A expressão mais ouvida nos últimos dias: Palavra aberta! Volto da Feira Literária de Bonito (Flib) trazendo na bagagem centenas de pensamentos sobre os processos de criação na literatura, em gêneros e suportes os mais variados.
Toda feira literária é uma oportunidade de encarar de frente a realidade: a arte é longa; a vida, curta! Não vai dar tempo de ler todos os livros que gostaríamos! Não vai ser possível contar tudo o que aconteceu de uma só vez! Por outro lado, também é uma alegria saber que, se quisermos, há muitas histórias contadas e a contar. Não ficaremos jamais sozinhos.
Uma afirmação de Guimarães Rosa sempre pautou minha caminhada: “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem, de repente, aprende”. E ainda é assim.
Na Flib, aprendi com Paulo Tadeu que a literatura é uma carência, uma falta que, se não satisfeita, pode levar a consequências graves e que poetas e escritores são formadores da alma. A literatura é um direito fundamental tanto quanto todos os direitos fundamentais do homem.
Com a Dora Ribeiro aprendi que a poesia, de fato, não precisa contar nada, pois é a manifestação plena da liberdade humana.
Já o Pedro Gabriel me mostrou que não é possível escrever a história do outro, cada um tem suas próprias referências e que um rabisco num guardanapo de papel pode nos abrir o universo.
Daniel Munduruku me ensinou que a palavra índio não quer dizer nada, revela apenas a ignorância das individualidades e da diversidade das culturas.
A poeta Angélica Freitas ensinou a dezenas de crianças, adolescentes e professores a força do poema e que há maneiras muito simples de expor sentimentos, percepções do mundo e do pensamento. Nem sempre a imagem que fazemos do escritor ou da escritora corresponde ao corpo físico, nem sempre à fragilidade do corpo real, corresponde a escrita segura e, às vezes brutal do narrador.
Ana Paula Maia assim se revelou, como revelou suas marcas pessoais, literárias e do cinema. A poesia de Bruna Beber veio embrulhada em papel, oferecendo os originais da sua “Rua da padaria” com recortes e colagens. Raquel Naveira descortinou a poesia com suas linhas reais e seus trópicos imaginários, ensinando que a memória é fruto de tudo o que vivemos, lemos e amamos.
A chef Dedê Cesco, juntamente com a fotógrafa Elis Regina, colocou os livros na mesa, reforçando a importância do registro dos cadernos de receitas, das folhas avulsas anotadas para que a tradição da nossa culinária não se perca.
Luiz Fernando Emediato abriu e mostrou o que há do outro lado do paraíso, em prosa e imagem, juntamente com Nilson Rodrigues e Paulo Alvarenga. Júlio Maria trouxe a vida e a voz de Elis Regina para todos nós.
Não foi pouca, também, a experiência vivenciada pelas crianças na Praça da Liberdade.
Ali puderam ouvir histórias, declamar poemas, brincar de roda e conhecer mais um tanto de mitos e lendas da nossa cultura, nos “olhos de bois” e na “sucuri de mil cabeças”.
Também na praça pudemos ouvir os trinados de Tetê Espíndola, os forrós e baiões de Beirão; pudemos entender com Tico Santa Cruz que abraçar o outro pode ser uma revolução. E, ainda, ouvir as histórias da vida e da sensibilidade de Paulo Betti no monólogo “Autobiografia Autorizada”.
Na próxima crônica, vou trazer os “Dedos de Prosa”. Como se vê, uma feira literária é muito mais do que um espaço de aprendizagem, é também uma grande narrativa de prazer!