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LITERATURA

Nervosa, Patti Smith interrompe canção ao receber Nobel de Dylan

Nervosa, Patti Smith interrompe <BR>canção ao receber Nobel de Dylan

Redação

10/12/2016 - 15h30

Sem a presença de Bob Dylan, que havia anunciado há semanas que não iria a Estocolmo receber o Nobel de Literatura, a honraria foi apresentada neste sábado com uma performance da cantora Patti Smith, encerrando o discurso de Horace Engdahl, da Academia Sueca.

Ídolo do rock e colaboradora de longa data de Dylan, ela cantou uma versão de "A Hard Rain's A-Gonna Fall", um dos clássicos do compositor americano.

De terno, os longos cabelos grisalhos partidos ao meio, Smith fez uma performance contida até se emocionar e interromper um verso, logo pedindo desculpas. "Estou muito nervosa, me desculpem", ela disse, antes de retomar a canção, sob aplausos e arrancando lágrimas da plateia.

Minutos antes da performance, em tom defensivo e tentando dar respaldo à polêmica decisão de entregar o maior prêmio mundial de literatura a um músico, Horace Engdahl alinhavou uma série de justificativas em sua fala.

"O que provoca as maiores mudanças no mundo da literatura? Muitas vezes é quando alguém revê uma forma simples, às vezes negligenciada, não considerada arte erudita, e a transforma", disse. "Não deve causar espanto um cantor e compositor receber, portanto, o prêmio de literatura."

Engdahl lembrou ainda que, no passado, toda poesia era recitada ou cantada por trovadores e cantores. Mas reconheceu que a raiz da obra de Dylan não está nos clássicos gregos, mas sim em sua "dedicação de corpo e alma" à música popular americana do século 20, "do tipo tocada em gramofones para pessoas comuns, negras e brancas".

Nas mãos do músico, segundo Engdahl, "rimas banais e piadas grosseiras" se transformaram em "poesia de ouro, se de propósito ou sem querer é irrelevante". "Suas rimas são uma substância alquímica que dissolve contextos para criar novos contextos, mal acomodados no cérebro humano", acrescentou.

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"Diante de um público esperando músicas de toada popular, lá estava um homem com uma guitarra fundindo as linguagens da rua e da Bíblia num composto capaz de fazer o fim do mundo parecer um replay supérfluo. Ao mesmo tempo, ele falava de amor com uma convicção que todos gostariam de ter."

Tida como imune a críticas e influências exteriores, a Academia Sueca parece não ter se deixado abalar pela ausência de Dylan. "Se as pessoas no mundo literário vão chiar, é importante lembrar que os deuses não escrevem, eles cantam e dançam", disse Engdahl. "Os auspícios da Academia Sueca hão de seguir o senhor Dylan em seu caminho a novos palcos."

Dylan havia dito à Academia que não poderia comparecer à cerimônia por causa de outros compromissos. Ele se junta a um pequeno time de autores que não foram a Estocolmo receber a honraria, embora os demais ausentes tenham apresentado motivos de saúde ou fobia de avião para a ausência, entre eles Alice Munro, Doris Lessing, Harold Pinter e Elfriede Jelinek.

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