Mais do que discutir poesia, os encontros propostos pela escritora Moema Vilela, autora dos contos reunidos em “Ter Saudade Era Bom”, levarão os participantes a produzir textos poéticos. É uma maneira de entender a fundo os mecanismos criativos de cinco autoras contemporâneas brasileiras. Serão dois encontros, duas rodas de conversa, como Moema as define.
O primeiro será amanhã, às 19h, e traz como tema a obra de cinco jovens poetas brasileiras. No sábado, entre as 10h e as 12h, acontece o segundo encontro, “Artesania da Palavra”, com foco na produção textual. Os “Encontros Poéticos” acontecem na livraria Le Parole – Rua Euclides da Cunha, 1.126. O investimento é de R$ 65 (quem optar pelos dois, tem desconto de R$ 10). Haverá certificado de participação.
Moema, campo-grandense moradora de Porto Alegre e Doutora em Letras/Escrita Criativa pela PUCRS, optou por discutir o trabalho de Ana Martins Marques, Angélica Freitas, Marília Garcia, Alice Sant’anna e Bruna Beber. “São cinco poetas que, embora jovens ou relativamente jovens, já estabeleceram sua relevância na produção recente, com obras muito férteis e bastante variadas entre si”, argumenta.
Por que conversar sobre poesia?
Sempre é tempo de conversar de poesia. De fazer, de ler, de viver e de pensar a poesia. A poesia nos torna mais conscientes de nosso presente, de nosso tempo, e isso nos dá mais clareza, e companhia, e coragem. Concordo com o T.S. Eliot que diz que a poesia nos torna mais conscientes dos sentimentos profundos e inominados que estão dentro de nós. Neste sentido, é também como poetiza o Emmanuel Marinho: “A poesia não compra sapatos, mas como andar sem poesia?”. Pra continuar nas explicações de poetas sobre a relação entre poesia e vida, quando a poeta portuguesa Matilde Campilho diz que a poesia não salva o mundo, mas salva o minuto, é isso. A poesia nos traz para o presente, para estarmos presentes em nós.
Você fez um recorte que destaca cinco poetas brasileiras. Por que elas?
Ana Martins Marques, Angélica Freitas, Marília Garcia, Alice Sant’anna e Bruna Beber são cinco poetas que, embora jovens ou relativamente jovens, já estabeleceram sua relevância na produção recente, com obras muito férteis e bastante variadas entre si. São obras em que podemos também encontrar muitas interlocuções interessantes para pensar a poesia recente feita no Brasil – com trânsitos entre tradução, editoração de poesia, audiovisual, música. Há muita coisa maravilhosa sendo feita na poesia contemporânea brasileira, inclusive por poetas que pouco ou nada aparecem neste circuito que chega nas livrarias, em grandes eventos, editoras populares ou na mídia.
Uma parte da oficina é dedicada à criação, mas não é exigida experiência. Como fazer com que não-escritores escrevam?
Seria maravilhoso se todo mundo que desejasse pudesse encontrar como se apropriar mais desse ato potente e transformador que é escrever, independentemente da intenção de se tornar ou não um escritor profissional. Escrever é um exercício de clareza da mente, de criação, de imaginação. No caso das rodas de conversa na Le Parole, vou fazer exercícios que contemplem quem não é familiarizado com a prática, sempre fazendo o máximo para que cada um se sinta à vontade com seus hábitos e experiências de escrita. Ao mesmo tempo, os exercícios contemplam também quem tem familiaridade com a escrita, quem é escritor e quer aprimorar seus textos. Por outras experiências, a interação é muito rica, e o que acontece em geral é que essas pessoas que imaginam que vão se sentir intimidadas acabam descobrindo coisas que as satisfazem nos exercícios de escrita, e costumam também querer compartilhar os textos.
O que te levou a Porto Alegre? Gostaria de saber um pouco sobre essa mudança que te levou do jornalismo à literatura.
Eu queria me dedicar mais à literatura e em Campo Grande ficava sempre envolvida em trabalhos e projetos de que gostava e que me ocupavam bastante, e com os quais eu não conseguia conciliar bem o tempo da escrita. Houve uma certa clareza na sensação de que eu não conseguiria fazer todas as coisas que me encantavam a imaginação, e o amadurecimento dessa certeza desembocou na escolha de dar um voto de confiança para essa vontade de escrever mais. Olhando diferentes opções, Porto Alegre me parecia na época uma cidade boa de se viver, e onde a literatura era forte e a criação literária encontrava um espaço dentro da universidade que me interessava muito, porque eu sempre tive muito interesse pela pesquisa. No fim, acabei fazendo toda uma formação em Escrita Criativa na PUCRS e terminando agora em janeiro o doutorado aqui, nesta área.
Nesse processo, você publicou “Ter Saudade Era Bom”, um livro de contos. Como foi o processo de realização desse projeto? Tem planos de publicar mais?
Publicar o Ter saudade era bom gerou muitas coisas novas e importantes pra mim. Uma foi ter os retornos de leituras, que mostraram muitas coisas sobre o livro que eu não tinha visto, nem imaginado. O livro é composto de contos em geral escritos entre 2010 e 2014, em uma reunião que tinha uma vontade de pluralidade, de explorar diferentes possibilidades do conto como gênero, com diversidade de narradores, personagens, registros de linguagem. Estou com outros livros e libretos escritos, que fui compondo enquanto me concentrava no doutorado e deixei descansando na gaveta (em outras palavras: em dezenas de pastas no computador). Em breve quero ir atrás de tentar publicar isso de alguma forma. Penso em publicar alguns livretos de forma artesanal e também disponibilizar on-line.
Finalmente, estamos tratando aqui de literatura contemporânea, algo que pouca gente consegue definir bem. Tudo o que é feito hoje pode ser considerado literatura contemporânea ou existe uma forma estética e temática que a define?
Existem diferentes definições possíveis sobre o contemporâneo, para além de um recorte puramente temporal. No caso do curso, estou falando do presente temporal mesmo, em quem escreve agora, em 2017 – mas que, por isso, se encaixam também de alguma forma em muitos sentidos em definições do contemporâneo, do pós-moderno ou do “novo”, como as de Agamben, Gumbrecht, Bourdieu, Morin, Lyotard, Jameson, dos teóricos da desconstrução.
ENCONTROS POÉTICOS
Com Moema Vilela
Onde: Livraria Le Parole.
Quando: Sexta-feira, às 19h, e sábado, às 10h.
Investimento: R$ 65