No segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado, podem ser encontradas diversas espécies de frutos comestíveis. A vegetação predominante em Mato Grosso do Sul é lar de pequenas delícias como a guavira, a bocaiuva, o araticum, assim como de frutos exóticos, como o pequi, que tem espinhos em sua polpa, e o buriti, um fruto recoberto por escamas. Com olhos atentos, é possível encontrar algumas dessas espécies em regiões urbanas de Campo Grande.
No entanto, por se tratarem de plantas silvestres, o cultivo extensivo é difícil e não é tão fácil encontrar muitos desses frutos em supermercados, por exemplo. “O que existe são pessoas que praticam o extrativismo e vendem os frutos em feiras ou no Mercadão Municipal”, explica a engenheira-agrônoma Ana Cristina Araújo, pesquisadora da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer).
A questão da produção, da distribuição e do acesso de frutos do Cerrado diz respeito ao seu uso. Para a cozinheira e personal chef Miriam Arazini, trata-se de um dos grandes empecilhos para a utilização desses ingredientes. Quando chegou a Campo Grande, ela teve contato com os frutos e se tornou uma das grandes incentivadoras de seu uso.
“Mas é uma busca constante para encontrar fornecedores”, afirma a chef. Ela conta a dificuldade com qual tem de lidar para conseguir a guavira, por exemplo. “Por ser uma fruta extremamente perecível, só encontramos na época, a partir de novembro. Em outros períodos, tento trabalhar com a polpa. Em Bonito, muita gente produz, mas quase ninguém quer vender”, explica.
Outro fruto do Cerrado difícil de se obter é o cumbaru, uma castanha típica da região. “Com ela, a gente pode substituir ingredientes como macadâmia, castanha de caju, castanha do para ou qualquer outra. No entanto, é muito caro comprar por aqui”, afirma. Por outro lado, é possível encontrar baruzeiros – as árvores de onde se retira o fruto – por toda a cidade. “O problema é a cadeia produtiva. Quem faz extrativismo não consegue vender diretamente e isso encarece muito o produto”, comenta Miriam.
As melhores opções para encontrar esses ingredientes são o Mercadão Municipal e, segundo Miriam, o Centro de Comercialização de Economia Solidária, localizado na Rua Marechal Rondon, 1.500. “Nem sempre tem o fruto disponível, mas é possível entrar em contato com pequenos produtores e encomendar o que se precisa. É bem mais barato comprar com eles”, ressalta. Miriam conta que usa os ingredientes do Cerrado para reinventar algumas receitas, como é o caso do gran gateau, uma releitura do clássico petit gateau. “Eu fiz um com bolinhos de queijo curado do Mercadão, picolé de guavira e cobertura de cachorrada que ficou delicioso”, conta.
Entre seus frutos favoritos, Miriam destaca a guavira, por seu sabor delicado que parece uma mistura de goiaba com jabuticaba, e o cumbaru, ou baru, pela versatilidade e possibilidade de substituição de outras castanhas oleoginosas. “A bocaiuva é outro fruto bem curioso, mas, assim como o pequi, é um caso de ame-o ou deixe-o”, brinca.
CULTIVO
“Pouco se sabe sobre o cultivo dessas plantas silvestres e isso dificulta o retorno. Quando se planta manga, por exemplo, o produtor sabe exatamente o que precisa fazer para colher em determinada época. O mesmo não acontece com as frutas do Cerrado. Sabemos muito pouco sobre elas”, afirma o professor e pesquisador da Universidade Católica Dom Bosco Eduardo Gonçalves. Por esse motivo, é fácil encontrar pés de bocaiuva ou de baru pela cidade, mas pouca gente produz os frutos para a venda.
Um exemplo dado por Miriam demonstra bem a dificuldade que existe no trabalho com frutos do Cerrado. A guavira é uma das mais delicadas e perecíveis, entre eles. Ainda assim, todos anos, em Bonito, acontece o Festival da Guavira, que une cultura, arte e gastronomia, com destaque para o pequeno fruto. Miriam lembra da última edição do festival. “Chegamos lá, mas não tinha guavira. O festival acontece em novembro, mas, este ano, a colheita atrasou por causa do clima. Ainda bem que muita gente em Bonito consegue conservar a polpa”, explica.
Há algum tempo, uma equipe da Agraer tem se dedicado a pesquisas com o fruto. O objetivo é criar técnicas que permitam o cultivo e a produção da guavira, de modo a fomentar a conservação dessa espécie ameaçada de extinção pela devastação do Cerrado. “É um risco em que incorrem todos os frutos silvestres. Sem o cultivo, eles ficam à merce de ambiente que vem sendo muito depredado”, alerta Ana Cristina.