Páginas dos jornais que circularam no passado guardam registros capazes de revelar ideias e momentos históricos decisivos, que moldaram a identidade social e política de determinada região. A linha do tempo da imprensa do antigo Mato Grosso uno e da fase de criação de Mato Grosso do Sul pode contribuir com a construção de um panorama assim – mas ainda precisa ser recriada, e poucas iniciativas se propõem a fazer seu resgate até agora.
Atento a essa janela, e dono de uma pesquisa avançada sobre 87 jornais e revistas criados no intervalo de cem anos (1877-1977) aqui, o doutor em Educação e professor aposentado Luiz Carlos Pais quer contribuir com a escrita da história do Estado e da imprensa, organizando em um livro as informações que conseguiu apurar entre visitas a centros de documentação histórica, conversas com testemunhas de acontecimentos e leituras complementares. A previsão é que dentro de um ano finalize o material.
Ele acredita que ainda haja títulos impressos a serem explorados, no entanto, com os resultados preliminares conseguiu estabelecer quatro fases pelas quais passou a imprensa nesse período - formação, difusão, inflexão e a profissionalização - sendo elas marcadas por mudanças como o crescimento de Campo Grande, a instalação de quartéis em Mato Grosso do Sul, a instalação da estrada de ferro Noroeste do Brasil, a expansão da pecuária, a divisão do Estado de Mato Grosso e a chegada da tecnologia nas cidades e nas gráficas de jornais.
SÉCULO EM JORNAL
Curiosidades e provas do poder e influência que os primeiros jornais exerceram nesta região foram redescobertas pelo autor. Ele leu - nas estrelinhas, com o cruzamento de dados e informações históricas - sua posição política e o papel que se propuseram a fazer na época em que existiram.
Jornais ligados a partidos ou frentes políticas, revistas ilustradas, periódicos estudantis e humorísticos estão entre os arquivos encontrados por Luiz durante a pesquisa. Ele conseguiu acesso a algumas edições no Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, no site da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, na sede do Arquivo Histórico de Campo Grande e nas bibliotecas da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul e do Horto Florestal.
Destaca, entre os mais antigos, a redescoberta do primeiro jornal da região, O Iniciador, que tinha sede em Corumbá; o Voz do Sul, criado no município de Nioaque, que defendia a divisão do Estado muito antes de ela ocorrer; o Jornal do Commercio, cujo dono era um promotor de Justiça que desistiu do cargo; o jornal “A Razão” de Aquidauana, “empastelado” - impedido de ser publicado pelos inimigos políticos; e a revista Folha da Serra, que era referência do noticiário de Campo Grande para outras regiões do País.
Luiz também consegue ligar informações sobre os donos dos jornais com o momento político em que apareceram ou desapareceram. Sobretudo, compreende que a história da imprensa tem estreita relação com a criação e com o crescimento do Estado e com a vinda de pessoas de outros Estados para a região, entre eles professores, literatos e advogados que apostavam no prestígio e na importância do jornalismo.
DESAFIOS
O trabalho se volta ao passado, mas em seu correr, o ex-professor consegue pensar o presente.
“No caso da história da nossa imprensa, um dos grandes desafios da época, fora aqueles jornais mantidos com recursos dos líderes políticos mais abastados, era a manutenção da periodicidade, em termos de custos financeiros para comprar as máquinas, quase sempre importadas, e mantê-las em funcionamento”.
Nessa linha, percebe que os novos formatos da mídia contemporânea criaram novos desafios. “E o retorno histórico que estou fazendo pode contribuir na conscientização dos desafios atuais não somente da imprensa, mas também de outras instituições associadas”, acredita.
EDUCAÇÃO
Aos 60 anos, Luiz decidiu dedicar-se ao estudo da imprensa depois de utilizar os jornais como ferramenta de pesquisa em trabalhos acadêmicos e na escrita de outros dez livros de sua autoria e coautoria publicados. Segundo ele, apesar de não ser jornalista, a influência do pai, sapateiro e poeta, e o convívio com o irmão, profissional da imprensa há 20 anos, despertou interesse pelo jornalismo e sua forma de retratar a realidade.
Fora isso, crê no jornalismo como prática que se inclui na Educação. “São duas áreas que trabalham informação. No caso da educação, a informação é indispensável para elaborar conhecimentos e se apropriar dos saberes elaborados pela sociedade. Penso que o papel da mídia também tem relação direta com esse aspecto. Pode contribuir para que o cidadão desenvolva pensamento crítico, faça suas escolhas e participe dos desafios do seu tempo”.
Por mais que os jornais apresentem um relato imediato da realidade e do cotidiano, eles são capazes de registrar fatos históricos importantes e reproduzir o cotidiano de uma sociedade.