Aos poucos, o paladar do campo-grandense começa a dar chance aos novos sabores. Da febre gourmet às cozinhas especializadas, não foram poucas as novas propostas gastronômicas que surgiram nos últimos anos por aqui. Enquanto isso, os estabelecimentos que as preparam ficam cada vez mais populares e acessíveis financeiramente de serem frequentados.
Saciar a fome de novidades gastronômicas acabou se consolidando como um programa cultural completo e não mais como um complemento dos giros pela cidade. Para o chef corumbaense Antônio Luiz Ribeiro dos Santos, isso tem relação com o reconhecimento da gastronomia, com a divulgação da alimentação especializada na mídia e na internet e com a persistência do bom e velho hábito de compartilhar momentos.
Ele detalha: “As pessoas estão mais interessadas em descobrir. Antigamente, tinham certa resistência, agora, estão se encorajando a experimentar”. Outro ponto importante é a informação, que chega mais rápido. “As pessoas estão conhecendo mais a gastronomia. Temos programas de televisão, por exemplo, que divulgam isso, podemos citar também o hábito de fotografar um prato e postar a foto nas redes sociais. Outro fator é a questão de se reunir em torno de uma mesa e de compartilhar esse momento. Isso sempre esteve ligado à nossa cultura, às descobertas de novos sabores”, explica.
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Muita gente faz questão de estar acompanhada de alguém enquanto degusta um prato diferente, que possa ser provado e discutido em meio a conversas cotidianas. Parece que, do contrário, a experiência gastronômica não fica completa. “Antes as pessoas marcavam de se encontrar em praças e baladas para socializar e conversar. Hoje, os restaurantes estão pensando cada vez mais em oferecer um espaço bacana, com recursos tecnológicos, onde dê para estar com amigos. Isso tem atraído as pessoas”, comenta o chef.
Jaqueline Neri, 30 anos, é uma adepta dos encontros em família e com amigos voltados às descobertas gastronômicas. Ela, que é professora, gosta bastante de sair aos fins de semana para se distrair e buscar esses novos menus. Faz isso pelo menos quatro vezes por mês. “Eu procuro fugir das comidas mais clássicas e dos lugares tradicionais. Percebo que abriu muita coisa nova aqui: hamburguerias, restaurante mexicano, cervejarias e até food truck de comida havaiana, recentemente. Aí eu vou experimentando”.
Mais do que um hobby, o gosto por esse tipo de experiência serviu para que ela se lançasse como digital influencer gastronômica de Campo Grande – o mesmo que influenciadora digital, “ocupação” que consiste em publicar posts nas redes sociais para compartilhar com seguidores impressões sobre os pratos e sobre os lugares que visita. Ela criou o perfil @degustacg no Instagram há seis meses e acredita estar ajudando as pessoas e o comércio local com isso. “Às vezes, a pessoa está com o pé atrás, explico do que é feito, detalho como é o lugar e ela fica incentivada a experimentar também”.
Quem também se aventura a conquistar as pessoas nas redes sociais e estimular visitas é a funcionária pública Mayara Gaspar, 24 anos. O perfil que mantém é o @ficadicacg, o que tem mais seguidores em Campo Grande, segundo ela. “Começou como hobby, há quatro anos. Eu e meus amigos gostávamos muito de ir experimentar sushi e isso evoluiu para essa ideia de postar e dizer o que achamos de cada lugar”, conta.
Mayara conta com outros três amigos para degustar e depois fazer posts nas redes. Como estão na ativa há mais tempo, eles já recebem convites dos comerciantes para ir até os locais e cobram uma taxa mensal de R$ 300 para divulgar opiniões e fazer propaganda. Para a funcionária pública, existe sempre muita curiosidade por tudo o que é novo no ramo culinário na Capital. “Tanto é que, sempre quando tem uma inauguração, o lugar lota por muito tempo. O que as pessoas precisam é só de uma indicação, se tiver alguém dizendo que é bom, a pessoa confia e vai”, afirma.
DESCONTO
Para dar mais um motivo para as pessoas começarem a fazer rotas gastronômicas juntas, o estudante de Engenharia Civil, José Roberto Sodré Júnior, 22 anos, teve a ideia de lançar vouchers de desconto para clientes que vão comer acompanhados. Os cupons são aceitos em mais de 30 estabelecimentos de Campo Grande, entre churrascarias, bares, restaurantes de comida árabe e japonesa.
O negócio chama-se CGR Gourmet e foi criado em dezembro do ano passado. Foram vendidas cerca de 300 unidades até agora, e José está na expectativa para que o número aumente este ano. “Eu me inspirei em produtos parecidos, encontrados em países da Europa, e aproveitei que conheço alguns donos de restaurantes. Acredito que os vouchers serão bem-aceitos por aqui também, ainda mais pensando que não tem muitas opções de eventos culturais, baladas, atualmente. As pessoas acabam investindo nas experiências gastronômica”.
REGIONAL
Apesar de o grande público da gastronomia de Campo Grande tender a ser atraído pelas novidades dos sabores globais, o chef Antônio Luiz, também professor do curso de Gastronomia da Uniderp, avisa que uma nova tendência ganha espaço na Capital e em outras cidades brasileiras. Se trata de uma espécie de adaptação culinária com ingredientes de cada região, segundo ele.
“A gastronomia passa por um momento de valorização da regionalidade. Pode-se determinar que a cozinha é francesa ou oriental, por exemplo, mas utilizar ingredientes regionais nas iguarias preparadas. Isso promove a valorização desses ingredientes locais”, diz o professor. Ainda sobre essa “mistura”, explica: “Nesse caso, como não tem como trazer produtos específicos de um país, os chefs podem introduzir produtos regionais. Dá pra substituir a trufa por algo da região, por exemplo, e garantir o valor gastronômico do prato”.
Alguns criticam a falta de autenticidade que isso gera, mas Antônio defende o potencial das recriações. Em Mato Grosso do Sul, ele cita os peixes pantaneiros, a guavira, o pequi, a bocaiuva e a exótica carne de jacaré como ingredientes que prometem diferença e sabor nos pratos e ainda agregam com relação à sustentabilidade, já que possuem elementos que podem ser reaproveitados para fins não alimentícios.