turísticos, economia da época”, descreve Anderson. “Tudo de forma lúdica. É uma história que provoca amorosidade nas pessoas”, analisa.

O espetáculo estreou em 2000 e, desde então, teve temporadas em mais três estados brasileiros. Além disso, em 2014 ganhou uma nova versão, adaptada para o Rio de Janeiro e dirigida pelo ator e diretor Rodolfo Pandolfo. Assim como a original, a versão carioca recebeu elogios de público e crítica.

Para Anderson Bosh, o sucesso e longevidade de “Uma Moça da Cidade” é fruto de sua história emotiva, que valoriza as raízes do povo sul-mato-grossense.

“É um espetáculo amoroso, que eu fiz para homenagear minha mãe. Além disso, mostra a história dos nordestinos que ajudaram a economia do Estado a crescer. Ao fim da peça, as pessoas vêm conversar comigo com gratidão. A gente não é só filho da fronteira, também somos filhos do Brasil”.

Apesar dos 16 anos de circulação, este ano “Uma Moça da Cidade” ganhou temporada recorde de um mês e meio na Capital, com sessões lotadas. Além disso, Anderson recebeu convites para levar a peça para o Festival Literário de Bonito, para o aniversário de Três Lagoas e para escolas públicas estaduais.

IMPACTO

Após tantos anos de resistência, Isac e Anderson avaliam a evolução da cena teatral sul-mato-grossense.

“Um fator muito importante é a questão da formação acadêmica”, afirma Isac. “Antes, a gente não tinha cursos de artes cênicas aqui no Estado. Depois que abriram cursos na UFGD e UEMS, a qualidade dos trabalhos de teatro do Estado evoluiu bastante, especialmente na pesquisa e fundamentação teórica”, avalia.

Para Anderson, após “Uma Moça da Cidade” ganhar o edital Em Cena Brasil, da Funarte, o teatro regional despertou atenção para a possibilidade de participar de editais e prêmios nacionais. Desde então, esse setor apresentou grande evolução em MS. 

“A classe artística se organizou, criaram setoriais, elegeram Fórum de Cultura, aconteceu a política dentro da arte ou a arte dentro da política”, opina.

E os projetos regionais continuam avançando. Em 2018, Isac Zampieri comemora 30 anos de carreira e pretende reformular a peça “Rubens Artaud”, trazendo novos elementos e conceitos. Para isso, já está realizando pesquisas e estudos.

Enquanto isso, Anderson revela que já há possibilidade de “Uma Moça da Cidade” ganhar as telas do cinema.

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