Para evitar o nascimento de bebês prematuros, o Conselho Federal de Medicina (CFM) divulgou, na segunda-feira, documento estabelecendo uma nova regra em casos de parto por cesárea: agora, médicos só poderão realizar cesáreas agendadas a pedido da gestante a partir da 39º semana de gestação.
Neste caso, a mulher deverá assinar um termo de consentimento livre e esclarecido em que afirma ter sido informada dos benefícios e também dos riscos da decisão, bem como sobre o direito de escolha da via de parto.
Por outro lado, o CFM também estabelece que o obstetra pode recusar a realizar o parto caso discorde da escolha da gestante, seja em caso de parto normal ou cesárea, e ela deverá receber indicação de outro profissional.
Para o médico Paulo Saburo Ito, especializado em ginecologia e obstetrícia e diretor científico da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Mato Grosso do Sul (Sogomat-Sul), a nova regra é acertada, pois garante autonomia da mulher grávida e do profissional de medicina.
Entre doulas e mulheres grávidas de Campo Grande, a medida também repercutiu de forma positiva, pois derruba a teoria de que o bebê deve nascer a partir da 37ª semana, o que causava pressão e desespero de amigos e familiares sob a mulher.
TEMPO ADEQUADO
A gestação pode ser um período extremamente delicado. Além das preocupações diárias com a saúde e cuidados com o corpo, as gestantes também precisam decidir como será o parto do bebê e lidar com os inúmeros aconselhamentos de parentes e amigos próximos.
Quem já teve filho relata que é comum que pessoas próximas se envolvam no processo, opinando e se intrometendo, sem base de conhecimento científico. A jornalista, mãe e doula Laís Camargo, 25 anos, deu à luz sua primeira filha, Luna, no mês passado. Ela relata que teve parto natural, com 42 semanas de gestação, o que causou desconforto para alguns conhecidos. “Algo que acontece muito aqui no Brasil é essa cultura de que, quando chega nas 38 semanas de gestação, acham que já passou da hora de parir”, opina Laís. “Isso não existe! O bebê não é igual a um bolo, que você coloca no forno e esquece. O seu corpo vai te avisar quando for a hora, então não precisa de desespero”, argumenta.
O médico Paulo Saburo Ito afirma que o momento adequado para o nascimento do bebê é mesmo após as 39 semanas. Mais especificamente, no período que compreende 40 a 42 semanas de gestação.
Essa definição já foi reforçada por um estudo elaborado em 2013, pelo Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas.
“Algumas pessoas dizem: ‘mas fulana teve bebê com seis meses’. Porém, nesses casos, é porque houve algum problema. Mulheres com hipertensão podem ter de tirar o bebê até com 34 semanas. Mas na gravidez normal o ideal é o nascimento com 40 a 42 semanas, esperando a mulher entrar em trabalho de parto”, enfatiza o especialista.
A empresária e estudante de Filosofia Maria Ayslane, 29 anos, está grávida pela primeira vez e ficou satisfeita com a nova medida do CFM. Ela considera a nova regra importante “não apenas para que o bebê não venha prematuramente, mas também para que o tempo do bebê seja respeitado”.
Maria pretende realizar um parto normal, da maneira mais natural possível, sem intervenções. “Minha mãe teve seis filhos, todos de parto normal, e acompanhei a recuperação rápida dela. Isso me deu mais segurança de deixar a natureza seguir como sempre fez”, opina.
HUMANIZADO
Seja parto normal ou cesárea, os profissionais da saúde e mulheres fazem o apelo para que o parto seja humanizado.
A mulher deve estar ciente de todas as suas opções e fazer uma escolha consciente.
De acordo com o médico Paulo Saburo Ito, o parto de cesárea foi banalizado no Brasil em razão de falhas no sistema de saúde. Por exemplo: em caso em que não há vagas nos hospitais, é comum que as cesáreas sejam marcadas com atraso ou antecedência, apenas para garantir a vaga, e não pensando no que é mais seguro para a mulher e para o bebê. “Nunca foi indicado que o bebê seja tirado antes de 39 semanas ou antes do trabalho de parto. Mas, em virtude das falhas, a cesárea foi banalizada, e aí pode acontecer o que a gente não deseja: o recém-nascido ter de ir para a Unidade de Tratamento Intensivo”, constata. Nesse sentido, a nova medida ajudará, e muito, a evitar nascimento de bebês prematuros, que podem desenvolver problemas respiratórios que o acompanharão pelo resto da vida, entre outros riscos.
Para a jornalista e doula Laís Camargo, é preciso que as mulheres saibam que a cesárea é indicada apenas quando a gestante tiver complicações de saúde, como diabetes, ou se houver risco para o bebê (casos em que está sentado, por exemplo).
Sonia Solange Enes Pessoa, enfermeira obstetra e presidente da Associação de Enfermeiras Obstetras do MS, diz ser necessário que mães e profissionais pensem mais no que é melhor para o bebê.
“Foi criada uma cultura da cesárea que envolve laboratórios e procedimentos caros, e ninguém está vendo a necessidade da criança. A cesárea é para casos de extrema necessidade, apenas”, avalia.
A recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) é de que a taxa de cesáreas de um país não atinja mais que 15% do total de partos. No Brasil, o número de partos por cesárea chega a 55,6%.
“É muito difícil fazer parto normal no Brasil. Tudo trabalha contra essa vontade”, lamenta Laís.
Em todo caso, a nova medida do Conselho Federal de Medicina representa um avanço, a evitar que os partos por cesárea sejam marcados de forma precoce, colocando a vida do bebê em risco.
“Todo parto, de qualquer tipo, tem de ser feito com muita atenção à mulher, respeitando as suas prioridades e o nascimento da criança”, finaliza Sonia.