Em Campo Grande, a programação de comemoração do Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro, deixa clara o impacto dos movimentos negros na cidade. Os trabalhos se iniciaram no começo do mês e para os próximos dias estão previstas palestras, rodas de conversa, exposições, discussões sobre políticas públicas e concursos de beleza.
Para Romilda Pizani, do Grupo Trabalho e Estudo Zumbi (TEZ), a programação foi um esforço conjunto de movimentos negros junto a instituições do Estado, como a Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Assistência Social e Trabalho. “São ações que evidenciam o papel do negro na sociedade. Estamos em um momento importante, no qual as vitórias são cada vez mais visíveis”, afirma, lembrando que ainda há muito pelo que se trabalhar.
O Grupo TEZ é uma das primeiras organizações do movimento negro a surgir em Mato Grosso do Sul. “Começamos a atuar no Estado há 31 anos”, comenta. Hoje, afirma Romilda outros grupos surgiram e vêm endossando as ações coletivas. É o caso do Fórum Estadual Permanente dos Movimentos Negros, o Coletivo de Mulheres Negras Raimunda Luzia de Britto, o Giro 380 e a Associação dos Descendentes da Tia Eva, para citar alguns.
“Embora o TEZ seja, burocraticamente, o primeiro grupo. A Comunidade Tia Eva foi pioneira na busca pelo reconhecimento dos negros e negras do Estado”, aponta Romilda. Outros grupos têm se organizado como é o caso do Movimento Crespos e Cachos de Mato Grosso do Sul e as Minas do Turbante. “São grupos jovens, que têm trabalhado no plano simbólico, estético, mostrando que elementos da cultura negra como os penteados afro e os turbantes desempenham um papel fundamental”, aponta.
ESTÉTICA
Um dos momentos de destaque da programação são as palestras realizadas pelo artista plástico Galvão Pretto, que discutirá a trajetória de 12 artistas negros. As conversas acontecem na quarta-feira, às 9h, na Biblioteca Estadual Isaías Paim, e na quinta-feira, às 13h, como parte do II Seminário “O Negro no Século XXI – O Lugar do Negro”.
“Vou traçar uma linha que vem do Brasil Império, passa pela República e chega à contemporaneidade para mostrar como os espaços foram sendo ocupados por artistas negros”, afirma Galvão. Segundo ele, o assunto não é isolado. “Eu toco em questões econômicas, religiosas e, claro, sociais”, aponta.
O palestrante comenta que no período do Império, a relação dos negros com a arte era ligada à adoração das divindades. “Quem vinha para o Brasil como escravo não abandonava a sua fé. Esses elementos chegaram aqui com muita força”, comenta. Com a instituição da república, os negros e negras passam a ser tratados como invisíveis. “Foram alguns anos até que ele saísse dessa situação”, afirma.
No período contemporâneo, Galvão afirma que tratará de 12 artistas negros, que apresentam um pequeno painel de sua evidência no campo artístico. A palestra abordará o trabaho dos seguintes nomes: Mestre Valentim, Estêvão Silva, os irmãos Thimóteo da Costa, Arthur e João, Crispim, Arthur Bispo do Rosário, Estêvão Silva da Conceição, Emanuel Araújo, Galvão Pretto, Iléa Ferraz, Renata Filinto e Sidney Amaral.
“É uma história muito recortada. Alguns nomes, como o de Arthur Bispo do Rosário vieram a ser reconhecidos a pouco tempo”, aponta, referindo-se ao artista que passou a maior parte da sua vida internado em hospícios e colônias. Sua produção, no entanto, acabou sendo descoberta e viajou o mundo em exposições importantes, como a Bienal de Veneza.