Pensar, sentar e escrever. Repetir, reescrever e recomeçar. O ofício do escritor nunca cessa em uma busca constante por aperfeiçoamento. É por isso que muitos autores consideram que suas obras nunca estão prontas, apenas chegou o inevitável momento de oferecê-las ao público.
De certa maneira, é assim que Henrique Alberto de Medeiros Filho se relaciona com a escrita. Sua preocupação com o texto é grande e isso se percebe logo no título de seu quinto livro, “Palavras Correndo Atrás de Textos”, que será lançado hoje, às 19h30min, no Museu de Arte Contemporânea – Rua Antônio Maria Coelho, 6000.
“Eu escrevo desde os dez anos, é algo que eu faço sempre que sinto necessidade de me expressar. Tenho uma quantidade volumosa de textos guardados. Para este livro, reuni alguns”, explica o autor. O livro foi publicado pela editora Letra Livre, à qual Henrique dirige, junto à agência de publicidade Slogan. “A escrita é um meio de comunicar meu ser interior com o ser exterior. Prefiro falar nesses termos do que dizer que é um modo de me comunicar com o mundo”, aponta.
A busca por encontrar um meio de expressão parece ser uma das preocupações centrais à produção de Henrique, pelo menos neste livro. Poemas como “A Busca” ou aquele que dá título ao livro, “Palavras Correndo Atrás de Textos” demonstram essa motivação, a busca pela palavra mais adequada em um determinado momento. Mas, claro, o livro não se resume a isso. Há poemas sobre temas diversos, daqueles que povoam o cotidiano de qualquer um.
No entanto, a fuga do lugar comum é sempre um norte. “Eu não sou o cara que fala de amor, de dor e traz flores nos seus poemas. Isso não quer dizer que esses temas não estejam presentes, apenas tento abordá-los de maneira diversa. O lugar comum é onde não habito”, pontua. Assim surgem pequenas obras curiosas como “Dois em Um” e “Equação”. Este mistura elementos gráficos para tratar do desejo, suas aventuras e desaventuras. Talvez uma releitura da poesia concreta.
Como todo escritor, Henrique se dedica à leitura. Entre seus favoritos, percebe-se o apreço pelos temas urbanos e cosmopolitas, assim como um certo interesse pela literatura marginal. Nelson Rodrigues, Plínio Marcos, Rubem Fonseca, Bukowski são alguns dos nomes citados rapidamente pelo autor, que deixa claro que a inspiração existe, mas não é necessariamente perceptível.
No entanto, apesar de se considerar um escritor cosmopolita, as influências do passado vivido em Corumbá também aparecem. Os ideais e a fala dos homens pantaneiros aparecem em poemas como “Natureza das Coisas” e “Das Coisas do Pantanal”. “Eu passei 30 anos entre São Paulo e Rio de Janeiro. A vida urbana me motiva bastante, mas achei importante trazer esses ecos de onde cresci. Minha família chegou a Corumbá há 130 anos, é algo que não passa em branco”, pontua.
Além dos poemas que ocupam a maior extensão do livro, há uma segunda parte intitulada “Outros Textos”, nos quais se encontram contos e crônicas. Mais extensos, os textos exigem mais fôlego e apresentam uma faceta mais erudita (e pop) de Henrique, que se volta a temas como o impacto da morte de John Lennon – um texto antigo, segundo ele – ou as referências à Truffaut ao avistar uma mulher de feições francesas em pleno Centro-Oeste.
Nesta segunda-feira, o livro completa o seu caminho e chega às mãos dos leitores. “Agora as pessoas poderão ler, interpretar, gostar ou desgostar da obra. Meu trabalho está feito”, afirma. Na hora de escrever, entretanto, ele afirma que a preocupação maior não é com quem vai ler, mas consigo próprio. “Eu não tenho obrigações com quem vai me ler. O leitor ocupa um papel importante, mas não posso escrever pensando nele”, afirma.
O escritor é perseverante em relação ao papel que a literatura – e as outras artes – deveria ocupar. “O artista é aquele que se expressa para fora da caixinha. As pessoas tem muito medo da criação, mas ela é fundamental para nos ajudar a entender o que é sentimento e humanismo. É uma forma de pensar”, argumenta.
Apesar das dificuldades que as artes tradicionais enfrentam em tempos digitais, Henrique vê com bons olhos a situação de Campo Grande e Mato Grosso do Sul. “Temos vistos festivais, encontros e outros espaços destinados às conversas sobre arte, isso é fundamental”, argumenta. Segundo ele, esse também foi um dos motivos pelo qual escolheu o Marco para o lançamento do livro: “É um lugar para todos que gostam de falar e pensar sobre arte, um espaço privilegiado.”