“João e o Pé de Feijão na Terra do Nunca”, como o título indica, une duas histórias bastante conhecidas do universo das narrativas infantis: “Peter Pan” e “João e o Pé de Feijão”. O espetáculo estreou ontem e terá mais duas apresentações hoje, às 18h e às 20h, no Teatro Prosa do Sesc Horto – Rua Anhanduí, 200.
Com dramaturgia de Anderson Bosh, o trabalho é uma miscelânea de circo, teatro, poesia e manipulação de objetos. Os trabalhos começaram no início de 2016. O grupo foi vencedor do Prêmio Rubens Corrêa de Teatro. “Como só recebemos em novembro, a estreia ficou para o início do ano”, comenta a produtora Laila Pulchério.
Foi nesse meio tempo que surgiu o convite para que a dramaturgia e a direção fossem feitas por Anderson, vencedor de prêmios internacionais por seus textos teatrais. “O Circo do Mato já tinha uma ideia do que queria, o argumento estava pronto. A proposta era uma montagem voltada para o público infantil”, explica o dramaturgo.
Infantil, no entanto, não significa uma montagem superficial ou infantilizada. “É uma releitura de dois clássicos, mas que tenta oferecer uma leitura mais abrangente para as crianças. Tudo é muito lúdico, mas aproveitamos para trazer algumas questões políticas ao espetáculo”, explica Anderson. Há dez anos ele deixou Mato Grosso do Sul para continuar sua formação com um mestrado em São Paulo.
“A maioria dos nossos espetáculos foi feita para todos os públicos. Mas sempre tivemos uma resposta muito forte das crianças”, explica Laila. Com “João e o Pé de Feijão na Terra do Nunca”, o grupo decidiu produzir algo voltado para o universo infantil. “A produção se iniciou em janeiro do ano passado, mas ocorreram muitas mudanças. Uma delas foi que passamos a contar com a parceria do Anderson”, afirma.
ENREDO
A releitura que Anderson promove dos dois clássicos prevê um encontro inusitado entre heróis e vilões. Tudo se inicia com a invasão de Capitão Gancho à Terra das Nuvens e a expulsão de João e sua mãe para a Terra do Nunca.
Exilados na Terra do Nunca à mercê dos infortúnios do lugar, João decide vender sua vaca Mimosa e acaba a trocando com um ardiloso mascate por sonhos e feijões mágicos, que fantasticamente o levam de volta à Terra das Nuvens, às suas origens e histórias perdidas no passado. Lá, ele pode enfrentar Gancho em uma batalha pela reconquista de sua casa.
A adaptação se vale de uma linguagem contemporânea, expressa nas releituras cinematográficas dos clássicos literários infantis. Ao mesmo tempo, também se trata de uma produção poética. “Eu escrevi um trabalho que se volta para a poesia. Todos os diálogos são feitos em forma de poemas”, explica Anderson.
Segundo ele, o conteúdo político é abordado de maneira leve e lúdica. “Questionamos certos pontos de vista e certas ações. O agronegócio, a venda da nossa água, a poluição dos rios, a política coronelista que ainda impera no Estado. Essas velhas questões que estão de volta à tona aparecem em nosso trabalho”, comenta.
Em tom jocoso, Anderson afirma que o importante agora é conscientizar as crianças. “Tornou-se impossível falar para grande parte dos adultos sobre esses temas. É uma maneira para despertar o pensamento crítico nas crianças”, acredita.