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Engajamento social ganha espaço em meio aos blocos de Carnaval

Engajamento social ganha espaço <br>em meio aos blocos de Carnaval

Redação

21/02/2017 - 16h00

Tem novidade no Carnaval! E abram alas, porque ela veio para ficar. 

Antes de mais nada, vale frisar que o espírito da folia continua o mesmo – Carnaval ainda é licença para extravasar, para se libertar da rotina e se permitir cair na farra até o amanhecer. A novidade, enfim, é o esforço dos organizadores e dos próprios foliões em impedir que o preconceito e a intolerância entrem na festa e acabem com a diversão de alguns. Neste ano, os blocos de carnaval de Campo Grande estão no ritmo para colocar em prática ações de conscientização sobre machismo e racismo, por exemplo, e até dispostos a excluir marchinhas tradicionais, sem medo de que o politicamente correto roube o sentido da festa popular.

MARCHINHAS

“O teu cabelo não nega, mulata/Porque és mulata na cor/Mas como a cor não pega, mulata/Mulata, eu quero o teu amor”. A marchinha composta por Lamartine Babo tem ritmo contagiante e letra chiclete, mas, segundo alguns integrantes de blocos,  é racista. Foi lançada em 1932, em um contexto em que não havia políticas raciais e lei que tipificasse injúria e racismo como crime. Neste ano, será uma das músicas banidas, por exemplo, do bloco de Carnaval da Orquestra Vai Quem Vem. 

Vinil Moraes, um dos criadores da orquestra e organizadores do bloco, explica porque ela e outras marchinhas saem do repertório. “Entendemos que a marchinha é uma brincadeira, uma tiração de sarro. Mas estamos em um momento de consciência, e o racismo ainda é um problema recorrente. Queremos nos encaminhar no debate sobre esses assuntos e nos alinhar também com os discursos contra a homofobia e o machismo. Temos outras inúmeras marchinhas, nem vai fazer diferença tirar quatro ou cinco”. 

Outra preocupação, segundo Vinil, é a poluição que o Carnaval acaba deixando. Para resolver essa questão, a organização fez parceria com uma empresa de coleta de lixo, que vai disponibilizar lixeiras, separar os diferentes materiais e destiná-los à reciclagem. O Vai Quem Vem se reúne na Praça do Rádio Clube, no domingo, a partir das 16h.

ASSÉDIO

Bastante combatido nos últimos anos com todo tipo de campanhas, o assédio sexual contra a mulher no Carnaval é uma violência e crime que não deve passar despercebido no bloco Calcinha Molhada. 

O movimento de rua foi criado por 9 mulheres em outubro do ano passado, justamente com a intenção de garantir um festejo seguro e respeitoso para o público feminino, como explica a arquiteta Raína Menezes. “Só de o bloco ser criado por mulheres, isso já representa essa nossa vontade de tirar os estigmas do que é ser mulher no Carnaval. Geralmente no intervalo de uma música e outra, pegamos o microfone e lembramos a todos que não toleramos nenhum tipo de desrespeito contra a mulher e contra o público LGBT também”.

Em um dos primeiros gritos de Carnaval, homens que estavam filmando mulheres dançando na praça, sem seus consentimentos, foram alertados sobre a política do bloco. Isso porque as imagens, se divulgadas, poderiam trazer prejuízos e gerar ofensas gratuitas às foliãs.

As organizadoras também tomam cuidado em relação à seleção das músicas. “No começo, não prestamos muita atenção no que as músicas diziam, depois fomos recebemos sugestões para retirar algumas músicas e atendemos”, conta Raína. O Calcinha Molhada se reúne na Praça Aquidauana, na sexta-feira, a partir das 17h.

GÊNERO

O Bloco As Depravadas, criado pelo fotógrafo Roberto Higa em 1994, é um que prega com alegria o respeito às diferenças desde que começou a sair às ruas. A ideia inicial era reunir comunicadores em geral para fortalecer a classe e diminuir os embates em relação à ideologia política e trocar comentários machistas e homofóbicos pela descontração.

A jornalista Eliane Nobre ajudou a reativá-lo em 2009. Ela conta que, desde então, a frente que ganha mais força no bloco é a troca de gênero dos foliões, no sábado que antecede o Carnaval. Os homens se vestem de mulher e as mulheres de homem, em sinal de respeito às opções de cada um.

Eles se reuniram no sábado (18), em frente ao bar do Zé, que fica na Rua Barão do Rio Branco, no Centro. Quem passou por ali aprovou. O trabalhador da construção civil, Silvio Leite Serafim, 61 anos, só parou para olhar, mas aprovou. “O Carnaval é para todo mundo. Não importa se é gay, se é homem ou mulher. É muito legal ver eles se divertindo”.

SOLIDARIEDADE

O bloco Evoé Baco desfila pelo bairro e a Orla do São Francisco com a proposta de reunir pessoas para celebrar o Carnaval de um jeito mais tradicional e intimista e também para entoar críticas sociais e praticar a solidariedade. 

Este ano, realizou um concurso de marchinhas em que se destacaram temas como o indígena e a terra, o respeito ao corpo da mulher, a desaprovação a representantes políticos e o uso da camisinha. 

No dia da folia, vai promover ainda a arrecadação de alimentos não perecíveis para as comunidades indígenas guarani kaiowá de Mato Grosso do Sul. Um dos organizadores, o ator Fernando Cruz, garante que o Carnaval será para todos. “Dessa forma que o Carnaval é, de fato, onde todas as pessoas podem brincar e se igualar”. O Evoé Baco se reúne a partir das 17h, na Orla São Francisco, na quinta-feira.

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