Dos povos tradicionais às receitas caseiras para curar males, o uso de plantas para o tratamento de doenças data dos primórdios da humanidade. Conhecida como fitoterapia, a prática terapêutica é reconhecida pelo Ministério da Saúde desde 2006. De acordo com o Conselho Brasileiro de Fitoterapia, a área tem crescido em meio às terapias medicinais alternativas.
Uma das figuras centrais desse processo são os raizeiros. Pessoas conhecedoras das propriedades medicinais de plantas e raízes, eles podem ser encontrados pelo centro de Campo Grande ou no Mercado Municipal. Embora não tenham autoridade para receitar as plantas, eles auxiliam os consumidores e afirmam que, geralmente, as pessoas sabem o que querem.
“Eu atendo pessoas que já passaram por médicos ou fizeram pesquisas. Não costumo indicar nada para não ter problemas”, explica Mestre Mato Grosso, capoeirista e raizeiro que comercializa uma infinidade de ervas na Praça Ary Coelho. “Eu não sei quantas eu tenho aqui, mas sei para o que cada uma serve”, afirma. Ele conta que colhe a maior parte das plantas que vende – cerca de 20% são compradas de revendedores.
Sob o sol quente, Mestre Mato Grosso espalha as sacolas com ervas como a camomila, o anis-estrelado, a buchinha, o jatobá, a flor de hibisco, entre outros. A imagem é bonita. Com um pilão, ele prepara misturas na hora, como o fez enquanto a reportagem era realizada. O fotógrafo da equipe do Correio do Estado ganhou uma trouxa com anis, sálvia e boldo-do-chile. “É para o tereré, fica ótimo”, afirmou o raizeiro.
Ele conta que aprendeu a utilidade das ervas com a mãe e colhe boa parte do que vende no sítio da família. “São plantas do Cerrado, algumas mais fáceis de encontrar, outras não. É preciso saber a hora certa de colher”, explica. Ele conta que o uso das ervas tem relação direta com a capoeira. “Conta-se que Zumbi usava plantas para curar homens brancos, que depois eram interrogados por ele”, diz.
O mestre capoeirista é um dos raizeiros tradicionais no centro da Capital, mas não é o único. Basta caminhar um pouco que se encontram outras bancas e carrinhos que comercializam as plantas. No Mercadão Municipal também estão diversos estandes, nos quais é possível encontrar raízes, plantas, flores e frutos que têm objetivo de curar.
Segundo o vendedor Murilo Heidrick, o conhecimento vem de pesquisas feitas na internet e da conversa com quem sabe do assunto. “A gente precisa saber. Tem muito produto que detalha a ação na embalagem, mas outros não. Também há clientes que querem comprar algo, mas não sabem exatamente o quê”, explica.
Ele contabiliza mais de mil tipos de plantas comercializados. “Aqui na banca ficam uns 50 tipos, mas temos muita coisa guardada. Se o cliente pede algo que não temos, geralmente encontramos no depósito”, afirma. Para Murilo, as vendas nunca param. “Temos um público variado. A maioria chega por indicação de algum fitoterapeuta, mas há quem venha depois de pesquisar muito”, explica.
Esse é o caso da auxiliar de serviços Normeide Moreira, 51 anos. Ela conta que é diabética e o uso de medicamentos para controlar a doença crônica causam mal-estar por causa de sonolência em excesso e incômodos estomacais.
“Conversei com meu médico e ele sugeriu que eu tomasse alguns chás”, explica. Entre as indicações, o chá de canela de velho, que ajuda no combate a complicações decorrentes da diabetes, além de artrite, artrose e outras inflamações ligadas às articulações. “Eu prefiro usar as ervas, elas são mais leves. Acredito que as contraindicações sejam menores”, pontua.