Correio B

crônica

Thereza Hilcar: "A vida sem eles"

Thereza Hilcar: "A vida sem eles"

Redação

09/05/2017 - 08h06

Não há mais porteiros na guarita. Foram despedidos por medida de economia, o que dá um alívio para os bolsos da maioria dos moradores. Alguns não ficaram tão felizes – os mais idosos, principalmente - mas foram vencidos pela votação do condomínio. Alguns deles volta e meia, ainda passam pela portaria olhando de mansinho o local onde ficavam dia e dia, os diligentes porteiros.

Pessoas que ajudavam a carregar sacolas, malas, colocavam as encomendas no elevador (para poupar nossa descida), quebravam os galhos do dia a dia, faziam parte da rotina do prédio. No lugar deles, temos códigos e porteiros eletrônicos. Agora é cada um por si e vários números para todos.

Como em boa parte dos edifícios do centro da cidade, os moradores são idosos e muitos moram sozinhos. É prático morar perto de tudo. Fui uma das maiores defensoras da mudança. Taxas de condomínio às vezes podem ser comparadas a um aluguel, tamanho custo. Um luxo para poucos em tempos de grana nenhuma.

Mas ao observar à senhora que para na portaria e olha e, juntando as duas mãos em concha, tenta enxergar além do vidro, como se buscasse algum resquício humano, me deixa pensativa. Por certo, sente falta do bate- papo rotineiro, de alguém para ouvir as pequenas reclamações ou apenas fazer comentários sobre o tempo.  

Desde que a tecnologia chegou ao prédio, acabaram-se os bom-dia, boa-tarde, boa-noite. Não se vê mais potinhos de comida, pacotes ou sacolas circulando nos elevadores. Não há mais para quem ligar do apartamento e perguntar como está o tempo lá fora. Não há mais ninguém para pegar nossos recados, ou entregar algum bilhete.

Não há mais notícias de viva voz. Apenas um caixa de correspondência que muitas vezes nem me lembro que está lá. Mas a economia vale a pena, resigno-me cada vez que a conta do condomínio diminui um número.

E é claro, toda mudança leva um tempo para ser assimilada. Números e botões podem ser complicados para os mais velhos. Ou para quem, como eu, não enxerga quase nada sem os óculos de leitura. Dia desses, ao errar uma palavra, fiquei presa entre os dois portões de segurança. Tudo por preguiça de pegar os óculos na bolsa.

De vez quando flagro alguém usando a chave ao invés de digitar o código. Mais um para atazanar a vida, deve pensar. Como se não bastasse tantas senhas para decorar. Pois é, não é fácil envelhecer em um mundo feito de códigos.

Quem me conhece bem, sabe que detesto atender telefones, interfones e todos os correspondentes. Quando não quero ou não posso atender, consigo suportar o som de uma campainha até o interlocutor se cansar. Por isto, o que mais sinto falta é da triagem.

Sim, porque sem o porteiro (ou porteira, já que tínhamos uma que era um primor de delicadeza), todo mundo pode lhe chamar, às vezes em horas impróprias, na tranquilidade do seu lar. Basta saber o número do apartamento. Não raro sou obrigada a desfazer enganos, já que tenho vizinha com mesmo nome que o meu. Sem falar nas chamadas aleatórias, dessas que não vão fazer nenhuma diferença no seu dia.

Ás vezes penso que o melhor seria morar numa casinha. Pequena, com belo jardim, um bairro tranquilo ou uma cidade pequena, dessas que ainda não foram invadidas pela insegurança e excesso de tecnologia. Com uma varanda de onde eu possa trocar sorrisos, conversas e até um cafezinho. Um dia, quem sabe?

Por enquanto estou torcendo pela volta do Batista, nosso zelador que, felizmente, não foi afetado pela economia, apenas tirou umas férias.  Sinto falta da sua alegria e da sua conversa, sempre pontual e discreta, além do seu conhecimento técnico. Não gosto de falar com botões – a não ser os meus. Sinto falta de gente. Volta logo, Batista!

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