Celebra-se hoje o centenário de Jânio da Silva Quadros, um campo-grandense ilustre, figura de grande importância na história paulista e pátria. Embora nascido aqui, já na tenra infância, muda-se para Curitiba, onde faz sua primeira formação, e, depois, para São Paulo.
Lá, como advogado e professor, inicia sua carreira política, marcada por um ritmo frenético, que explica os mandatos interrompidos para a assunção de novas posições. Soube, como poucos, utilizar-se dos recursos disponíveis na época para forjar o mito em que se converteu. Sem marqueteiros, que naquele tempo não existiam, ele constrói símbolos, cria bordões, articula uma narrativa sui generis, garantindo para si um espaço de poder extraordinário.
Polariza com Adhemar de Barros, interventor nomeado por Vargas, depois governador e “dono” do Partido Social Progressista, disputas memoráveis. Janistas e ademaristas se engalfinham, não por razões ideológicas, já que ambos, líderes populistas, não se diferenciam em essência. É só uma questão de carisma. Adhemar, com menos magnetismo pessoal, valia-se da esposa, d. Leonor, sua fiadora (“aqui está Leonor, que não me deixa mentir”), uma espécie de “Evita tupiniquim”. Jânio escorava-se no “povo de Vila Maria”, bairro periférico da capital paulista, síntese de todas as frentes da veloz expansão urbana que acontecia na cidade, a abrigar migrantes de toda parte, especialmente nordestinos, adventícios recém-chegados sonhando com uma vida melhor. Em seus comícios, usa um boné da Companhia Municipal de Transportes Coletivos (CMTC) e come sanduíche de mortadela, signos de uma identidade popular colada à sua imagem.
Embora no início estivesse vinculado à Democracia Cristã, Jânio sempre cultiva um certo desprezo às agremiações partidárias, apresentando-se como “antipolítico”. Candidata-se a vereador nas eleições de 1947 com votação insuficiente para se eleger, porém, com a cassação dos comunistas e abertas vagas para suplentes, assume seu primeiro mandato, exercido entre 1948 e 1950.
Como deputado estadual, é o mais votado, graças à popularidade granjeada por sua inteligente e intensa atuação na Câmara paulistana. Na Assembleia, ele permanece de 1951 a 1954, protagonizando acalorados debates, sobretudo, com Conceição da Costa Neves, antes atriz de comédias da companhia Procópio Ferreira, sob o pseudônimo de Regina Maura, primeira mulher a presidir um parlamento estadual. Como ambos usam e abusam da veia histriônica, fazem das sessões um espetáculo com grande audiência popular.
Quase em voo solo, ainda filiado ao PDC e em dobradinha com o PSB, Jânio concorre à Prefeitura de São Paulo, contra Adhemar, representante das forças hegemônicas reunidas em um arco de partidos encabeçado pelo PSP, com influência restrita a São Paulo; UDN, PSD e PTB, os três maiores partidos com expressão nacional, e ainda PRP, PR e PL, agremiações que juntas tinham razoável densidade eleitoral. Além disso, as máquinas municipal e estadual estavam a serviço da candidatura situacionista, detentora de generosas fontes de financiamento. Ele se apresenta como justiceiro, paladino da moralidade, defensor dos humildes em oposição às elites conservadoras e ricas. Lança como slogan de campanha “O tostão contra o milhão” e arrebata as massas.
Prefeito de uma cidade que crescia em um ritmo vertiginoso, entre 1953 e 1955, Jânio atende às demandas de infraestrutura requeridas por essa expansão. Adota um estilo de governo com ênfase na modernidade da gestão; despacha por bilhetinhos, em crítica à burocracia; faz visitas-surpresa a repartições públicas, e pune barnabés relapsos; aplica pessoalmente multas de trânsito; mostra o poder da sua autoridade; e fatura excelentes resultados midiáticos, cacifando-se para voos mais altos.
Interrompe o mandato de prefeito para candidatar-se ao governo do Estado. Nessa altura, já rompera como o PDC e busca um pequeno partido, o PTN – Partido Trabalhista Nacional – para abrigar seu projeto de poder. O embate acontece mais uma vez com Adhemar de Barros, franco favorito, e Jânio vence por estreita margem de votos. Para entender essa vitória, é preciso destacar que os analfabetos não votavam; com a elevação das taxas de alfabetização, ampliava-se ano a ano o contingente de eleitores do País; em 1945, eles somavam 5,9 milhões, saltando em 1960 para 11,7 milhões, propriamente o dobro, em apenas 15 anos.
Jânio governa São Paulo de 55 a 59, período que coincide com a presidência de Juscelino, os “anos dourados”, quando o País e, principalmente, São Paulo vivem uma fase de desenvolvimento que permite a ascensão social das camadas subalternas. É nesse momento que o parque fabril paulista, implantado na primeira metade do século 20, sofre uma grande transformação, cujo símbolo maior é a implantação da indústria automobilística. As comunicações se modernizam com o advento da televisão. As taxas de urbanização crescentes apontam para a tendência de esvaziamento do campo. É um tempo de profundas alterações nas estruturas, proporcionando outros e novos horizontes para as pessoas.
