Das águas de Bonito às cores vivas da decoração de casas suburbanas cariocas. A 2ª Temporada de Exposições do Museu de Arte Contemporânea (Marco) será aberta ao público amanhã, às 19h30min. Dois artistas contemporâneos ocupam as quatro salas do museu – localizado na Rua Antônio Maria Coelho, 6000. O fotógrafo Bruno Veiga, do Rio de Janeiro, apresenta imagens registradas para a série “Subúrbio”. Por sua vez, em “Formas d’Água – Reflexão por Transparência”, a chilena Patrícia Claro parte da versatilidade dos rios, lagos e espaços aquáticos de Bonito para produzir fotografias, pinturas, xilogravuras e um videoarte.
Ambos os artistas foram convidados a expor no museu. Patrícia ocupa três das salas para apresentar o resultado de uma residência artística apoiada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Ela morou um período em Bonito, onde teve a oportunidade de pesquisar o famoso bioma e perceber a importância das águas para sua conservação.
Após estudar as várias acepções que tomavam o rio em seu trajeto, a artista optou por representar as chamadas “Lagunas Perdidas”, nome dado a uma região quase virgem do local. A presença de um dos maiores mananciais de água subterrânea do mundo, o Aquífero Guarani, também é uma das referências de Patrícia, neste trabalho que mescla “land art”, suportes clássicos e contemporâneos, além de um forte cunho ecologista.
“Na obra de Patrícia, o destaque foi concedido às cores e à ramagem formada pelos juncos, vegetação que oscila dentro e fora da água; seu método é seguir a luz em verticalidade até o mais fundo possível de ser alcançado pela visão. O resultado final é a transparência das águas sereníssimas da superfície e a sua beleza estonteante e hipnótica”, explica o curador da mostra Rafael Raddi, que, ao lado de Xenia Bergman, foram responsáveis pela vinda do trabalho para a Capital.
Patrícia Claro nasceu em Santiago, no Chile, e estudou Desenho e Licenciatura em Artes Visuais na Universidade Católica do Chile. Suas obras já foram expostas em diversas galerias e mostras ao redor do mundo, como Chile, Estados Unidos, China, Bélgica. A natureza é um dos elementos constantes em sua produção. “Formas d’água – Reflexão por Transparência” foi apresentada no Museu Nacional de Brasília. Depois de Campo Grande, a mostra deve circular por outras cidades brasileiras.
Contrastes universais
Bruno Veiga construiu sua carreira como fotojornalista do jornal O Globo, no Rio de Janeiro. Carioca da zona sul, foi por conta da profissão que ele teve contato com o outro extremo da cidade, a zona norte. Lá, aproximou-se de sambistas e de um outro universo estético, que lhe atraiu o olhar. “Eu tive contato com sambistas que moravam em bairros da zona norte e desenvolvi um projeto junto da Fundação de Cultura do Rio para fazer retratos deles”, conta.
No entanto, em meio às visitas, o uso das cores e a organização das formas também chamaram atenção do olhar treinado do profissional. “Era outra forma de hierarquizar o espaço e me chamou atenção aquela estética suburbana”, conta. O que era um projeto de um ano se estendeu por quase uma década e deu origem a um livro e uma exposição. Ao total, foram produzidas cerca de 90 imagens, das quais 34 serão expostas no Marco.
Embora feitas em um contexto bastante específico – a zona norte carioca dos anos 90 –, as fotografias se universalizam por demonstrar relações e hierarquia de valores presentes em todo o País. “Carlos Beltrão, curador da exposição, fala uma coisa muito importante. Não se trata apenas do subúrbio do Rio de Janeiro. É uma fotografia do afeto”, comenta o artista de 52 anos. Segundo ele, as fotografias apontam para uma estética pré-Casas Bahia. “Era um outro jeito de usar as cores, as formas, muito interessante por sinal.”
“Subúrbio” é um registro sutil e poético do cotidiano de diversas pessoas. “Como cada um de nós traz um pouquinho de subúrbio na alma, ouso afirmar que todos que visitarem a exposição, venham de onde vierem, vão se identificar com muitas das imagens expostas e nelas encontrarão um pedacinho de si mesmo”, ressalta o curador, Carlos Beltrão. Morador de Bonito, ele é um dos responsáveis pela realização da exposição na Capital.
Diálogo
Por meio de parceria entre a Fecomércio/MS e o Museu de Arte Contemporânea, será realizado no Sesc Morada dos Baís a mesa-redonda “Fotografia Contemporânea”. Participam dela o fotógrafo Bruno Veiga, a professora e crítica de arte Maria Adélia Menegazzo e o professor e artista plástico Rafael Maldonado. A mediação é de Carlos Beltrão. O encontro acontece na quarta-feira, às 18h30min.
Entre os temas abordados, Bruno afirma que o mercado de arte para a fotografia é um dos destaques. “A fotografia sempre esteve nos grandes museus do mundo inteiro; mas, como mercadoria, ela demorou a ser valorizada”, argumenta o fotógrafo.
Segundo ele, o número de artistas brasileiros que se inserem no mercado ainda é pequeno e pouca gente consegue se manter apenas da arte; mas, desde os anos 80, percebeu-se uma tendência em direção à mudança, assim como se deu com linguagens artísticas que antes não tinham tanto prestígio, como o grafite e a arte urbana no geral.