Quando esteve no País das Maravilhas, Alice percebeu a realidade de forma distorcida – transitou de um mundo para o outro e viu as coisas aumentarem e diminuírem de tamanho. Se o que aconteceu com a personagem da ficção fosse analisado do ponto de vista clínico, os médicos diriam que a menina teve alucinações e suspeitariam de uma provável disfunção mental.
Mas nem todos os distúrbios mentais provocam fuga da realidade, tal como apresentou Alice. Existem, e são cada vez mais comuns, transtornos mentais e de comportamento que originam disfunções biológicas, sociais, psicológicas e de humor; no entanto, não promovem delírios e não têm causas definidas. Podem ser considerados patologias menos graves, contudo, são recorrentes em pessoas de todas as idades e afetam de maneira devastadora as relações íntimas e sociais de quem as adquire.
A psicoterapeuta e hipnoterapeuta Bernadete Campos tem 30 anos de experiência profissional em Campo Grande e afirma que a procura de pacientes com disfunções desse tipo só tem crescido. Para ela, isso se deve à tendência de se “transformar problemas do cotidiano em síndromes”.
Sem minimizar a gravidade de alguns transtornos, ela explica: “São cada vez mais comuns. A quantidade de pessoas que estão recebendo esses diagnósticos indica que há uma pressão no ar e que elas se sentem ou estimuladas ou pressionadas demais. Existe hoje um deslocamento e uma produção sem precedentes na sociedade, e isso tem gerado síndromes e mais síndromes”.
De fato, o “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais” – referência para especialistas em saúde mental – incluiu diversas novas designações para essas disfunções nos últimos anos. Algumas das mais conhecidas atualmente são a bipolaridade, o transtorno ou síndrome do pânico, os transtornos alimentares e as fobias em geral.
Buscar tratamento, segundo Bernadete, ajuda a “desligar o alarme” que aciona os sintomas do transtorno. Ela recomenda que ele não seja feito somente com uso de medicamentos e que o paciente procure mudar o estilo de vida, encarar a realidade de forma diferente e encontrar o verdadeiro cerne do problema. “As pessoas querem se medicar logo. Não querem dor, não querem vivenciar luto, passar pela tristeza. Essa fuga dificulta a aceitação das fases da vida e o amadurecimento. Nós não suportamos mais uma cólica, uma dor de cabeça. Se houver um remédio paliativo, aplicamos. Não podemos criar intolerância à dor, ela é amiga.”
NORMALIDADE
Voltando à ficção, desta vez o conto brasileiro “O Alienista”, de Machado de Assis, é que ilustra melhor a realidade.
Na obra, o renomado psiquiatra Simão Bacamarte decide retornar à cidade natal, Itaguaí (RJ), onde abre o manicômio Casa Verde. Dedicado à profissão e à ciência, acaba sendo o responsável pela internação da maioria dos moradores da cidadezinha, pois em algum ponto todos haviam apresentado comportamento desviante em relação ao que considerava uma perfeita saúde mental. A essa altura, percebeu que estava diante de algum erro e libertou os internos. Refez a teoria inicial e passou a acreditar que os doentes eram os que estavam soltos. Se a maioria apresentava desvios de personalidade e não seguia um padrão, então “louco” era quem mantinha regularidade nas ações.
O psiquiatra Marcos Estevão, também de Campo Grande, explica que a fronteira entre o transtorno e a normalidade que um paciente apresenta pode ser definida por uma série de análises clínicas, exames e observações. São analisadas alterações como a de transmissores cerebrais, comportamento, cognição, pensamento e motricidade.
Para ele, os diagnósticos de transtornos mentais aumentaram principalmente em decorrência do crescimento da procura pelos consultórios médicos e da abertura para exposição dos hábitos e sintomas do paciente. “Hoje nós procuramos mais por atendimento e relatamos os problemas de ordem psíquica. Ninguém antes falava de uma obsessão e percebia que isso poderia ser uma doença”, argumenta.
O meio também contribui para o aumento dos casos de transtornos, segundo Estevão. “Ele é cada vez mais o agente psicoestressor, facilita o aparecimento de doenças nesse sentido.”
PRECONCEITO
No cotidiano, as pessoas com transtornos mentais sofrem não só em decorrência dos sintomas, mas também em função das dificuldades de convívio e da propensão ao preconceito.
“Você não tem ideia do quanto é difícil”, diz Fabiana Farias (nome fictício), estudante universitária. Ela conhece a realidade dos distúrbios mentais não só porque os estuda, mas também porque foi diagnosticada com um deles, o transtorno da personalidade limítrofe – chamado também de transtorno borderline e ainda pouco conhecido pela população.
Ela recebeu o diagnóstico na adolescência, mas desde a infância sofria com automutilações. Hoje, tenta conviver com o transtorno, mas enfrenta, além dele, o preconceito nas relações afetivas e no mercado de trabalho, principalmente.
A discriminação e o preconceito contra pessoas com deficiências ou transtornos mentais têm nome que leva o sufixo “fobia”, assim como alguns transtornos em que o medo e a repulsa estão associados aos sintomas. É a psicofobia.
Essas práticas são consideradas crime no Brasil. Um projeto de lei em trâmite no Senado, desde 2014, tipifica a psicofobia e propõe o endurecimento das penas.