Como governador, mantém altos índices de popularidade. Em uma conjuntura com partidos políticos a serviço de “caciques”, sem projetos claros para a nação, restringindo-se a instrumentalizar os diferentes projetos pessoais de poder, Jânio apresenta-se como “antipolítico” e corre em raia própria, forjando a imagem do gestor competente, eficiente, que não se subordina a interesses de qualquer ordem. Essa independência, esse personalismo, ao lado de sua aguda inteligência, reforçam os méritos de sua liderança, carismática por excelência. Ele deixa o governo em alta.
Para não ficar à deriva, elege-se deputado federal pelo Paraná, entretanto, viaja ao exterior e quase não participa dos trabalhos parlamentares. No retorno, com o slogan “Jânio vem aí”, prepara o lançamento de sua candidatura à Presidência. Diante das cartas postas à UDN, que nunca lograra fazer um presidente da república, decide encampar a candidatura de Jânio, ainda no inexpressivo PTN, tendo por contrapartida Milton Campos candidato a vice. Lott pelo PSD, com Jango Goulart para vice, e Adhemar completam o quadro de concorrentes.
A legislação eleitoral não vinculava o voto de presidente e vice, sendo possível sufragar candidatos de chapas diferentes. Jânio, veladamente, estimula a dobradinha Jan-Jan, Jânio e Jango, e ela sai vitoriosa. O resultado obtido no Nordeste deve-se aos migrantes de São Paulo que eram importantes cabos eleitorais, convencendo os conterrâneos com seus testemunhos, por meio de cartas, nas quais louvam o candidato, pedem o voto e o empenho para eleger Jânio.
Apoiado pelas forças conservadoras da UDN, porém, com uma posição desde sempre ambígua, ele, na Presidência, constrói um isolamento crescente. Ao propor medidas econômicas de austeridade, desagrada as massas populares que o elegeram. Ao flertar com Fidel Castro e condecorar Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul, atemoriza as elites. Ao investigar o envolvimento de políticos em casos de corrupção, ameaça as lideranças do getulismo e, com tudo isso, perde interlocução com o Congresso Nacional.
E então, durante a ausência do vice-presidente, que se encontrava em missão oficial à China, e acuado pela conjuntura de crise, pelos ataques da UDN, por meio de Carlos Lacerda, que anunciara um suposto golpe em curso, tramado pelo Ministro da Justiça, na manhã de 25 de agosto de 1961, sete anos após o suicídio de Vargas, Jânio submete sua renúncia ao Congresso Nacional, que, de plano, a aceitou.
Ele diria depois que teriam sido “forças ocultas” as responsáveis por sua decisão. Nunca ficaram satisfatoriamente esclarecidas as causas e circunstâncias do fato. Contudo, uma especulação plausível dá conta de que Jânio, ciente das restrições feitas a seu vice pelas elites conservadoras, supunha que elas seriam refém de seu mandato e, num erro de cálculo, teria pressionado para ter seus poderes ampliados. O tiro sai pela culatra. Dá-se o “golpe parlamentarista”, retirando do vice-presidente Goulart os poderes de chefe de governo, até que o plebiscito de 6 de janeiro de 63 lhe restitui seus plenos direitos.
Nas eleições para o governo de São Paulo, em 62, concorre com Adhemar, sendo derrotado. O eleitorado, que se sentira traído com a sua renúncia, dava a resposta.
O golpe militar de 64 instaura a ditadura e líderes civis expressivos, entre eles Jânio, têm seus direitos políticos cassados, sendo impedidos de qualquer atividade política. Em julho de 68, por conta de declarações à imprensa, Jânio sofre pena de confinamento, sendo transferido para Corumbá e lá vive no Hotel Santa Mônica.
Com a redemocratização, em 82, ele novamente disputa o governo de São Paulo, mas, mesmo passados 21 anos de sua renúncia, o povo ainda não o perdoara, é derrotado por Franco Montoro.
Nas eleições de 86 para prefeito de São Paulo, concorre com Fernando Henrique e Eduardo Suplicy. Jânio vence com pouco mais de 37% dos votos. Já envelhecido e com Eloá, sua eterna companheira e cúmplice, combalida pela doença, ele faz uma gestão que nem de longe se pode comparar às dos áureos tempos. A verve, todavia, não se perde, tanto que a primeira providência de efeito que tomou foi desinfetar a cadeira de prefeito, “que tinha sido ocupada por nádegas indevidas”, em alusão a FHC. Cumpre todo o mandato até 1988.
Posteriormente, circularam rumores, confirmados por Tutu Quadros, então deputada constituinte, de que teria sumido vultosa importância da última campanha do pai, a qual estaria depositada no exterior. Jânio rompe com sua única filha. Em novembro de 90, falece Eloá e a contenda se acirra por conta do controle sobre o espólio. Já no ocaso, com a saúde bastante fragilizada, ele vive o epílogo entre asilos e hospitais. Sofre uma sucessão de acidentes vasculares cerebrais, vindo a falecer a 12 de fevereiro de 92, no Hospital Albert Einsten, em São Paulo.
Independentemente de se concordar com seus objetivos e métodos ou de se divergir de suas atitudes, posições e projeto de poder, é inequívoco tratar-se de um personagem que, pela força de seu carisma, de sua trajetória quixotesca e fascinante, conquistou um lugar definitivo na História; como partícipe de passagens cruciais de nossa política, deixou um legado atualíssimo que circula intensamente entre inúmeros detentores de cargos eletivos. Jânio Quadros sobrevive e se conserva como importante referência para a compreensão da política presente e projeção da futura.
*Sociólogo, professor e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul