Diz uma máxima popular que o ano só começa depois do Carnaval. A frase generaliza um hábito que, de fato, é comum: o de esperar que o feriadão de folia acabe para dar início a tarefas e projetos que poderiam ter sido adiantados no começo do ano. Frequentemente associado às raízes culturais do brasileiro, ele quase sempre é visto como negativo, principalmente por servir de desculpa para postergar mudanças na vida pessoal e por ser a causa da lentidão no trabalho das instituições públicas antes desse período.
Embora considerado típico nesta época, a psicóloga Ester Rostey observa que esse comportamento pode se estender à rotina do ano todo. “Deixar para depois do Carnaval, deixar pra segunda-feira, para o mês que vem, e por aí vai, é uma atitude muito comum entre as pessoas. Nós a vemos no estudante que deixa pra estudar a matéria do ano inteiro na véspera da prova, no funcionário de um escritório que deixa pra redigir um relatório meia hora antes de esgotar o prazo, e em inúmeras situações cotidianas”, afirma.
Segundo Ester, ele também é conhecido por outro nome – a procrastinação. Ela lembra que esse é um mal hábito, sempre citado em relação à eficiência ou à falta dela. No campo pessoal, só é percebido como problemático quando impede a pessoa de alcançar algo que deseja muito. Mas pode ser que, à essa altura, a mudança de hábito fique mais difícil, alerta a psicóloga, no entanto ainda é possível.
“Entra o processo de entender o que esse hábito representa e ao que ele se liga para aquela pessoa, especificamente. Para alguns, pode ter relação com a falta de confiança em si mesmo, com a baixa auto-estima, e a medos mais ou menos inconscientes, e ainda aos comportamentos de oposição. Para outras, com a dificuldade de adiar a gratificação. Se não temos a capacidade de abrir mão de um prazer imediato – as coisas que achamos gostoso fazer – em prol de um esforço, por algum tempo, para realizarmos algo, a probabilidade é a de que não teremos êxito nas coisas mais importantes”.
ESTRATÉGIA
Para alguns segmentos empresariais, o período pós-carnaval é realmente mais favorável para lançar produtos, correr atrás de investimentos e programar um determinado serviço. Isso acontece no ramo dos casamentos, por exemplo. As uniões não costumam ser marcadas para fevereiro e março, e têm alta temporada somente a partir de maio.
Segundo a cerimonialista Maria Leonora, o período de férias e o feriado de carnaval é o principal motivo para que os noivos decidam por outras datas.
Ela trabalha há três anos na área e afirma que especialmente em fevereiro, por causa do feriado, os convidados dos noivos – a maior parte, familiares – costumam tirar férias particulares. Por esse motivo, preferem datas em que todos podem comparecer à festa.
Isso não quer dizer que seja uma pausa para o descanso de quem trabalha no ramo, segundo a empresária. “Fica mais para que a gente dê andamento aos preparativos das festas mesmo e pense no que vai trazer de novidades para os clientes”, conta.
EVENTOS
Uma queixa constante em relação ao período pré-carnaval é a escassez de opção de eventos culturais. Na teoria, nesse setor tudo fica programado para março em diante. Quem trabalha na área, discorda.
O produtor de eventos Wellington Moura tem trabalho o ano todo, sem pausa para o carnaval. Ele afirma que a data não interfere nas programações de janeiro e fevereiro, ao menos aqui em Campo Grande.
“Na verdade, os eventos não dependem do carnaval, e sim da agenda do artista e do roteiro cultural do local onde serão realizados. Os próprios artistas trabalham nesse período e as empresas que cuidam da parte de estrutura e logística também atendem normalmente”, comenta.
Ele afirma ainda que as folias de carnaval não são eventos esperados particularmente no Estado, e que por isso as outras opções culturais não são anuladas nesse período. “Temos uma diversidade grande de opções durante o ano, inclusive durante os primeiros meses do ano”, comenta. Um exemplo dado por Wellington é o show do cantor Léo Santana, atração nacional que reuniu grande público na Capital e aconteceu em fevereiro.
Eduardo Maluf, também produtor de eventos, confirma. “Pode ser que seja algo cultural no Brasil, mas acredito que depende do setor. No ramo do sertanejo, que a minha produtora trabalha, não é uma particularidade”, afirma.