Dos músicos que se iniciaram no Titãs, Nando Reis é, com certeza, aquele que mais obteve respaldo popular para suas criações. A cada lançamento, consegue emplacar uma ou mais canções na parada.
Agora, com o novo álbum, “Jardim-Pomar”, o fato se repete. A música “Só Posso Dizer” aparece com destaque na programação das rádios, mostrando estilo calcado no folk americano e na MPB. Mas a coleção de hits pode aumentar, já que o novo material traz várias composições com potencial para invadir às programações das rádios e da televisão.
Leia a seguir trechos da entrevista feita por e-mail, em que Nando fala do novo disco e faz reflexões sobre a carreira.
Em várias das suas canções, você faz referência a pessoas próximas do seu cotidiano. Esse tipo de abordagem já causou que tipo de situação?
Sempre que escrevo sendo explícito ou nominando fatos ou pessoas do meu círculo familiar, acho que essa afirmação do que é particular se anula na transferência pela apropriação do outro e, assim, torna-se universal. Mas é claro que isso também fornece àqueles que conhecem o meu trabalho mais elementos para que saibam mais de mim. E isso não é proporcional: um fã que se aproxima para falar comigo sempre tem uma ideia de intimidade cuja recíproca não acontece. É intrínseco de eu ser uma figura pública.
O seu novo álbum foi gravado no Brasil e nos Estados Unidos. Do ponto de vista sonoro, esse deslocamento geográfico possibilita novos achados para o trabalho?
Sim. Tudo o que está ao redor, todo o contexto, as pessoas presentes no momento de uma gravação, o momento, tudo acaba contribuindo, participando, influenciando. Gosto de ir pra Seattle porque gosto de trabalhar com Jack Endino em seu estúdio. Gosto de ver a minha vida de outra perspectiva, assim como gosto de gravar “em casa” (em São Paulo) para ter a perspectiva inversa. De dentro pra fora; de fora pra dentro.
Na ficha técnica do CD, aparecem nomes de músicos americanos que já colaboraram em outros momentos da sua carreira – Jack Endino, Peter Buck, entre outros. Pode-se dizer que você, atualmente, tem uma “turma musical” nos Estados Unidos?
A minha “turma americana” é pequena: Jack e Barrett são grandes amigos e parceiros, conhecimento que vem de longa data. E tem a turma ampliada, que se aproximou de modo indireto: Peter Buck (que já gravou em outros discos) e Mike McCready, grandes amigos do Barrett.
A faixa “Azul Presunto” reúne artistas brasileiros de gerações diferentes, incluindo seus antigos parceiros do Titãs. Como surgiu a ideia dessa música e como foi encontrar (ou reencontrar) essa turma toda?
Assim que compus a música, sabia que ela deveria ser cantada por muitas vozes. Quando chegou o momento da gravação, convidei meus amigos titânicos (Arnaldo Antunes, Branco Mello, Paulo Miklos e Sérgio Britto), meus filhos (Theo e Sebastião, que têm a banda 2Reis, e Zoe) , e as cantoras que admiro (Pitty, Tulipa Ruiz e Luiza Possi), grandes artistas, com quem nunca havia trabalhado. Gravamos em dois dias: no primeiro, juntei os Titãs com meus filhos: no segundo, vieram as meninas. Foi uma farra.
O disco traz uma parceria com Samuel Rosa, a única do disco. Como é seu processo de composição sozinho e com parceiros?
Bastante diferente, mas com algo parecido. Quando componho sozinho, faço tudo junto: letra e música. Com Samuel, apenas escrevo as letras. Em geral, ele me manda a melodia, e eu escrevo sobre ela. Mas, claro, durante o processo nos falamos e batemos bola. Essa música, “Como Somos”, rescrevi a letra inteiramente depois de ouvir de Samuel que ele não havia gostado da primeira letra. Por isso é uma parceria.
Existe algum projeto que queira realizar, mas que ainda não teve condições de concretizá-lo ?
Sim. tem tanta coisa que quero fazer, especialmente as que ainda não imaginei.
Você é um artista que viveu e assistiu o ápice do esquema da grandes gravadoras - divulgação maciça, condições técnicas adequadas de gravação, contrato, em muitas casos, com vantagens financeiras para os artistas. Por outro lado, também acompanhou o desmonte desse processo, quando a pirataria ganhou terreno e a internet tornou-se presente no cotidiano, apresentando um novo cenário para o meio musical. Como avalia o momento atual e e qual a sua estratégia para ocupar seu espaço nesse ambiente?
Vivi toda a transição e a transformação da industria fonográfica com a chegada da era digital. Da crise de mercado com a replicação que acabou com as vendas, através da pirataria. Ao despreparo que redundou na falta de regulamentação para proteger os direitos autorais quando chegou a internet. Aquela loucura de achar que ser conteúdo nos dava como dividendo a simples divulgação, enquanto os tubarões vendiam espaço publicitário e se enchiam de dinheiro. Desde que me tornei independente e tive que aprender e me envolver com a parte comercial, fiz várias experiências para me entender com um mercado em permanente transformação. A maior dificuldade foi encontrar o espaço para colocar e atingir a parcela do público que ainda se interessava em adquirir o produto físico, já que a música digital vinha tornando a compra de Cd uma prática obsoleta. Nesse momento, surgiu inesperadamente a volta do interesse pelo vinil. Que comprovou que essa ideia do avanço tecnológico não se dá de forma linear, que o suporte físico era fundamental para a compreensão da totalidade da criação artística contida no disco (a sequência das m músicas, a relação multisensorial - auditiva, visual,tátil, olfativa - da experiência advinda do contato com objeto; a expansão dos significados que se dá na relação do conteúdo sonoro com seu a arte de sua embalagem, muito mais impactante na escala do Lp). Enfim, tudo o que se perdia na música digital, que disparou a rota do imediatismo seguido do descarte. Uma disco propõe uma experiência que demanda tempo, que se dá por absorção cumulativa, que nunca se fixa, onde prevalece a impressão instantânea, que paradoxalmente se descola do tempo, e sem permanência se torna infinita, nunca igual. Faço discos, e por isso gosto agora de estar envolvido no desafio de saber como vendo-los, e ser achado por quem queira comprá-los.