O que pode o corpo? Uma pergunta, nada simples, faz com que filósofos, sociólogos e, sobretudo, artistas busquem uma resposta. Entre as artes, a dança é uma das que mais se ocupam dessa inquietação. Começando hoje, o Cerrado Abierto – Mostra de Danças Contemporâneas reúne artistas e intelectuais que se colocam diante dessas, e de outras, questões.
A programação se inicia às 18h30min, no Museu de Arte Contemporânea (Marco), com a exibição do documentário “Ginga Documenta: Cultura Bovina em Trânsito”. Realizada pela produtora Arado Cultural, com apoio do Prêmio Funarte Klauss Vianna de Dança 2014, a mostra é um desdobramento de outro evento realizado anteriormente, em Três Lagoas, o “Dança Três”.
“Para Campo Grande, pensamos de uma maneira diferente. Como aqui já existe um público formado, vamos dar espaço à dança contemporânea”, explica Renata Leoni, dançarina e uma das produtoras responsáveis pela organização do festival. Na programação, espetáculos premiados serão apresentados pela primeira vez na Capital, como o solo “Um Corpo Só”, de Vanessa Macedo, e “Indignado”, da companhia boliviana Atempo Danza.
Com espetáculos da Bolívia e do Paraguai, a mostra busca abrir as fronteiras da dança em Mato Grosso do Sul. “Pensamos nessa questão do Cerrado, em uma possível abertura aos países vizinhos”, afirma a organizadora. A escolha pelo Marco para abrigar o evento também é um meio de reforçar a presença do bioma. Inclusive, o espetáculo “Porque Somos Mutantes” será apresentado sob as árvores do Parque das Nações Indígenas.
Os artistas e as companhias profissionais de dança, que pesquisam e constroem espetáculos a partir das linguagens da dança contemporânea, são o destaque. “É uma oportunidade de ver trabalhos importantes, de artistas com trajetórias marcantes”, explica Renata, que também fez a curadoria assinada em parceria com o diretor e coreógrafo Marcos Mattos e a artista de dança Roberta Siqueira.
Outro elemento importante da programação são as oficinas, que se apresentam como espaço de trocas entre artistas. Serão três, com focos diversos: videodança, dramaturgias do corpo e dança de rua. Além dessas, haverá também atividade voltada para as crianças. Toda a programação é gratuita e pode ser conferida no site: http://www.cerradoabierto.com.br.
Dança que se faz hoje
Poucos conceitos são tão abrangentes como o de dança contemporânea. Essa abrangência acaba por dificultar a popularização do estilo. Tem-se ai um paradoxo, uma vez que a dança contemporânea surge como uma tentativa de abertura, permitindo até mesmo uma abordagem mais democrática dos corpos. “É uma ideia um pouco mais complexa do que a de uma dança feita nos nossos dias. Não se trata de um estilo como o balé ou o jazz, mas de uma maneira de pensar a prática”, explica Renata.
A produtora ressalta que não se trata de algo único, por isso o nome dado à mostra está no plural. “De maneira bem grosseira, a dança contemporânea tem a ver com o artista querer expressar algo e construir um projeto de pesquisa, que pode beber de várias fontes. Ele pode fazer yoga, alpinismo, danças urbanas, enfim, pensar várias formas de pesquisar movimentos e descobrir seu corpo”, explica.
Historicamente, as poéticas que dão início ao movimento surgem na década de 1960. “É mais um pensamento do que uma prática, é um jeito como você olha para o movimento e para o humano. Acredito que seja mais generoso, mais democrático, porque não tem aquele modelo de corpo que a gente vê no balé, por exemplo”, comenta.