Moradores de um prédio nos arredores da Mooca, na Zona Leste, esbarram com frequência em fãs histéricos que parecem saídos de um clube de admiradores dos cantores Justin Bieber e Kate Perry. Os adolescentes apertam o interfone, fazem plantão na calçada e gritam o nome da estrela do 14º andar: Kéfera Buchmann, de 23 anos. Trata‑se de uma das mais populares youtubers (como são chamados os autores de conteúdo no YouTube, o maior site de vídeos da internet) do país.
A devoção é tanta que a curitibana, moradora da cidade desde 2014, circula em eventos com seguranças e evita locais públicos. Por isso, costuma manter‑se reclusa em seu apartamento, onde, até poucos meses atrás, aparecia na varanda a fim de acenar para os súditos, hábito que suspendeu. “Eles querem manter contato de todas as maneiras, mas parei de dar tchauzinho para eles não ficarem passando perrengue na rua.”
Nas redes sociais, Kéfera arrasta multidões. São 7,4 milhões de seguidores no Instagram, 6,6 milhões no Facebook, 1,6 milhão no Twitter e 1 milhão de visualizações por post no Snapchat, marcas recordes por aqui para uma webcelebridade. Todos vieram na sequência dos vídeos publicados por ela desde 2010. Na primeira postagem, feita no próprio quarto, expunha com um texto esperto o ódio pelas barulhentas vuvuzelas.
Ela estudava teatro na época e apostou que, por meio da plataforma, poderia ser descoberta como atriz de TV (ainda pensa em fazer novela). Os adolescentes adoraram e hoje há perto de 9 milhões de inscritos em seu canal 5inco Minutos, o terceiro maior do país, atrás apenas do humorístico Porta dos Fundos (12,2 milhões) e do comediante Whindersson Nunes, do Piauí (9,8 milhões).
O foco são temas do cotidiano de seu público, como a insegurança de se maquiar em casa, o desejo de responder o que pensa ao professor sem filtros e uma série de situações escatológicas, tudo com humor ligeiro e vocabulário boca‑suja. “No começo, usava esse meu jeito bruto, com palavrões, como proteção. Nunca imaginei que seria minha marca registrada.”
Os “kelovers”, como se autoproclamam, são bem jovens: 46,1% dos espectadores têm entre 10 e 24 anos e 67% pertencem ao sexo feminino. Graças a eles, Kéfera é um fenômeno ímpar fora do mundo digital. Estima-se que ela tenha faturado ao menos 3 milhões de reais nos últimos doze meses (ela não confirma os valores). A garota cobra cerca de 65 000 reais por um post patrocinado no Instagram e 250 000 reais para merchandising em vídeo. Entre os itens com sua marca estão caderno, camiseta, batom e esmalte, que ela aprova um a um. “Só não pega mais contratos porque se tornou tão grande que costuma demorar semanas para aprovar um produto e, às vezes, desaparece no meio do caminho”, diz um profissional do meio.