As novas profissões, mais ligadas à tecnologia, seguem em vias de deixar totalmente o campo das promessas para se firmarem no mercado de trabalho global. Enquanto isso, algumas ocupações tradicionais pisam em terreno incerto. As necessidades e o comportamento das pessoas não são os mesmos, e é nesse cenário que os antigos serviços tentam se adaptar para nadar na maré das novas oportunidades.
Dá para encontrar profissionais que resistiram aos novos tempos em uma caminhada rápida pelas ruas de Campo Grande. Tem lambe-lambe que virou fotógrafo digital de praça. Têm indígenas que levavam milho na cabeça para vender porta a porta e hoje são feirantes de produtos regionais em local fixo e oferecem a comodidade do pagamento em cartão. A mudança não deixou espaço para velhos moldes, e eles se adequaram.
3X4
Em uma provável árvore familiar, as selfies publicadas nas redes sociais seriam as netas das primeiras fotografias feitas pelo lambe-lambe nas praças. Ele foi o principal responsável pela popularização do retrato nos espaços públicos.
Na praça Ary Coelho, ainda se veem duas caixas escuras com tripés, iguais às que eram utilizadas por esses fotógrafos de rua antigamente. Quem insiste em mantê-las como assessório de trabalho – talvez pelo apelo nostálgico – são dois fotógrafos que abandonaram as câmeras analógicas e as substituíram por digitais. Elas ficam guardadas dentro da caixa, e são retiradas quando um cliente aparece.
Os fotógrafos preferiram não dar entrevista, mas revelaram o preço do serviço. Quatro fotos 3X4 custam R$ 13 e são entregues na hora, após serem retiradas de uma mini-impressora e recortadas.
PICOLÉ
Era costume separar moedas e esperar o “picolezeiro” buzinar o carrinho na rua, antes de as sorveterias e os freezers das marcas começarem a se espalhar pela cidade. Esse tipo de trabalho ficou cada vez menos rentável desde que as pessoas começaram a ter mais facilidade para se deslocar, na opinião do empresário Danilo Costa, 37 anos. Para ele, que trabalha com vendas no ramo, isso aconteceu também porque vivemos na época do imediatismo. “As pessoas preferem ir até o local, escolher e consumir na hora”, afirma.
Danilo é dono de um quiosque de picolé gourmet artesanal que fica dentro de um supermercado de Campo Grande. Vende por mês o que 20 carrinhos de rua vendiam juntos. “Já até tentei colocar carrinho na rua de novo, reavivar essa tática, mas não dá certo. O negócio no quiosque foi a melhor aposta”. Ele só utiliza o carrinho quando leva picolé para festas de aniversário e outros tipos de eventos. Combina o serviço por WhatsApp e por telefone. Aceita cartão e mantém uma página da marca no Facebook com descrição e fotos dos produtos, para que a clientela também “coma com os olhos”.
A mãe de Danilo foi quem começou a trabalhar com sorvetes. Ela produzia e vendia quando ele e os irmãos eram crianças. “Lembro que a atendente colocava dois sabores no cascão nessa época e a pessoa nem via da onde saía o sorvete. Hoje eu trabalho mais com o visual. A pessoa bate o olho na vitrine e já quer o picolé. Paga, sai e consome na hora”.
NATURAL
Na esquina da Avenida Calógeras com a Avenida Afonso Pena ainda se encontra um dos vendedores de ervas medicinais que eram figura fácil no Centro até pouco tempo. Popularmente chamado de “raizeiro”, os vendedores de uma variedade de ervas e raízes que podem ser utilizadas para atenuar ou curar problemas de saúde estão cada vez mais difíceis de serem encontrados.
A empresária Rubenita Santiago, 46 anos, acredita que a cura natural continua sendo valorizada e por isso resolveu investir no segmento com inovação. O conhecimento do avô, descendente de indígenas, e do pai, se tornou o produto que dá continuidade à tradição familiar e atende às novas necessidades das pessoas. “As alternativas naturais estão cada vez mais em alta, não é? As pessoas estão recorrendo mais aos chás e aos próprios alimentos naturais para fugir dos laboratórios, dos químicos. Vi isso também como uma oportunidade de não deixar esse conhecimento valioso, que vem lá do meu avô, morrer”, explica.
Junto com o pai, cuida de uma loja que vende extrato de ervas em garrafas e diversas raízes que, garante, não são encontradas facilmente em Campo Grande. A loja fica no Bairro Jardim Imá, e realiza entregas.
A indicação ainda é a garantia de bons negócios para eles. “As pessoas estão muito envolvidas com a informação, então a gente tem que comprovar resultado. A ciência estuda todas as ervas, a informação está globalizada”, diz Rubenita.