A adolescência é a mesma fase de sempre: transformações biológicas e variações de comportamento continuam fazendo parte do roteiro de mudanças internas. O que está diferente é externo. O mundo em que vivem ficou fracionado entre o real e o virtual, após a revolução digital.
Cercadas por dispositivos tecnológicos, 85% das pessoas de 9 a 17 anos têm acesso à internet por meio de smartphones no Brasil, segundo dados do Comitê Gestor da Internet divulgados em outubro deste ano. Não é nenhuma novidade dizer que essa exposição tem duas faces, uma que apresenta os benefícios e outra que emite um alerta sobre os riscos.
Exceto no horário em que está na escola, a adolescente Letícia Cordeiro, 16 anos, de Campo Grande, passa a maior parte do tempo on-line. Nas redes sociais, conversa com os amigos a todo momento e, nos sites que mais acessa, sacia a curiosidade de saber mais sobre as coisas que aprende na escola e no dia a dia. A sua relação com a web é parecida com a de muitas pessoas que estão na mesma faixa etária.
“Acabo tendo alguns problemas, mas, ao mesmo tempo, me ajuda muito, porque tudo que procuro encontro de forma rápida e muito bem explicada. Me atrapalha quando as redes sociais me prendem por horas e, quando paro para prestar atenção, já foi muito tempo e não estudei”, relata.
Apesar de admitir que há um problema em não conseguir fazer o que planeja quando está on-line, Letícia afirma que sabe aproveitar o período em que está desconectada. “Não sou de muitos amigos, sou de poucos e bons e a minha relação com a família é incrível, sempre há uma oportunidade de estarmos todos juntos, almoçando ou viajando, por exemplo. Falo muito com todo mundo na internet e, pessoalmente, até mais. Sempre que posso saio de casa para fazer algo que me dê prazer”.
SEM LIMITES
A conexão sem limites tem nos levado à solidão – eis uma das maiores contradições dos tempos atuais. Há quem passe mais tempo on-line do que off-line e não consiga estabelecer equilíbrio nas tarefas diárias ou mesmo manter relações pessoais saudáveis. O tempo passa enquanto se vive virtualmente – e, quando não controladas, as horas de conexão podem virar fator de risco.
Que tipo de adultos se tornarão a geração de adolescentes que está sempre conectada e se isola do convívio social é o que os especialistas ainda não conseguem prever ao certo. Para a pediatra, pesquisadora e professora associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Evelyn Einsenstein, só será possível saber mais tarde. “Daqui uns 20 ou 30 anos, saberemos as causas e os efeitos dessas mudanças”.
Há diversas evidências dos danos que a conexão prolongada pode gerar. Existe uma lista que inclui distúrbios alimentares, problemas de visão como a síndrome do olho seco, problemas de sono, distúrbios musculares e psicomotores causados pela má postura e sedentarismo, e transtornos como ansiedade, fobia e depressão.
A pediatra justifica a atenção especial dada à adolescência. “É a fase mais preocupante porque uma coisa é você lidar com um adulto, um ser amadurecido do ponto de vista biológico, outra coisa é você expor crianças e adolescentes que ainda estão com desenvolvimento cerebral ativo. Esse desenvolvimento neurológico está sendo influenciado pela revolução digital e ainda não é possível saber as consequências futuras”.
Evelyn participou do Congresso Brasileiro de Adolescência, realizado em Campo Grande, no início do mês. Falou sobre o mundo digital, o adolescente da atualidade e o limite dos pais e destacou a necessidade de eles procurarem saber o que os filhos fazem na internet. Segundo ela, os profissionais da educação e da medicina têm feito suas partes e alertado sobre as ameaças.
Pai de um adolescente de 16 anos, Francisco Sanabria não aprova a quantidade de tempo que o filho passa na internet, mas confia no que ele faz. “Coloquei, agora, na escola de futebol para desvincular um pouco da tecnologia, está funcionando”.
QUALIDADE
O estudante Vitor Neves tem 15 anos e passa de oito a 12 horas por dia conectado. Acessa a internet no trabalho, onde foi contratado como menor aprendiz, e em casa.
Nas horas de lazer, ele faz pesquisas e procura diretamente por assuntos de seu interesse na web. “O que mais faço é acessar as redes sociais, principalmente o Instagram, em seguida, assisto a meus filmes e séries e acompanho alguns canais no YouTube. Um dos temas de maior interesse é a culinária, sou apaixonado por gastronomia, principalmente pela confeitaria”.
Ele considera o tempo que passa na internet razoável, por isso acredita que seus pais não se preocupam em vigiá-lo. “Meus pais não falam muito no assunto e me deixam mais livre para desfrutar da tecnologia, até mesmo porque uso ela de maneira moderada”, afirma.
Não só o tempo que os adolescentes passam em rede, mas também o que fazem em rede precisa receber atenção. Sem negar os pontos positivos do acesso a uma infinidade de conteúdos, a pediatra Evelyn Einsenstein cita outros problemas nesse sentido, dessa vez decorrentes do comportamento dos adolescentes.
O cyberbullying – propagação de mensagens de ódio e intolerância –, a exposição a conteúdos sobre violência e a exposição do corpo são alguns deles. “Muitas vezes, eles não questionam a veracidade do que leem, se expõe além do limite, acessam conteúdos destrutivos em vez dos pró-sociais”.
Também ressalta a confusão entre o aqui e agora e a realidade virtual. “O que queremos de sociedade? Que seja mais aberta, mais reflexiva, que compartilhe ou uma sociedade mais explorada pela mídia, controlada, que vive a realidade pela selfie? Hoje, criam-se performances, mas apesar de serem um reflexo da realidade não são reais”.
E finaliza. “Precisamos proteger a próxima geração com valores, afeto, abraço. Os adultos precisam se desconectar também. Não se comunica com uma criança ou adolescente por mensagem de WhatsApp”.